Esgotos

Morar no Rio, em tempos de pandemia, é colocar lentes de aumento para uma cidade dividida entre os que têm e os que carecem de tudo

Sou carioca. Saca aquela que vive na cidade maravilha da alegria e do caos? E dá-lhe caos. As comunidades com seus lixos a céu aberto dão a noção macabra do abismo social em que vivemos aqui. De um lado, a riqueza protegida de seus álcool géis, máscaras duplas e desinfetantes esterilizando culpas. Do outro, barriga-d’águas, nojo e abandono.

Morar no Rio, em tempos de pandemia, é colocar lentes de aumento para uma cidade partida, dividida entre os que têm e os que carecem de tudo. E eu resolvo dar um pulo na comunidade perto da minha casa e só na entrada da favela já sinto os efeitos desse hiato social. Moscas aos montes, fedor e esgotos, hordas de lixo e aquele desdém dos moradores assustados, porém anestesiados em suas faltas.

Ali parece que as regras atuais de higiene não imperam. Lavar as mãos com frequência, com água limpa e sabão é quase uma quimera, sonho impossível. Distanciamento social é outra impossibilidade já que bolsões humanos, muvuca constante é mister por lá e eu fico a pensar quando vamos resolver esse gap. Ou seremos eternamente reféns desse cenário? Urge agirmos de fato e usarmos esse horror mundial como trampolim para desempoeirarmos a preguiça cívica. Senão vai dar ruim. É a tragédia anunciada que unirá os efeitos do vírus com a carestia das virtudes. E não adianta bradar “Rio, eu te amo”, afinal, quem ama, cuida.

Em tempos de isolamento, não se cobre tanto a ser produtiva:

 

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