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Um homem chamado Rico

Carol sofre muito nas mãos dos clientes. Garota de programa, ela se submete a todo tipo de humilhação e violência no trabalho. Mas sonha em dias melhores...

Por Redação M de Mulher Atualizado em 21 jan 2020, 12h57 - Publicado em 26 out 2008, 21h00

Ilustração: Dreamstime

As paredes cinzas de sempre. A cortina de veludo puído balançando na janela. O carpete vermelho, repleto de marcas de cigarros e bitucas. As manchas no teto evidenciando umidades proibidas numa habitação segura — vá lá, ali não era mesmo seguro! E os barulhos? Seja lá qual fosse o horário, ouviam-se gritos de mulheres, o faxineiro reclamando da porquice dos “clientes” ou algum bêbado brigando com as meninas.

“E aí, gata? Vai ficar só olhando?”, falou ele, de repente, arrancando-me dos meus pensamentos. Olhei com ódio o seu rosto marcado de cicatrizes e os cabelos imundos. Era só outro nojento pagando para ter o meu corpo.

Como já havia pegado meu dinheiro, restava fazer minha parte. Da última vez em que me recusei a cumprir o pacto, apanhei a ponto de passar semanas internada no hospital. O homem se remexeu no lençol encardido dos fluidos de tantos outros que, como ele, deitaram-se naquela cama comigo.

Seu hálito fétido penetrou minhas narinas. Que náusea! Suas mãos ásperas tocaram meus cabelos desgrenhados. Fechei os olhos e, aos poucos, aproximei-me de seu corpo. De olhos fechados, fiz tudo o que mandou. Vez ou outra, parava de respirar para tentar não perceber o que estava fazendo. A cada toque de sua mão em mim, a cada penetração brutal, eu o odiava mais e mais.

“Vai, Carol, vai…”, gemia. Abri os olhos e observei a aliança grossa que brilhava no seu dedo anular. Ele me montava como um animal e me tratava exatamente como tal. “Pobre mulher a deste imbecil…”, imaginava eu, sentindo a dor e a humilhação de me vender a ele.

Finalmente, ele terminou. Levantou e foi ao banheiro. Como o hotel não oferecia toalhas, enxugou-se no lençol mesmo. Esperei que saísse e corri para o armário, onde havia escondido uma toalha limpa. Limpei-me. “Desgraçado, deixou marcas no meu pescoço”, murmurei alto, ao me olhar no espelho.

“Carol, esse foi seu terceiro do dia, né?”, perguntou, no corredor, a velha de olhos azuis e sotaque estranho. “Sim”, respondi, de olho numa garrafa de vodca ao lado dela. “Pode tomar, mas não exagera”, disse ela, sacando meus pensamentos. Trêmula, enchi um copo e fiz hora antes de voltar às ruas. “Carol, nem precisa sair. O senhor Robério está subindo”, disse a velha, em tom de escárnio.

Fiquei estática, com o copo na mão, até que o avistasse. Um homem de seus 50 anos, terno amassado e uns óculos de muitos e muitos graus de miopia se aproximou da recepção do hotel, acenou entusiasmado e sorriu. “Vim gastar o dinheiro da minha aposentadoria com você, Carol…”, falou, seguindo-me em direção ao mesmo quarto de sempre, com sua cortina de veludo e seu teto repleto de infiltrações.

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