“Rever uma crença ou opinião é entender que há algo diferente para ser avaliado”

Nossa colunista Cynthia de Almeida comenta a importância de saber mudar de ideia

Qual foi a última vez que você mudou de ideia? Mulheres bem-sucedidas demonstram essa habilidade em comum: saber ouvir o outro e se deixar convencer por argumentos que façam sentido. Em comparação com os homens, parecem lidar melhor com atributos como flexibilidade, maleabilidade e transigência. Têm menos certezas absolutas. E isso é bom.

Não se trata de um estudo estatístico. Basta prestar atenção, olhar à sua volta e você também vai identificar esse traço em profissionais de sucesso. Só pessoas muito seguras de si mesmas têm coragem de aceitar que não são donas exclusivas da verdade. Mudar de ideia deveria ser algo natural no exercício da profissão, mas esse conceito acaba confundido com instabilidade, falta de liderança, desconhecimento ou pura e simples indecisão.

Não é nada disso. Muitos fatores positivos estão por trás da capacidade de rever uma crença ou opinião e enxergar as coisas de forma nova. O primeiro é exatamente esse: entender que sempre há algo diferente para ser avaliado. O que era bom ontem pode não ser tão incrível hoje e virar totalmente inadequado amanhã. Pessoas que mudam de ideia olham para a frente e não correm o risco de morrer abraçadas a algo que já não tem mais cabimento. Em algum momento da pré-história digital, houve mais sentido em se apegar a conceitos duradouros e conservá-los. Hoje, as convicções mais inabaláveis têm genes mutantes. Líquido, como diria o filósofo Zygmunt Bauman, é o novo estado das coisas em uma sociedade em permanente transformação.

Outra vantagem competitiva das pessoas receptivas a bons argumentos é que procuram se cercar de indivíduos que levam a elas isso mesmo: bons argumentos. Ponto para o gestor capaz de atrair gente que sabe pensar, articular e discordar sem medo. A maior parte dos profissionais que nunca mudam de ideia não forma equipe; arregimenta seguidores. O máximo que consegue deles é companhia maçante e eco para a própria voz. Nada menos estimulante do que o convívio sem relevo com pessoas que pensam exatamente como você. Não funciona nem na vida a dois, o que dirá no trabalho. Uma executiva no topo de uma grande empresa me confidenciou certa vez que, embora já tenha sido muito teimosa e obstinada, é hoje mais grata às pessoas que se opuseram às suas ordens por uma boa razão do que àquelas que as acataram sem discussão. Aprendeu na marra a ouvir mais e acabou se encantando pela perspectiva alheia.

Por fim, o que torna as pessoas que mudam de ideia mais atraentes do que as apegadas a seus paradigmas é que elas provocam mais empatia. E aqui talvez esteja a marca das mulheres que vão mais longe na carreira: elas são mais permeáveis porque sinceramente gostam dos outros e, portanto, prestam atenção neles. São curiosas, abertas a conversas, mais amorosas na escuta e disponíveis. E sentem genuíno prazer em trabalhar com gente inteligente e capaz de pensar em algo em que ainda não haviam pensado. Secretamente, até comemoram o fato de alguém mostrar que, para conseguir o que se deseja, não é obrigatório ter sempre razão.

 

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