O amor chama

Será que manter dois relacionamentos é a melhor forma de ser feliz? Acompanhe a história de Denise, Antoniel e Fernando.

Denise encontra a felicidade de uma maneira nada convencional
Ilustração: Ana Bento

Cada vez que o pente descia por seus fios grisalhos, ele sorria. E eu observava pelo espelho. Aquele homem charmoso nunca havia entrado em meu salão. “Qual é seu nome?”, perguntou, assim que chegou. “Denise…”, respondi, um pouco tímida. Aos poucos, o gatão, que logo revelou se chamar Fernando, puxou papo. Eu tentava me concentrar no corte dele, mas não conseguia. Seus olhos penetrantes me observavam pelo espelho. “Você quer mais curto aqui do lado?”, perguntei. Ele sorriu e colocou sua mão exatamente onde queria que eu aparasse. Foi nessa hora que vi sua aliança de ouro. Assim como eu, ele era casado. Sua voz era doce e gentil. E cada palavra me arrepiava a espinha.

Tão diferente de Antoniel, meu marido… Geralmente, ele só falava comigo de uma maneira: aos gritos. Ciumento, só para me chamar de vagabunda traidora! Diante da doçura de Fernando, não conseguia deixar de comparar os dois. Qual seria o jeito e o visual da mulher do meu cliente? Como se lesse meu pensamento, ele comentou: “A patroa não gosta muito quando corto o cabelo. Ela acha que faço isso pra impressionar outras mulheres!”, brincou. Notei um fundo de rancor no comentário. “Vamos para o lavatório?”, falei. Ele se levantou e coçou o cavanhaque – sim, ele tinha cavanhaque! Quantas e quantas vezes pedi ao meu marido deixar o cavanhaque crescer em vão. Não só porque ele não queria, mas porque se fizesse isso me agradaria. E me agradar era a última coisa que ele queria!

Enquanto lavava os cabelos de Fernando, sentia uma comichão subir pelo corpo. Na hora de pagar, deu um cheque. Atrás dele, o número do celular. À noite, Antoniel me procurou. Foi o bruto de costume: se satisfez e dormiu. Senti nele um perfume feminino que não era o meu. Como fazia desde o começo do nosso casamento, há cinco anos, fingi não perceber.

Passaram-se dez dias até que meu coração voltasse a bater novamente: Fernando retornava ao meu salão. Agora, nos sentíamos mais próximos, mais íntimos. O cliente logo virou amigo. Durante meses, frequentou o salão. Até que um dia saímos para tomar um chope… e para fazer amor.

Na cama, ao contrário de meu marido, ele era amoroso. Depois do sexo, confessou que não queria mais continuar em seu casamento: ela só estava com ele por causa de seu dinheiro. Também confidenciei que não suportava mais Antoniel. Prometemos um ao outro que íamos tentar resolver isso. Pensava em como o ciumento iria agir se imaginasse que eu estava pagando suas traições com a mesma moeda…

Hoje, um ano depois de ter conhecido Fernando no salão, termino essa história. Nós nunca deixamos nossos parceiros como havíamos planejado, mas continuamos nos vendo. Estamos felizes assim: eu não ligo mais para meu marido e ele não se incomoda mais com sua mulher. Um dia, a gente ainda toma coragem e assume a relação. Mas, até lá, vamos deixar rolar. E se alguém quiser nos julgar, que se olhe no espelho antes e reflita se é feliz com a vida que tem.