A história da ex-faxineira que se tornou juíza em Goiás

"Me ridicularizavam por limpar o chão", conta Adriana Maria Queiróz, titular da 1ª Vara Cível e da Vara de Infância e da Juventude de Quirinópolis (GO)

O sonho de Adriana Maria Queiróz, 38 anos, sempre foi o de ser juíza. “Vi na magistratura uma nobre missão e uma oportunidade de interferir positivamente na vida as pessoas. Eu que vivia em contexto de injustiças poderia perseguir e concretizar a justiça através do exercício da função“, disse em conversa com CLAUDIA.

Mas a jornada para se tornar a titular da 1ª Vara Cível e da Vara de Infância e da Juventude de Quirinópolis (GO) não foi fácil. As condições sócio-econômicas em que Adriana nasceu, na pequena cidade de Tupã, a 450 km de São Paulo, não favoreciam a filha de retirantes do sertão da Bahia, negra e estudante de escola pública a concretizar seu grande desejo.

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Contudo, essa realidade não foi um empecilho para a juíza, que se inspirou em seus pais para atingir seus objetivos. “Nasci no seio de uma família humilde, de poucos recursos financeiros e de um histórico de falta de escolarização. Assim, aprendi a jamais aceitar limitações oriundas deste contexto (…) Meus pais, na simplicidade e contexto social que viveram, mostraram-me não devemos permanecer estagnados em condições desfavoráveis se podemos romper nossa zona de conforto e sair em busca de melhores condições.”

O desejo em sair de sua zona de conforto e por justiça fez com que Adriana iniciasse seus estudos em Direito. Mas para bancar esse sonho, a juíza precisou se desdobrar na rotina de estudos e trabalhos como o de faxineira – função que desempenhou por seis meses na Santa Casa de Tupã e que a fez ser vítima de preconceito. “Muitos me ridicularizavam por limpar o chão e estar frequentando a faculdade de Direito. Algumas pessoas insinuavam que lugar de pobre e negro é limpando o chão e não na faculdade. Ainda mais a de Direito.”

Formada, a então bacharel decidiu seguir com seus estudos sobre a legislação brasileira, rumo ao tão desejado cargo de juíza, conciliando apostilas e novo emprego. “Ciente do curso preparatório Damásio de Jesus [voltado para concursos públicos], em São Paulo, capital, pedi demissão do trabalho e, com o acerto trabalhista, mudei-me para a capital paulista. Aluguei um quarto em um pensionato de estudante, matriculei-me no curso e fui em busca de trabalho para poder me manter residindo e estudando na cidade.”

O resultado de tanta preparação e dedicação foi a tão sonhada carreira de magistrada conquistado pela tupãense. Em janeiro de 2011 Adriana passou no concurso e assumiu a função de juíza, na 1ª Vara Cível e da Vara de Infância e da Juventude de Quirinópolis (GO).

Uma das poucas juízas negras do Brasil – em um país em que apenas 15,6% de seus magistrados são negros, segundo o Censo do Judiciário de 2013, realizado pelo Conselho Nacional de Justiça -, Adriana acredita que a representatividade negra no judiciário é importante para incentivar esta minoria a exercer cargos que não sejam marginalizados pela sociedade. “É um estímulo no sentido de que o negro pode, sim, exercer cargos como o da Magistratura. Além disso, mostra um pequeno avanço – que em muito precisa ser melhorado – da ruptura da imagem, ou conceito social, de que o negro está fadado a exercer funções da base da pirâmide social.

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A trajetória de Adriana é narrada em seu livro Dez Passos Para Alcançar Seus Sonhos – A História Real da Ex-Faxineira que se Tornou Juíza de Direito (Novo Século), em que a paulista também dá conselhos sobre persistência e motivação. “Decidi contar minha história através do livro, como forma de incentivar as pessoas que, assim como eu, sonham e se encontram distantes deles e em situações adversas e contextos desfavoráveis.”

O livro lançado por Adriana reúne todos os altos e baixos da luta da juíza até a realização de seu tão desejado sonho. Agora, depois de ter conseguido colocar em prática seu objetivo de ser juíza, a paulista não pretende deixar de batalhar contra as injustiças sociais e tem planos para seu futuro. “Quero aprimorar-me ainda mais e, através dos livros e palestras, motivar as pessoas e interferir positivamente na mudança de suas vidas, e assim, efetivar a justiça social de forma ainda mais ampla.”

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