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Ana Claudia Paixão A jornalista e editora digital de CLAUDIA, Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood.

O papel mais importante de Geena Davis rendeu seu segundo Oscar

Ela é assertiva que o cinema é a única categoria onde a desigualdade pode ser resolvida absolutamente de um dia para o outro. Basta querer.

Por Ana Claudia Paixão - Atualizado em 12 jun 2020, 16h18 - Publicado em 7 fev 2020, 13h00

Nos idos anos 1980 (e ainda uma década depois), Geena Davis era uma estrela que ‘liderava’ bilheterias dos filmes e com autonomia de escolher o que queria fazer.  Apesar de ter estrelado o clássico cult Thelma e Louise, ninguém esquece do fracasso que foi ‘o filme de pirata’  que ela fez com o ex-marido, Renny Harlin: A Ilha da Garganta Cortada.

O filme não tinha Davis como uma mocinha convencional, ela era a pirata, a mulher que tinha as soluções, que liderava a ação e que salvava o mocinho, Matthew Modine.   

O mau desempenho nas bilheterias reforçou duas verdades que Hollywood já seguia como religiosas: filmes com piratas não valiam o investimento e filmes com mulheres no papel principal não davam retorno.

Juntar os dois? Loucura.

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Beckner/Gorman Productions/Getty Images/Getty Images

Apenas o poder que Davis tinha na época permitiu o projeto sair do papel. A Ilha da Garganta Cortada ainda consta como sendo um dos piores fracassos da história do cinema. Custou 98 milhões de dólares, arrecadou apenas 10 milhões.

Muitos são os fatores que contribuíram para que a má fama do ‘filme de pirata’ de Geena Davis virasse referência de ruim. Michael Douglas pulou fora do projeto porque estava com outro filme em andamento (Assédio Sexual) e – o principal – tinha menos tempo de tela do que Geena Davis. No seu lugar uma longa lista de atores de renome se recusou a participar, não se sabe se apenas por ter um roteiro confuso.

Eu vi o filme: na época – e hoje – é muito ruim, porém não porque é estrelado por Davis ou porque tem uma mulher pirata liderando a história. E esses eram os motivos que na época alegavam como os principais para o resultado pífio.

Vamos avançar no tempo e lembrar que 25 anos depois Geena Davis vai receber o Oscar Honorário, chamado de Jean Hersholt Humanitarian Award pelo seu empenho em mudar Hollywood e brigar pela diversidade no cinema. Outros agraciados com a mesma honra foram Audrey Hepburn, Oprah Winfrey e Frank Sinatra, entre outras estrelas.

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O prêmio em si já foi entregue a ela ainda em 2019 e deve apenas mencionado na cerimônia domingo (9).  A atriz foi contundente em seu discurso de agradecimento: “A minha teoria de mudança é essa: quase todo setor da sociedade tem um enorme problema de disparidade de gêneros, mas tem UMA categoria de imensa desigualdade onde a sub-representação de mulheres pode ser resolvida absolutamente de um dia para o outro: a tela do cinema”, ela disse.

Ela mesma reconhece que as mudanças que já ocorreram estão longe de suficientes, especialmente se considerar que quase três décadas de empenho não impediram as diferenças salariais e pouca representatividade feminina no cinema. Basta rever o que as atrizes vêm falando nos discursos nos últimos anos. São pedidos de coração para que a Indústria faça sua parte para mudar os paradigmas.

Geena Davis, a atriz, anda ‘sumida’ há muitos anos. Assim como muitas mulheres, especialmente depois dos 40, ela não encontrou muitas oportunidades ou papéis desafiadores. Isso não mudou desde que A Malvada, filme estrelado por Bette Davis, em 1950, retratava uma atriz de teatro considerada acabada por causa da idade. “Não tenho vinte e poucos, não tenho trinta e poucos. Há 3 meses eu completei 40 anos de idade. Quarenta. Quatro-zero. Saiu sem querer. Não tinha me decidido se queria admitir isso. Agora de repente me sinto nua”, diz a personagem Margot Channing em um momento do filme. A frase ainda se aplica mesmo 70 anos depois.

Por isso mesmo o segundo Oscar de Geena Davis, embora não seja por uma atuação em filme, tem um símbolo muito mais importante. O Geena Davis Institute on Gender in Media, trabalha nos bastidores desde 2004 para mudar os esteriótipos que seriam ainda piores se não houvesse pessoas como ela. Não trabalha apenas para que mulheres tenham mais espaço, mais respeito e igualdade, defende igualdade para todas as minorias. Em todos os setores do entretenimento, não apenas atores. 

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Pena que domingo (9) seja provável que não tenhamos espaço para ouvi-la. Seria muito bom ouvi-la. Todos deviam ouvi-la.

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