Coração nas nuvens

Depois de ver o seu sonho de voar concretizado, Joyce volta atrás e decide experimentar uma nova rota.

A realização e o abandono de um sonho. 
Ilustração: Ana Bento

Desde pequena eu tinha uma mania: sentar no quintal lá de casa, numa cidade do interior de São Paulo, para ver aviões passarem. Ficava o dia inteiro ali, esticando meu pescoço e mirando o céu, enquanto outras garotas se dedicavam a pentear suas bonecas ou a pular corda. “Joyce, minha filha, saia desse sol forte e entre”, insistia mamãe, ao me flagrar ali, com olhos fixos no vai-e-vem dos aviões. Mas eu resistia aos apelos de dona Marisa. Algumas vezes, sob protesto de papai, permanecia também à noite, no sereno. Tudo para me entreter com as luzes vermelhas piscando naquelas fantásticas máquinas voadoras.

No dia em que completei 19 anos, organizei uma comemoração para meus amigos no quintal de casa. Meu primeiro namorado, Josué, estava lá. “Trouxe isso para você!” falou, ao me entregar o pequeno pacote um bocado amassado. Pela expressão maliciosa que me lançou, achei oportuno não conferir o conteúdo na frente de todos. “Abra mais tarde!”, murmurou, piscando seus lindos olhos azuis. Senti arrepios. Perdera minha virgindade com Josué havia apenas dois meses e sabia que, desde então, ele me via como uma mulher sedutora e encantadora, e não mais como uma moça ingênua do interior.

Bebemos, dançamos, comemos e nos divertimos numa das melhores festas de minha vida. Aos poucos, todos os convidados foram embora. Meu amado, claro, ficou. Papai e mamãe foram se deitar e nós continuamos ali, conversando. “Vá buscar o presente…”, pediu Josué, entre beijos ousados. Peguei o pacote sobre a cama e voltei para o quintal.

Ao tirar o laço, dei um sorriso nervoso: no meio de um monte de papel amassado repousavam duas passagens aéreas! “É para o Rio de Janeiro”, falou Josué. Enquanto tentava me recuperar do susto, ele continuou: “Vai ser a primeira viagem de avião de nossas vidas”. Eu me emocionei. Josué devia ter gasto todo o seu salário com os bilhetes. Naquele momento, nem considerei a hipótese de meus pais me proibirem de viajar com ele. “Vamos, sim!”, respondi, excitada.

Para celebrar, ele me possuiu em pé, encostado no murinho de casa, como havia sido da minha primeira vez. Enquanto seu membro viril me fazia mulher e seus lábios tocavam os meus, eu segurava firme as passagens, como se tivesse medo de perdê-las. Estava tão empolgada com aquilo tudo que experimentei algo que, até então, me recusava: sexo oral. Não era por agradecimento, mas por uma espécie de libertação. Se iria realizar o maior sonho de todos, também iria me permitir ir além no sexo. Josué adorou o presente que lhe dei em troca.

Duas semanas depois, apesar do ar contrariado de meus pais, fomos para o aeroporto. A viagem seria rápida, mas de uma importância imensa para a mudança que aconteceria em minha vida daquele dia em diante.