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Ana Claudia Paixão A jornalista e editora digital de CLAUDIA, Ana Claudia Paixão (@anaclaudia.paixao21) fala de filmes, séries e histórias de Hollywood.

A triste história de Vivien Leigh

A atriz tinha uma carreira espetacular nos palcos e no cinema, mas a bipolaridade interrompeu uma trajetória de sucesso

Por Ana Claudia Paixão - Atualizado em 1 jul 2020, 11h38 - Publicado em 1 jul 2020, 12h30

A discussão em torno de E O Vento Levou trouxe à tona novamente o nome de Vivien Leigh, estrela do filme, cuja triste história pessoal ainda não foi adaptada para as telas. Embora a atriz de Game of Thrones, Natalie Dormer, tenha anunciado há dois anos que iria produzir e estrelar uma série sobre Vivien, ela ainda não foi produzida. Dessa forma, sem ser a protagonista, apenas através de citações em outros filmes biográficos que são revelados alguns detalhes sobre a vida da atriz e nem sempre com justiça.

A beleza física de Vivien é indiscutível e seu talento foi reconhecido com dois Oscars, mas nos bastidores ela sofria de um transtorno psicológico desconhecido até então. Hoje se sabe que é transtorno bipolar, porém, naquela época, era chamado de “maníaco depressão” e o único tratamento disponível eram choques elétricos. Sem os cuidados que poderiam ajudá-la, os altos e baixos das crises de humor marcaram boa parte de sua carreira e vida pessoal.  Em geral, é justamente a partir do momento em que ela passou a lidar com a bipolaridade que domina a narrativa de sua vida, seja em documentários ou livros. Certamente será na série também.

No filme Uma Semana com Marilyn, que conta a história dos bastidores do filme O príncipe encantado, estrelado por Marilyn Monroe e Laurence Olivier (marido de Vivien na época) Julia Ormond a interpretou como uma senhora amargurada que parecia ter mais do que apenas os 43 anos que tinha então. A bipolaridade não é mencionada, mas o desgaste e a tristeza dela são reduzidos a um ciúme da jovialidade de Marilyn, que não era o que Vivien estava necessariamente vivendo.

Mais recentemente, a série de ficção Hollywood, da Netflix, traz uma Vivien Leigh representada como uma mulher neurótica, complicada e egocêntrica. Ela também não era assim, segundo todos historiadores e amigos. Parte de sua doença se revelava pela compulsão sexual e a série Hollywood explora essa vulnerabilidade. Quase 53 anos após sua morte (em 8 de julho de 1967), é doloroso ver o drama pessoal de uma das maiores atrizes do cinema ser endereçado sem a devida sensibilidade.

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Vivien Leigh nasceu em 1913, na Índia, filha de uma família rica. Cresceu na Inglaterra, estudando em internatos longe dos pais. Se casou e teve uma filha antes de completar 20 anos, mas já era uma mulher determinada a ter uma carreira como atriz. Algo escandaloso para a época, quando se esperava que as mulheres ficassem em casa. Conseguiu entrar para o teatro e foi sucesso imediato, migrando para o cinema simultaneamente. Já famosa no Reino Unido, ela mais uma vez desafiou a sociedade conservadora de seu tempo ao deixar o marido e a filha por um homem casado, o ator Laurence Olivier, e viver uma história de amor digna de livros de romance.

A lenda diz que Vivien foi para os Estados Unidos apenas para visitar Olivier em Hollywood, quando ele estava filmando O Morro dos Ventos Uivantes.  Uma vez em Los Angeles, ela conseguiu fazer o teste para E O Vento Levou. Na época, a produção se arrastava sem definir quem seria Scarlett O’Hara e todas atrizes cobiçavam o papel, inclusive Vivien. O fato de que escolheram uma desconhecida de 25 anos (e inglesa) foi considerado uma ofensa para os americanos. Bette Davis, por exemplo, usou várias páginas de sua autobiografia para falar mal de Vivien, mesmo décadas depois do filme. Não ajudou em nada que Vivien tenha sido a primeira inglesa a ganhar um Oscar por sua atuação. O próprio Olivier admitiu morrer de inveja dela. Com Scarlett O’Hara, Vivien Leigh virou uma estrela mundial e uma lenda do cinema.

Mas não eram os filmes que a atraíam e sim os palcos. Ao lado de Olivier, fundou uma companhia teatral e abriu mão da fama e dinheiro de Hollywood. Constantemente comparada ao marido, considerado um dos maiores atores de todos os tempos, Vivien não era unanimidade e enfrentou críticos para provar que não era inferior a Olivier. O ator admitiu em sua autobiografia que se incomodava com a superioridade dela em frente às câmeras (Olivier só passou a se destacar no cinema nos anos 1960) e que ela tinha tudo: beleza e talento. Para ele, Vivien foi uma das melhores atrizes que viu, mas não foi respeitada como deveria ter sido. A pressão da competição entre eles contribuiu para o estresse entre os dois.

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Entre os amigos Vivien sempre foi considerada espirituosa. Gostava de festas e dormia pouco. Aos 30 anos descobriu estar com tuberculose, uma doença da qual nunca se recuperou cem por cento e, dois anos depois, grávida de Olivier pela primeira vez, sofreu um aborto espontâneo durante as filmagens de César e Cleópatra (depois de uma queda em uma cena). Ela ficou internada por várias semanas. Nunca mais foi a mesma.

Após o aborto, crises de depressão profunda começaram ganhar frequência. O casamento começou a ruir, mas o desconhecimento do que estava acontecendo com ela piorou tudo. Até hoje não se sabe a origem da bipolaridade, ela é uma combinação de genética e química cerebral, sendo que Vivien tinha os sintomas, desde a euforia à irritabilidade alternadas por fases de tristeza e vergonha.

Suas brigas com Olivier eram testemunhadas pelos amigos e cresceu em violência física até a separação dos dois. O único tratamento disponível eram os choques terapêuticos e Vivien passou por eles. Segundo amigos, ela ficou com cicatrizes e marcas de queimadura nas têmporas que disfarçava com maquiagem. Ela ficou traumatizada com as intervenções, a ponto de surtar – literalmente igual à Blanche Dubois, de Um Bonde Chamado Desejo – em uma briga com Olivier durante uma turnê dos dois. O ator escreveu em sua biografia que chegou a temer que os dois se matassem de tão difícil que ficou o relacionamento com a doença de Vivien

Hulton Archive/Getty Images/Getty Images

A dedicação à sua arte e escolha de papéis contribuíram também para solidificar a imagem de uma mulher desequilibrada, especialmente depois que Vivien estrelou a versão inglesa da peça Um Bonde Chamado Desejo. Nos Estados Unidos o papel na Broadway foi de Jessica Tandy (anos mais tarde vencedora do Oscar por Conduzindo Miss Daisy), mas Tandy não tinha a força do nome de Vivien para as bilheterias e o filme acabou sendo estrelado por ela e Marlon Brando, mais uma vez provocando ressentimento entre o elenco americano. A essa altura, o público desconhecia a verdadeira condição de saúde de quem ainda viam como Scarlett O’Hara e a atuação icônica como Blanche DuBois rendeu à Vivien seu segundo Oscar de Melhor Atriz.

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A condição psicologicamente instável reduziu consideravelmente a capacidade de Vivien de se dedicar ao teatro ou cinema. O casamento com Olivier acabou em divórcio, em 1960 e, apesar de ter se unido ao ator Jack Merrivale nos últimos anos de sua vida, todos que a conheceram dizem que ela nunca se perdoou por ter “perdido” Olivier. Ainda trabalhou em alguns filmes, mas com muita dificuldade. Seu corpo foi encontrado ao lado de sua cama, já sem vida, em 1967, depois de terminar as gravações de A Nau dos Insensatos. Tinha 53 anos.

A série que Natalie Dormer vai estrelar, Vivling, ainda não começou a produção. O roteiro vai explorar o casamento de Vivien Leigh e Laurence Olivier, mas deve abordar também temas como abuso de poder e saúde mental.  “Viv é especificamente um veículo para mostrar minha capacidade como atriz”, admitiu Natalie quando assinou o contrato, em 2018. Já é hora de contarem a história de Vivien Leigh com outros olhos.

 

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