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Outra chance

Graça sofre nas mãos do violento marido. Até que ela foge de casa e reconstrói sua vida ao lado dos filhos. Ela só não imaginava que ele não a deixaria em paz

Por Redação M de Mulher Atualizado em 21 jan 2020, 13h03 - Publicado em 26 out 2008, 21h00

Ilustração: Dreamstime

A expressão dos gêmeos Pedro e Luiza sempre ficava daquele jeito quando a história desandava. Embora tivessem apenas 4 anos, já entendiam bem a situação. Assim que me viam, arqueavam as sobrancelhas ruivinhas e o semblante de ambos, imediatamente, entristecia. As bochechas, invariavelmente tão coradas pela vivacidade e alegria que só as crianças têm, nessa hora desbotavam, tornavam-se quase imperceptíveis. Então, meus filhos se entreolhavam, num prenúncio de choro, quase sem coragem de se aproximar.

Era sempre assim, pelos menos, desde que eles começaram e entender aquela situação. Aos poucos, seus olhos castanhos-escuros começavam a tremer e não tardava para que se tornassem velhos. Logo as lágrimas escorriam. Naqueles minutos mais horríveis da minha vida, eu tentava estender as mãos. Aí, eles desatavam o choro. “Mamãe, mamãe!”, gritavam, com suas vozes trêmulas, sem conseguirem se mover, talvez tomados pelo medo e pelo estranhamento em ver tão fragilizada a pessoa que mais amavam. Quase sem vida.

Eu estava zonza. Mal conseguia manter meus olhos abertos. Numa espécie de câmera lenta, olhei para a porta da cozinha. Permanecia aberta, como no momento em que Paulo saíra, em disparada, como sempre fazia. Perto da maçaneta, uma marca avermelhada. Era meu sangue, que se estendia num sinistro rastro vermelho dali até minha cabeça, repousada à força sobre o piso de linóleo. Em semanas, mais uma cicatriz faria companhia às tantas outras por baixo dos meus cabelos compridos.

“Mamãe…”, murmuravam meus filhotes, chorosos e ainda imóveis. “Papai bateu…papai bateu…”, Pedro ousou dizer. Tentei, em vão, estender os braços e consolá-los. “Papai fez dodói na mamãe!”, emendou Luiza. Ainda sentindo o cheiro da pinga que meu marido havia tomado antes de tudo aquilo começar, fiz um esforço para olhar ao redor da cozinha. Tudo revirado: pratos quebrados no chão, panelas jogadas, copos estilhaçados, fotos rasgadas e a gaveta das facas abertas. Algumas permaneciam sobre a pia, numa eterna ameaça à minha integridade. “Posso usá-las quando quiser, sua desgraçada”, ele dizia, sob efeito da maldita bebida.

“Mamãe…”, choravam os gêmeos, tão doloridos e feridos quanto a mãe deles, moribunda, no chão. Reuni todas as forças possíveis e articulei a frase que repetia naquelas situações. A frase que costumava me salvar da morte e que eu mais repetia nos últimos anos. “Nenéns, chamem a madrinha ali na casa ao lado…”.

E lá iam os dois, gritando por ajuda. Não tardava para que eu fosse socorrida. “Um dia você vai ter que tomar uma atitude, Graça. Ser espancada pelo marido e não fazer nada é pura ignorância”, dizia minha comadre, a caminho do hospital. Eu concordava, mas, no fundo, acabava voltando para Paulo. E rezava para ele um dia mudasse e voltasse a me amar como no início do casamento, há seis anos.

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