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Ana Claudia Paixão A jornalista e editora digital de CLAUDIA, Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood.

Não haverá amanhã para “E o Vento Levou”

Um dos maiores clássicos do cinema, "E O Vento Levou" não supera o fato de perpetuar racismo, sexismo e tratar de temas que impossibilitam sua reexibição

Por Ana Claudia Paixão - 11 jun 2020, 14h48

Tudo em E O Vento Levou é grandioso. Quando criança, ficava encantada com a atuação de Vivien Leigh, com os figurinos, os cenários, as histórias dos bastidores da produção e a saga de Scarlett O’Hara. Era ‘o maior filme de todos os tempos’, a maior bilheteria, o maior recordista de Oscars, o filme que deu o primeiro prêmio a uma artista negra. E O Vento Levou era o sinônimo de superlativo.

Antes de virar filme, o romance já era notícia. A autora, Margareth Mitchell, considerada uma transgressora (dentro dos padrões da época), mesmo sem experiência prévia como escritora, publicou um dos maiores best sellers dos anos 30. O livro tem mais de 400 páginas e o filme, mesmo com mais de 3 horas de duração, exclui partes muito importantes da trama. O foco era o amor impossível da heroína moderna, Scarlett, que se dividia entre um homem romântico e preso aos costumes do passado, Ashley, e o aventureiro Rhett Butler. Nos bastidores do romance, a guerra civil americana.

No entanto, a cada década nova, fica mais complicado de dizer que E O Vento Levou é apenas uma história de amor e superação. Tudo em seu universo reforça conceitos e preconceitos que não deveriam ser perpetuados. Há mais de um ano, já se discutia excluí-lo de exibições (no cinema, na TV ou streaming) e agora é fato. Não é possível lamentar a decisão, mesmo se a obra tem qualidade técnica e artística. O filme apresenta sulistas que eram a favor da escravidão no papel de mocinhos, os nortenhos como vilões corruptos, sendo que alguns faziam até parte da Ku Klux Kan. Isso não pode mais ser visto apenas como o reflexo de uma época.

Uma civilização que o vento levou

“Houve uma terra de cavaleiros e campos de algodão denominada ‘O Velho Sul’. Neste mundo, o galanteio fez sua última mesura. Aqui foram vistos pela última vez: cavalheiros e suas damas… Senhores e escravos. Procure-os apenas nos livros, pois não passam de um sonho a ser relembrado. Uma civilização que o vento levou…”

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Assim começa o filme e o livro, romantizando os fazendeiros escravocratas como “cavalheiros”. O velho Sul de galanteios, massacrado pelo Norte,  é visto como um mundo de paz e tranquilidade. A força feminina de Scarlett O’Hara é fascinante, mas seu caráter não era apenas duvidoso quanto à moral de seu tempo. Scarlett, descrita como inteligente e determinada, não entende o escopo da luta da guerra civil e não se importa com a escravidão. Abusa e maltrata as duas mulheres que seguem escravizadas até o fim da trama. Em uma das cenas mais difíceis de ver, Scarlett bate na mulher escravizada Prissy, depois que a jovem se atrasa ao voltar para casa na tentativa de fugir de Atlanta. Com o passar dos anos, fica cada vez mais difícil de aceitar rever o filme sem se indignar com o fato.

 

Metro-Goldwyn-Mayer/Getty Images

Filme mudou a indústria e rendeu o primeiro Oscar a uma atriz negra

E O Vento Levou foi gravado em um Estados Unidos ainda dividido com questões raciais, bem antes de qualquer movimento contra a segregação. Foi uma grande surpresa, mesmo que merecidíssmo, que tenha feito História ao garantir à atriz Hattie McDaniel o primeiro Oscar a uma artista negra, na categoria de Atriz coadjuvante. Porém, na festa, Hattie não pôde se sentar na mesma mesa que seus colegas de elenco. Inadmissível pensar que era assim.

Se antes a beleza plástica do filme tirava o foco das questões mais sérias que a própria autora escolheu para o pano de fundo, tudo finalmente mudou.  Sim, Scarlett O’Hara sempre foi uma personagem antipática, confusa e sem escrúpulos. Ela contestava a passividade feminina e tomava as rédeas de sua vida, mas foi amoral do início ao fim.  A personagem eternizou a postergação de decisões difíceis com seu frequente “amanhã eu penso nisso”, entretanto, mais de 80 anos depois, Scarlett não terá o dia seguinte para encontrar uma alternativa.  E O Vento Levou é sim reprodução de uma estrutura racista, mas que finalmente passou a ser uma questão urgente e atual. Não tem amanhã.

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