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Kika Gama Lobo Por Atitude 50 Focada na maturidade como plataforma pessoal, a jornalista Kika Gama Lobo escreve sobre as sensações e barreiras que as mulheres de 50 anos vivenciam

Alagadas, desabadas e queimadas

É fogo envelhecer. Tudo desaba. Alagamos de tanto chorar quando vemos a vida tendo seu ponto final se aproximando

Por Kika Gama Lobo - Atualizado em 17 abr 2019, 11h04 - Publicado em 17 abr 2019, 11h03

Você não arde por dentro? Desagua por vezes? Sente-se desabada, praticamente uma sem-teto em seu íntimo? A analogia é cruel, sobretudo para mim que sou uma carioca da gema, mas pego justamente o caos urbano do meu Rio lindo para pensar a existência da mulher madura.

É fogo envelhecer. Tudo desaba. Alagamos de tanto chorar quando vemos a vida tendo seu ponto final se aproximando. Ou você acha que não iremos morrer? Esse sentimento highlander, hollywoodiano em sua ingenuidade, tem seus dias contados.

A cada pinta de senilidade, a cada novo pentelho branco, uma ruga novinha na face, uma celulite grossa que veio para ficar, eu percebo que morro um pouco mais. Tenho dentro de mim ainda muitos sonhos, mas por vezes, os abandono pela estrada sem nem olhar para trás.

Quis tanto ser rica… Quis tanto ser uma grande empresária… Viajar o mundo. E a casa própria –nossa quantas mil vezes sonhei com a tal da escritura definitiva no cartório? Minha filha formada em Mônaco? A outra já motorizada? Eu tranquila aproveitando a aposentadoria e com tempo livre para escrever meu livro? Botox, pensei. Dar aquela esticada no pescoço, também. Mas falta dinheiro, minha gente.

O meu trabalho pessoal hoje é desencanar. É pensar que nada disso vai rolar, mas que melhorei e muito como ser humano. Mais calma, mais compreensiva, mais tolerante, menos ácida e preconceituosa. Um rio de sanidade banhado de civilidade encheu minha vida pretensamente material.

As missas dominicais de encontros com a fé, as leituras e meditações via Spotify, os papos com artistas desconhecidos no metrô – raçudos até o último fio de cabelo_, tudo isso tem me ajudado a ser alguém melhor. Ainda falta estar mais próxima das meninas, ser menos bélica no casamento, não explodir com as malas da humanidade. E nessa tristeza em que se encontra o meu Rio de Janeiro, só tenho a agradecer estar viva em meio a milicianos que tombam prédios de papel, a chuvas que destroem vidas, incêndios que queimam arquivos e aos políticos que zombam da nação carioca. Maturidade rima com oportunidade para resignificar o ruim e tocar o barco. Capito?

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