Macron rebade críticas sobre sua diferença de idade com a esposa

O presidente francês e a primeira-dama enfrentam de peito aberto o preconceito que sofrem por ela ser 25 anos mais velha que ele

A vitória de Emmanuel Macron, eleito presidente da França no dia 7 de maio, é como a apoteose precoce de uma vida. De estudante nota 10 a banqueiro milionário. De ministro da Economia novato a líder máximo da sexta maior economia do mundo.

Aos 39 anos, é o mais jovem a assumir o poder no país desde Napoleão (que tinha 35 quando tomou o poder). Do pleito à posse, seis dias depois, atendeu a inúmeros compromissos e concedeu diversas entrevistas. Só um tema o fez perder a paciência – elegantemente, diga-se: as insinuações sobre os 25 anos de diferença entre ele e sua mulher, a professora aposentada Brigitte Macron (exatamente a mesma que existe entre Donald e Melania Trump).

O casal francês garante que está bem acostumado à curiosidade que provoca. Mas ela ganhou proporções exageradas desde a confirmação de que ele disputaria o segundo turno das eleições francesas com a candidata do partido de extrema-direita, Marine Le Pen.

Piadas vulgares e boatos de que Macron levaria uma vida paralela circularam livremente. “Se fosse eu o mais velho, ninguém teria pensado nem por um segundo que não poderíamos ser parceiros íntimos”, disse ao jornal Le Parisien. Para Macron, essas são demonstrações claras de misoginia.

Atração intelectual

Brigitte Auzière era professora de literatura e responsável pelo teatro na escola jesuíta de Amiens, cidade onde ambos nasceram, 120 quilômetros ao norte de Paris. Era casada havia 20 anos com o banqueiro André-Louis Auzière (hoje com 66 anos) e mãe de Sèbastien, Laurance e Tiphaine (agora com 42, 40 e 33 anos, respectivamente). Foi Laurence quem chamou a atenção da mãe para um colega de classe: “Tem um menino na minha sala que é impressionante. Um gênio. Ele sabe de tudo”. A filha falava de Emmanuel, então com 15 anos.

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A professora e o aluno se conheceram durante a montagem de Jacques e Seu Amo, a única peça do escritor tcheco Milan Kundera. Brigitte se encantou com a inteligência dele. A recíproca foi imediata. Para se aproximar, o garoto pediu ajuda em uma adaptação do texto de A Arte da Comédia, de Eduardo Filippo.

“Isso fez com que nos encontrássemos todas as sextas-feiras e criou uma proximidade incrível. Ele não era como os outros garotos. Mas, àquela altura, ninguém iria supor que nossa relação iria se tornar uma história de amor”, disse à revista Paris-Match em 2016. “Furtivamente as coisas aconteceram e eu me apaixonei. O vínculo intelectual nos aproximou. Então surgiu uma paixão duradoura”, escreveu o atual presidente em seu livro Révolution, de 2016.

(GettyImages/Reprodução)

Acostumado a se relacionar melhor com os professores do que com seus colegas, Macron passava cada vez mais tempo com a mestra. Saíam juntos para longas caminhadas às margens do Rio Somme, que corta a cidade. “Tínhamos uma relação de adulto para adulto”, relembra ela. Apesar de hoje falar abertamente sobre o romance, há uma questão que Brigitte se nega a responder: “Nunca ninguém saberá exatamente em que momento nossa história virou uma história de amor. Isso só pertence a nós. É o nosso segredo”.

Aos 17 anos, Emmanuel achou que era hora de contar ao pai, o neurologista Jean-Michel Macron, e à mãe, a pediatra Françoise Nogués (hoje divorciados), o que estava sentindo por Brigitte.

O casal de médicos ficou assustado: pensavam que a paquera do filho era com Laurence, filha da professora. A primeira reação foi pedirem que esperasse completar 18 anos. Passado um tempo, caíram na real: quem consegue colocar em pausa um sentimento? “Claro que, naquela época, nós não podíamos dizer: ‘Que ótimo que Emmanuel encontrou Brigitte’ ”, relatou Françoise em entrevista à jornalista francesa Anne Fulda para o livro que ela lançou neste ano sobre o presidente eleito, Emmanuel Macron, Un Jeune Homme Si Parfait (em tradução livre, “Emmanuel Macron, um jovem perfeito”).

Numa tentativa de separar os dois e fazer com que o filho esquecesse a paixão, os pais enviaram Emmanuel a Paris, onde concluiria o segundo grau no Liceu Henrique IV. Antes de partir, porém, ele declarou para a amada: “Eu vou, mas volto para casar com você”. Segundo o livro de Fulda, os pais ainda procuraram Brigitte e pediram que ela se afastasse do filho deles. “Não posso prometer nada”, teria respondido. A mãe ainda teria apelado: “Você tem a sua vida. Com você, ele não poderá ter filhos”.

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O pai tinha uma visão mais prática das coisas: “Achava que ele ia superar. Minha preocupação era que terminasse os estudos e não deixasse tudo ir para o lixo”. Hoje, todos se dão bem. “Eu a vejo como minha amiga, e não como nora”, declarou a pediatra.

O telefone foi o melhor amigo dos amantes, separados pela distância e pelas circunstâncias. Até hoje não gostam de falar sobre esse período: são muitas dores para lembrar. “Tive que lutar para levar minha vida pessoal e profissional como desejo”, disse ele a Fulda. Algum tempo depois, já separada, Brigitte também se mudou para Paris. Emmanuel formou-se em filosofia, políticas públicas e administração e ingressou no mercado financeiro. Logo foi contratado pela área de investimentos do Banco Rothschild.

Em 2004, os dois passaram a viver juntos – mas só se casaram em 20 de outubro de 2007, um ano depois que, enfim, o divórcio dela foi assinado. A cerimônia, realizada na sede da Prefeitura de Paris, foi seguida de festa. Depois de cortarem o croque-en-bouche (o bolo tradicional de casamento francês, feito com uma pilha de profiteroles recheados), ao som da Marcha Nupcial, Macron discursou. “Cada um de vocês tem testemunhado, ao longo dos últimos 13 anos, o que vivemos. E, por terem nos aceitado, chegamos aqui hoje. Não somos um casal normal, mesmo que eu não goste dessa palavra. Obrigado por nos aceitarem e nos amarem.”

De esposa a primeira-dama

Na época do casamento, Macron já era sócio do Rothschild, onde permaneceu até 2012. Deixou a iniciativa privada com a conta bancária recheada para integrar a equipe do então candidato à Presidência da França, François Hollande, como secretário-geral adjunto.

Dois anos depois, renunciou ao cargo. Mas não levou nem um mês para que Hollande o convidasse para ser ministro da Economia, Indústria e Finanças. Emmanuel topou a parada. Seus planos, no entanto, eram mais ousados. Em abril de 2016, fundou o partido progressista En Marche!. Quatro meses mais tarde, deixaria o governo para lançar-se, em novembro último, como candidato à presidência.

(GettyImages/Reprodução)

Durante a meteórica trajetória política do marido, Brigitte esteve a seu lado: nos debates, por exemplo, ocupava sempre um assento na primeira fila. “Nossa relação de intimidade é pessoal e política”, declarou ele. Entre as tarefas da ex-professora (ela parou de lecionar logo que ele tomou posse como ministro) estavam a edição e o ensaio dos discursos. \

Ela ainda manteve o sangue-frio diante da onda de boatos sobre a orientação sexual do marido e quando o pai de Marine Le Pen, o osso duro de roer Jean-Marie Le Pen, ironizou o adversário da filha justamente por ele ser casado com uma mulher mais velha.

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“A visão dela importa para mim”, disse aos jornalistas quando ainda era ministro. Eleito com uma plataforma nem de direita nem de esquerda, baseada na modernização da economia, se destacou como um forasteiro na cena política.

Pró-globalização e defensor da permanência da França na União Europeia, quer criar possibilidades para incluir os jovens da periferia (a maioria imigrantes) na sociedade. Um dos primeiros atos de seu governo foi anunciar um ministério que se destaca, entre outros atributos, pela paridade entre homens e mulheres. Se foi influenciado por Brigitte, não sabemos. Mas dá pra notar que esse amor lhe faz muito bem.

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