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Ana Claudia Paixão A jornalista e editora digital de CLAUDIA, Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood.

Marion Davies, a mulher no coração de “Cidadão Kane” e “Mank”

Marion foi uma das pessoas mais generosas e cativantes de Hollywood, mas poucos sabem de sua triste história

Por Ana Claudia Paixão Atualizado em 11 dez 2020, 21h39 - Publicado em 12 dez 2020, 15h00

Certamente você não ouviu falar em Marion Davies. Não se assuste. Ela foi uma atriz dos anos 1920 em Hollywood, que, apesar de ter trabalhando com astros como Clark Gable, não chegou ao patamar das melhores. O nome de Marion Davies foi eternizado por vias tortuosas. A mais relevante, e injusta, foi por ter sido amante do bilionário William Randolph Hearst e, por consequência, a inspiração da personagem Susan Alexander, do filme Cidadão Kane. Marion foi muito mais do que isso.

A atriz Amanda Seyfried captou seu gestual e aparência perfeitamente em Mank, filme da Netflix, dirigido por David Fincher, que pode render uma indicação ao Oscar. Marion teve papel central na trajetória do bilionário e magnata William Randolph Hearst. Ela foi, sem a menor sombra de dúvida, o amor da vida dele. A diferença de idade entre eles era de quase 40 anos, ela tinha 19 anos e ele, 58, quando se tornaram amantes. Foi para Marion que ele construiu o castelo em San Simeon. Os dois ficaram juntos até a morte de Hearst, em 1951. A vida de Marion foi fascinante e merecia um protagonismo mais justo do que Cidadão Kane e Mank.

Marion Davies nasceu como Marion Cecilia Douras, em Nova York, em 1897, caçula de uma família de cinco filhos. Desde cedo decidiu que seguiria os passos da irmã mais velha no mundo do entretenimento, primeiro como modelo e dançarina. Uma leve gagueira a atrapalhou se destacar como atriz no teatro (e mais tarde no cinema falado), mas, em tempos de cinema mudo, o que contava era a aparência e Marion era linda. Brilhou.

Ela ficou conhecida por seus papéis em The PatsyShow People e, por volta de 1918, conheceu Hearst. Ele produziu o filme Cecilia of the Pink Roses para a atriz. No início dos anos 1920, Marion Davies já era uma das atrizes mais famosas do mundo graças à forte publicidade de todas as publicações do amante, que a destacava como se estivesse na mesma proporção que estrelas como Greta Garbo e Charles Chaplin.Como comediante, Marion era inegavelmente talentosa, mas em 10 anos de carreira, apareceu em 29 filmes porque foram financiados por Hearst. Embora o relacionamento fosse escandaloso, pois Hearst era casado e sua mulher negou o divórcio, Marion era abertamente a “outra mulher” do bilionário. Na verdade, foi sua maior confidente e parceira.

As festas extravagantes em um tempo de extravagância corriqueira ficaram lendárias. Hearst a presenteava com joias e dinheiro, por isso Marion era riquíssima. Ela investiu sabiamente sua fortuna e em determinado momento inclusive ajudou a Hearst financeiramente, quando ele sofreu uma crise financeira e ela vendeu suas joias, títulos e ações no valor de US $ 1 milhão (um absurdo na época), para salvá-lo da falência. Ela dizia que não era o dinheiro que unia os dois, mas que a adoração dele por ela que a fazia feliz.

A descrição unanime sobre Marion é de uma mulher inteligente, autêntica, divertida e de bom coração. Ela fundou uma clínica infantil dentro do hospital da UCLA para ajudar crianças com câncer, por exemplo. Filantropia era sua verdadeira vocação.

O relacionamento com Hearst não foi apenas felicidade, claro. Em tempos de grande hipocrisia social, seu status de amante pesava contra ela, assim como a influência de Hearst na divulgação de seus filmes. A empolgação dele sobre ela ofuscava, em muitas oportunidades, o mérito de seu trabalho. E mais, Hearst – como o filme Mank mostra – interferia tanto nas escolhas de roteiro (ele a queria como atriz dramática) como proibia cenas em que Marion tivesse que beijar ou abraçar atores homens. A gagueira acelerou a aposentadoria dela em frente das câmeras quando o cinema passou a ser falado, mas antes disso ela apareceu em 16 filmes, inclusive ao lado do maior astro da época, o ator Clark Gable.

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Em Mank, há o relato da obsessão de Hearst de produzir o filme Marie Antoinette para Marion, com Irving Thalberg, da MGM, aparentemente apoiando. Porém o que não é mostrado é que Thalberg deu o papel para sua esposa, a atriz Norma Shearer. Norma (que anos mais tarde inspirou o filme a criação da personagem Norma Desmond em O Crepúsculo dos Deuses) já tinha “tirado” outro papel de Marion, e com isso Hearst rompeu com o estúdio e passou a investir na Warner Brothers. Porém Marion não tinha interesse nos papéis e logo – alegremente – se aposentou e passou a atuar apenas como produtora.

As tragédias também marcaram a vida de Marion Davies. Sua sobrinha, a atriz Pepi Lederer, era homossexual e amante de atrizes como Louise Brooks, entre outras. Quando Hearst soube, para evitar escândalos, internou Pepi em um hospício e clínica de habilitação. Desesperada, Pepi se matou pulando da janela do Hospital Samaritano de Los Angeles. O caso foi abafado na imprensa.

Anos antes, em 1924, um crime – jamais solucionado – também teve Marion e Hearst como protagonistas. O casal estava com amigos a bordo do iate Oneida, em mais uma série de festas embaladas por muito álcool. Em determinado momento, o produtor Thomas Ince foi encontrado morto. A pressa de cremar o corpo impediu a devida investigação. Reza a lenda que Hearst encontrou Marion e Thomas, que ele achou ser Charles Chaplin, tendo relações sexuais. Enfurecido, o bilionário teria atirado no produtor e o matado em um rompante de ciúme. A versão oficial foi a de um ataque cardíaco fulminante e sem relações sexuais envolvida. Jamais saberemos a verdade.

Com uma relação que durou 34 anos, é natural também que existam rumores de uma filha ilegítima de Marion e Hearst. Patricia Lake, veio viver com sua “tia”, Marion, entre 1919 e 1923. Coincidentemente com o mesmo primeiro nome da filha legítima de Hearst. Em 1993, anos depois das mortes de Marion e Hearst, Patricia admitiu que era mesmo filha biológica do casal. Segundo Patricia, Marion foi enviada grávida para Paris, longe de Hollywood, para evitar escândalo. A filha criada pela irmã de Marion, Rose, que tinha perdido uma criança mais ou menos na mesma época. Marion estava sempre presente e, quando a menina tinha 11 anos, passou a viver com ela. Aos 17 anos, os pais confessaram a verdade para Patricia, que conviveu com o segredo até o dia de sua morte, quando divulgou a história. Ela nunca foi oficialmente reconhecida como “Hearst”.

Depois da morte de William Randolph Hearst, em 1951, Marion foi abandonada pelos amigos famosos. Ela se casou com Horace Brown, 3 meses depois do enterro do ex-amante. Infelizmente o casamento com Horace foi marcado por abusos domésticos e muita infelicidade. Ela seguiu com seus trabalhos filantrópicos até que, em 1961, morreu de câncer, em Los Angeles. Ela deixou uma fortuna de 20 milhões de dólares de herança.

Tanto Orson Welles como Herman J. Mankiewicz se arrependeram oficialmente de como a personagem criada por eles, Susan Alexander, acabou queimando a imagem de Marion Davies em Cidadão Kane. Segundo eles, ambos subestimaram que as pessoas distinguiriam ficção da realidade. O resultado foi cruel com ela, com uma personagem alcóolatra, sem talento e isolada. Assim como aparece em Mank, Marion não se importou, mas Hearst ficou magoado e perseguiu Welles enquanto pôde. O próprio Welles falou em mais de uma entrevista que Marion merecia mais carinho e respeito.

Frequentemente só se menciona Marion Davies quando um homem, especialmente William Randolph Hearst é o tema. Atrizes como Kirsten Dunst e Melanie Griffith já a interpretaram no cinema, mas a atuação elogiada de Amanda Seyfried é uma das atuações mais delicadas em Mank. Amanda faz jus ao que a verdadeira Marion parece ter sido: sem rodeios, generosa e, mais do que tudo, corajosa. Ela é uma forte candidata ao Oscar de coadjuvante, seria uma linda homenagem à verdadeira Marion. Vale a torcida.

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