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Kika Gama Lobo Por Atitude 50 Focada na maturidade como plataforma pessoal, a jornalista Kika Gama Lobo escreve sobre as sensações e barreiras que as mulheres de 50 anos vivenciam

Seja marginal, seja herói

"Não quero mais sorrir para agradar. Não quero mais fakear para existir", escreve Kika Gama Lobo

Por Kika Gama Lobo Atualizado em 27 jan 2021, 13h42 - Publicado em 27 jan 2021, 13h30

É legal ser polida. Tenho cara de camafeu e sempre prezei pela cordialidade, mas virei à mesa. E não foi com ninguém. Acionei a tecla sap da libertação das minhas formalidades. Tenho achado chatíssimo essa etiqueta da pandemia.

Já está na hora de darmos uma surtada afinal estamos chegando a 365 dias correndo do vírus, nos lambuzando de álcool gel e nos benzendo em porta de hospital. Eu dei meu grito primal. Não quero mais sorrir para agradar. Não quero mais fakear para existir.

Quero fazer brotar o meu lado mais hediondo. E não é revanche, neura ou raiva. É um renascer das cinzas dos amigos mortos, das valas abertas, das cerimônias de adeus via zoom, ultra gélidas. Tôooooo cansada. Cansada destra ramerame que não ata nem desata e vem a infectologista na Globonews e diz que máscaras, distanciamento e contágio vão durar até 2022.

Faz como? Como seguimos? Já estou entrando no modo depressão permanente e acho que pelo meu grau de agressividade, só pioro. Faz como? Repeteco das mesmas perguntas… Sorry pelo texto, mas ando cabisbaixa. Tá foda competir com a realidade.

A mulher esfaqueada e morta por aí puxa um rosário de tragédias como as balas perdidas do meu Rio a água suja da Cedae, o superfaturamento na saúde e a Bibi na telinha reprisando o crime-ostentação em rede nacional. Penso em dar um tapa, mas estarei alimentando o tráfico? Correr pra liberar endorfina só até às 18h, depois é assalto certo na Lagoa ou Ipanema.

Fazer sexo selvagem? Não me depilei e o marido tem trabalhado à exaustão. Stalkear as redes sociais? Dá uma depressão fudida não estar zen ou com a barriga tanquinho. Melhor me voluntariar para ajudar as comunidades ultra carentes pois acabo já já com esse meu draminha pessoal. Ou quem sabe não entro numa sonoterapia e acordo magra, loura, jovem, rica e com a noticia da cura do Covid.

Não Kika. Pensando bem, melhor viver acordada e lutar por um mundo mais justo, menos violento, plural, igualitário e vacinado. Melhorei!

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