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Ana Claudia Paixão A jornalista e editora digital de CLAUDIA, Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood.

A trágica história de Tammi Terrell, a voz que definiu a paixão e o soul

Há 50 anos, em 1970, a cantora que fez sucesso com dois álbuns gravados em dueto com Marvin Gaye, morreu pouco antes de completar 25 anos

Por Ana Claudia Paixão - Atualizado em 9 out 2020, 17h01 - Publicado em 8 out 2020, 23h02

Na noite de 14 outubro de 1967, Marvin Gaye e Tammi Terrell, que dominavam as paradas com o clássico instantâneo, Ain’t no Mountain High Enough, subiram ao palco para mais uma apresentação. Eles estavam viajando há alguns meses, aparecendo na TV e rádios, divulgando seu primeiro álbum. Naquela noite, Tammi sofria com uma enxaqueca e, quando a dor se tornou insuportável, ela desmaiou nos braços do parceiro, ainda na frente de uma plateia assustada. Gaye, desesperado, a carregou para o camarim. Ninguém sabia o que estava acontecendo.

Os exames revelaram o pior. A dor era causada por um tumor maligno no cérebro. Nos próximos 18 meses, entre várias cirurgias, Tammi conseguiu gravar outro álbum com Marvin Gaye e também um solo, criando sucessos como Ain’t Nothing Like The Real Thing You’re All I Need to Get By, que também chegaram a número 1. Ela se mantinha positiva e o álbum Irresistible Tammi Terrell era para ser sua grande virada de estrela, mas ela já estava doente demais para fazer uma turnê. A última vez que foi vista em público foi em 1969, no lendário Apollo Theater, em Nova York, em um show de Marvin Gaye. No ano seguinte falecia aos 24 anos. A perda foi inestimável para a música.

Thomasina Winifred Montgomery estava destinada a ser uma das grandes estrelas negras da música americana e da gravadora Motown. Foi descoberta aos 15 anos pelo compositor e produtor, Luther Dixon, mas desde os 11 anos participava de shows de calouros, sonhando com uma carreira de cantora. “Não foi uma decisão repentina da minha parte de entrar para o mundo do entretenimento”, ela confessou em uma entrevista para a revista Ebony. “Eu já estava no ramo desde os 11 anos de idade. Quando tinha três anos, meus pais começaram a me levar para aulas de piano, dança e canto”, contou.

Com Dixon, gravou algumas demos, inclusive para o grupo The Shirelles e viajava como backup singer de James Brown. Mas a carreira musical não parecia ir a lugar algum, então Tammi voltou para escola para estudar medicina. Ainda na faculdade, se manteve cantando, e, ao fazer uma turnê com Jerry Butler, foi finalmente vista por Berry Gordy, o dono da Motown. Ele a contratou imediatamente. O mundo perdeu uma médica, mas uma estrela estava para nascer.

Gordy, como todos, se encantou com a jovem e decidiu que ela seria uma das maiores cantoras de soul de sua gravadora. Ele mudou o nome dela para “Tammi Terrell”, porque achava que soava “mais sexy”. Em seu primeiro album, Tammi cantou All I Do Is Think About You, de Stevie Wonder, e This Old Heart Of Mine do The Isley Brothers. Desde pequena, ela sofria com fortes dores de cabeça, que voltaram com mais força e frequência, mas ainda assim não foram levadas a sério.

Como Tammi tinha um talento especial para duetos, Gordy decidiu colocá-la em uma parceria com o grande Marvin Gaye, já famoso naquela época. Ain’t No Mountain High Enough explodiu imediatamente. Seguido por Your Precious Love, a dupla logo dominou as rádios. O álbum United, um dos melhores de soul de todos os tempos, foi o primeiro dos dois juntos, que embarcaram em uma turnê pelos Estados Unidos, em 1967. A turnê foi encerrada abruptamente na fatídica noite de 14 de outubro.

Além do câncer cerebral, a curta vida de Tammi foi marcada por outros traumas e abusos. De acordo com o documentário Unsung, ainda adolescente, ela foi violentada por três jovens quando voltava da escola. As marcas psicológicas ficaram com ela para o resto de sua curta vida e, para piorar, os namorados também foram violentos.

James Brown, que era 12 anos mais velho e a namorou quando a cantora tinha apenas 17 anos, batia com frequência em Tammi. Ela rompeu com ele depois apanhar até sangrar por não assistir uma apresentação dele até o fim. Em seguida, se apaixonou por David Ruffin, vocalista do The Temptations, de quem ficou noiva. Porém, logo descobriu que não apenas ele já era casado e pai de três filhos, como também tinha outra namorada além dela.

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David chegou a agredi-la na cabeça com o capacete de sua moto (iniciando a lenda de que a agressão teria causado o tumor, mas não é verdade). Sam Cooke também teria tido um romance com ela. O que surpreende a todos é que justamente com o famoso mulherengo Marvin Gaye, Tammi jamais teve um envolvimento além de amizade. Havia química, mas eram como irmãos. Sem dúvida ela foi uma das mulheres mais importantes para ele. Antes de morrer, Tammi era noiva do médico que cuidava dela, o Dr.Ernest Garrett.

Em janeiro de 1970, como consequência da quimioterapia e o avanço do câncer, Tammi já estava cega e sem cabelo. Com menos de 45 quilos, ela também só conseguia se locomover de cadeira de rodas. Entrou em coma após a oitava cirurgia para tratar do tumor. Três meses depois morreu, em 16 de março de 1970. Marvin Gaye ficou desolado. Parou de cantar por mais de um ano e os biógrafos dizem que ele nunca se recuperou da trágica morte da parceira, que foi um dos fatos determinantes para deslanchar o espiral de depressão e abuso de drogas que acabou marcando a vida e carreira do cantor.

A última apresentação dos dois juntos, em 1969, foi histórica. Tammi, já debilitada, estava na plateia de um show de Marvin, no Apollo. O cantor a viu e desceu até onde ela estava. Juntos cantaram You’re All I Need to Get By. Os aplausos, em pé, e as lágrimas, marcaram a despedida da cantora. Ela nunca mais cantaria depois dessa noite.

O noivo de Tammi e a família dela proibiram a presença dos ex-namorados no velório, assim como qualquer pessoa da gravadora Motown. Apenas Marvin Gaye pôde participar da cerimônia íntima, sendo ele o responsável pelo discurso emocionado em memória da grande amiga, ao som da última canção que cantaram juntos. Ele só voltou a gravar em 1971, quando lançou o clássico What’s Going On, inspirado na morte de Tammi e nas histórias do Vietnam relatadas por seu irmão.

A história emocionante de Tammi Terrell, estranhamente, ainda não chegou aos cinemas, apesar de vários projetos anunciados. Há dois em andamento no momento, porém se arrastam há mais de cinco anos. Um deles é baseado na biografia, escrita por sua irmã, Ludie, em 2005. My Sister Tommie, the real Tammi Terrell é a base do filme The Tammi Terrell Story, que será produzido pela atriz Tamala Jones e escrito por Sylvia Jahshan.

A atriz de Vampire Diaries, Kat Graham, também anunciou que estrelaria um longa sobre a vida de Tammi. “Eu imediatamente me conectei com Tammi e sua história em tantas maneiras que senti a urgência de conta-la”, disse Kat, em 2015, quando falou do projeto para o Deadline. “Tammi Terrell definiu paixão e o soul, se entregar à música permitiu que superasse as punições de sua vida, porque quando ela cantava ela usava sua dor para dar esperança às pessoas e talvez superar ela mesma sua dor”, avaliou a atriz. O filme, Mountain High, ainda está em desenvolvimento. Já é hora do mundo saber mais sobre Tammi Terrell.

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