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O item de maquiagem que já foi símbolo de esperança em meio à crise

O batom já foi ícone de classes sociais, mas também injeção de ânimo diante de tragédias. A história mostra que sempre há motivo para se manter otimista

Por Isabella Marinelli - Atualizado em 17 ago 2020, 12h25 - Publicado em 20 ago 2020, 10h00

O hábito de colorir os lábios não é exclusivo da modernidade. Conta-se que a rainha africana Nefertiti, do Egito, tingia a pele da boca com uma mistura de pigmentos das frutas. Já na Grécia Antiga, o uso do tom escarlate era o que diferenciava as cortesãs das mulheres comuns – e, por regras masculinas, elas não podiam cruzar essas fronteiras. Mais para a frente, ainda na Europa, relata-se que a rainha Elizabeth I da Inglaterra era adepta do hábito, enquanto as plebeias eram proibidas por lei de aderir ao truque sob ameaça de acusação de bruxaria.

Entre os séculos 18 e 19, o batom felizmente deixou de ser restrito e passou a ser vendido para o grande público. Muitas evoluções em termos de cor e embalagem vieram – como você pode imaginar, a primeira versão não tinha tubinho giratório nem espelho na tampa. Outro marco veio em 1910, quando a canadense Florence Nightingale Graham decidiu seguir rumo à cidade de Nova York para apostar num sonho. Enfermeira, ela formulava cremes para cuidar de queimaduras, mas logo desenvolveu composições para também tratar e maquiar a pele. Depois de formar-se esteticista, abriu um salão na Quinta Avenida, o Red Door Salon, e mudou seu nome para Elizabeth Arden.

O que nem todos sabem é que, além de empreendedora, Elizabeth foi uma grande defensora dos direitos femininos. A sua intenção era que as mulheres se unissem pela emancipação e, para isso, criou um símbolo: o Red Door Red, um batom vermelho que foi distribuído às sufragistas. Adiantando o relógio, chegamos ao lipstick effect, fenômeno observado anos depois da quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. O aumento da venda de cosméticos serviu de termômetro informal do mercado. Era prova de que as pessoas estavam dispostas a gastar em algo que trouxesse conforto e autoestima em momentos duros. Apesar de controverso, foi percebido também em 2001, depois do atentado de 11 de setembro, nos Estados Unidos.

Na atual crise, com a boca coberta pelas máscaras, como ficaremos? Melissa McGinnis, head de compras de beleza na gigante Selfridges, aposta que o skincare tomará o lugar do batom. O bureau de tendências Mintel, por sua vez, aponta para um crescimento do segmento de produtos para os olhos no mercado asiático. É fato que, independentemente da métrica, comportamentos se repetem e, em tempos desafiadores, refletem sentimentos de esperança ou, simplesmente, representam pequenas autoindulgências. Nesse caso, se não for pelo make, será por algo mais trivial, como um banho gostoso. O que a gente não pode esquecer é que o passado já provou que dor e beleza podem coexistir. Cabe a cada um encontrar uma forma respeitosa e prazerosa de torná-las harmônicas. Nem que seja pelo deslizar de um batom que ninguém poderá ver.

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