12 dúvidas respondidas sobre a 1ª ida da filha ao ginecologista

Perguntas desconfortaveis e timidez: é compreensível que, tanto mãe, quanto filha, se sintam pisando em ovos e protagonizem um diálogo monossilábico.

Minha mãe nunca conversou comigo sobre menstruação, sobre sexo. Mais tarde fui perguntar às minhas amigas se a mãe delas também tinha “aberto o jogo” em algum momento, talvez na adolescência, a resposta foi negativa. Em alguns casos, as mães até comentaram algo aqui, outro acolá, mas nada muito profundo. Muito provavelmente esse não seja o assunto preferido ou mais comentado pelas mães e filhas porque, além de tabu, é extremamente difícil — difícil a abordagem, difícil a abertura.

As perguntas podem ser cabulosas ou a timidez pode ser maior, e é compreensível que, tanto mãe, quanto filha se sintam pisando em ovos o tempo inteiro e protagonizem um diálogo monossilábico. Uma das saídas mais saudáveis para o problema é, certamente, levar a pequena — que agora não é mais tão pequena assim — ao ginecologista.

Foi pensando exatamente nos percalços da temática corporal e sexual dessas conversas que a Dra. Mariana Maldonado, ginecologista e obstetra membro da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH). escreveu em conjunto com sua mãe, a psicóloga e terapeuta familiar, Maria Tereza Maldonado, o livro Palavra de Mulher – Histórias de Amor e Sexo, que reúne histórias reais sobre saúde, sexo e autoconhecimento, todas já abordadas dentro do consultório por mulheres de várias faixas etárias. Foi tomando como base a obra que reunimos e esclarecemos 12 dúvidas recorrentes sobre como agir com sua filha em situações extremamente delicadas.

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CLAUDIA: A primeira consulta ao ginecologista deve coincidir com a primeira menstruação da garota?

Dra. Mariana Maldonado: Essa uma recomendação médica. Então, logo após a primeira menstruação é indicado que a garota comece a frequentar, é pelo menos uma vez por ano, o ginecologista. É importante que haja esse incentivo para fomentar a formação de um vínculo entre a menina e o especialista. Pois ele acompanhará e cuidará da saúde do corpo desta jovem durante muito tempo, desde o início da vida sexual, durante toda a vida reprodutiva. Também precisamos frisar que o acompanhamento ginecológico dessa menina não deve se resumir a questões práticas como o crescimento dos seios, desenvolvimento da genitália, características da menstruação, incluindo seus sintomas etc.

Este é um momento na nossa vida que estamos muito confusas, porque é como se não fossemos mais “crianças” mas também ainda não nos tornamos mulheres. Então, é de suma importância que os médicos respondam as dúvidas dessas meninas, seja com relação à higiene, ao uso de anticoncepcionais, doenças sexualmente transmissíveis, vacinação contra HPV, enfim, há muitos assuntos que já podem ser abordados desde cedo. A informação ainda continua sendo a principal catalisadora da prevenção.

A idade com que ocorre a menarca, como também é chamada a primeira menstruação, geralmente varia de população para população ao redor do mundo. No Brasil e na América Latina como um todo, a faixa etária varia de onze a treze anos. A menarca precoce é considerada quando acontece antes da menina completar nove anos de idade, a tardia, a partir dos dezesseis. Este é outro ponto importante da relação entre mãe e filha — atentar-se às transformações e queixas da menina. Porque antes da sua filha menstruar precocemente, o corpo dela irá dar sinais de que isso ocorrerá, tais como o crescimento de seios anormal para a idade, nascimento de pelos nas axilas e na região pubiana etc. Uma das principais consequências de se menstruar antes da idade prevista é o retardo do crescimento. Se você acha que a sua pequena se enquadra, de certa forma, em alguns desses aspectos, também é hora de procurar um ginecologista.

Por que estabelecer uma relação de parceria, confiança e amizade entre mãe e filha é tão importante e determinante neste momento?

Maria Tereza Maldonado: Essa relação de companheirismo e de abertura da conversa entre mãe e filha deve ser construída desde a infância. Para que haja uma fidelidade sólida, no sentido de que a menina precisa ter certeza sobre a postura receptiva da mãe, que a ouvirá, compreenderá e orientará. Neste caso, a conversa será mais tranquila. Agora, se a garota cresce com medo da postura crítica, e muitas vezes, repressora da mãe, é muito provável que ela deixe vários aspectos do seu comportamento secretos.

Por isso é fundamental que as duas tenham um relacionamento que propicie essa abertura, para que a menina exponha pontos mais sensíveis da sua vida e não se sinta julgada ou desamparada. A mãe, por outro lado, precisa deixar claro que toda essa confusão que a filha está passado faz parte de uma das tantas transições que passamos ao longo da vida. Uma forma de abordar esse assunto é colocar-se no lugar da menina, ou seja, a mãe citar e explicar que isso já aconteceu com ela e como foi essa experiência.

Como conversar com a sua filha sobre a necessidade de visitar o ginecologista pela primeira vez e também sobre a necessidade desta visita ao médico se tornar frequente?

Dra. Mariana Maldonado: Muitas meninas demonstram resistência para ir pela primeira vez ao ginecologista, é muito comum elas pensarem — o que eu vou fazer no médico se eu não estou sentindo nada? — ou até mesmo — do que o ginecologista trata? Muitas vezes o que agrava a situação é que a mãe pode não ter tido uma experiência bacana com o ginecologista, um vínculo bom, o que favorece um grande anseio e insegurança sobre a primeira ida da filha ao médico e dificulta a criação deste vínculo.

É fundamental desde o início explicar e dizer de várias formas para a criança o quanto nossa saúde vale e a necessidade de conhecermos o nosso corpo e de cuidar dele, em todos os aspectos, tanto físico, quanto psicológico. Obviamente que cada uma é criada de uma forma, inserida numa cultura, mas o cuidado consigo mesma deve ser um valor predominante nesses assuntos. Quando a adolescente se mostra um pouco mais resistente, as estratégias que a mãe pode abrir mão são: negociar, argumentar, instigar — dizendo para a garota se ela não gostaria de esclarecer algumas dúvidas com um especialista —, perguntar sobre possíveis indicações de médicos feitas pelas amigas.

Nessa fase, é importante abrir o jogo, dizer que o médico será a melhor pessoa para responder algumas perguntas, porque têm coisas que as mães não vão saber responder porque não estudaram para isso. Muitas garotas também ficam acanhadas porque acham que o médico irá contar sobre alguma experiência específica, geralmente ligada ao sexo, à mãe. Por isso é importante, acima de tudo, respeitar a vontade da pequena, e muitas vezes levá-la ao ginecologista da mãe pode não ser uma boa ideia.

Outro possível problema pode ser o gênero do médico. Muitas mulheres dizem que se sentem melhor em serem atendidas por mulheres, outras por homens. Neste caso, é importante frisar que sensibilidade e delicadeza não é uma questão de gênero, mas da pessoa. Ginecologistas homens também podem ser sensíveis e empáticos, mas cabe a experiência e ao costume de cada uma decidir com quem irá se consultar. O importante é se sentir à vontade.

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No Brasil, a maioria das mulheres não toca o próprio corpo, não se conhece, e isso é muito grave, porque isso facilita a automedicação e a cultura do nojo pelo próprio corpo, principalmente quando estamos menstruadas. Baixa autoestima e a não aceitação do próprio corpo também são consequências. Como agir para que as nossas filhas gostem e conheçam o próprio corpo?

Maria Tereza Maldonado: É triste, mas extremamente comum que as meninas sintam repulsa pelo próprio corpo. E isso pode e deve ser objeto de conversa. Uma das estratégias mais efetivas é contar sobre a própria experiência com o corpo. ‘Quando eu estava nessa fase, isso também foi muito confuso para mim, tinha muita dificuldade para falar sobre isso com a sua avó’, por exemplo.

Outro ganho possível é também falar sobre as outras pessoas, amigas, enfim, para facilitar a abordagem do assunto. Observar mesmo as coleguinhas e tentar abordar de alguma forma o assunto. Porque é nesta época que as jovens vão perceber os olhares diferentes dos garotos, é uma mistura de sentimentos muito grande e intensa.

Com qual frequência uma adolescente deve ir ao ginecologista?

Dra. Mariana Maldonado: Depende da faixa etária, mas geralmente é indicado que a garota frequente o médico, pelo menos, uma vez por ano, a partir da primeira menstruação. Nessa consulta, é feita uma avaliação clínica, para que o médico veja se está tudo bem. É claro que a mãe pode levar a filha a qualquer momento, caso perceba algum sintoma irregular.

Mas num primeiro momento, o papel do médico é orientar, falar sobre coisas básicas como a higienização durante a menstruação, quantas horas a garota pode ficar com um absorvente. Explicar sobre as mudanças que a jovem vai sentir ou está sentindo, responder as dúvidas etc. É importante que a consulta seja amigável, que os familiares não coloquem “terror” nas meninas. Porque a maioria de nós associa a uma consulta a ideia de tratamento, remédios, injeção. Enfim, a consulta com o ginecologista precisa deixar bem claro que possui outro teor, outro objetivo, o de conversar e orientar a pré-adolescente.

É indicado que as mães entrem no consultório junto com as filhas durante a consulta?

Dra. Mariana Maldonado: Essa é uma questao bem variável. A adolescente tem direito a entrar sozinha. Portanto, a presença da mãe não é obrigatória, mesmo que ela seja menor de idade. O que acontece muitas vezes é que a mãe quer entrar a consulta, contra a vontade da menina. Algumas mães desejam ficar durante a consulta inteira, e isso tira um pouco a liberdade das garotas, que às vezes, querem conversar em particular com os médicos sobre a sexualidade.

Durante a primeira consulta, é legal que a mãe acompanhe para apresentar a filha ao médico e vice-versa. Mas é importante que haja privacidad. Durante a realização do exame, é sempre importante que haja alguém junto com a garota, seja a mãe ou a assistente do médico, sob o ponto de vista jurídico, para minimizar ao máximo as chances de abuso ou de uma falsa acusação. Já aconteceram casos de mães que querem acompanhar o exame para ver se a filha é virgem ou não. Nesta hora é fundamental ter muito cuidado, porque a adolescente tem direito ao sigilo, a menos que esteja colocando a sua ou a vida de terceiros em risco. Sempre deixo muito claro que a mãe pode ficar tranquila e que a menina pode ter uma abertura comigo para conversar sobre tudo.

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Quais são os procedimentos médicos realizados nesta consulta? Serão pedidos exames?

Dra. Mariana Maldonado: O exame clínico é bem simples, verifica o desenvolvimento dos seios e da genitália da jovem. Se ela está com irritações na vagina, por exemplo. Uma adolescente sexualmente ativa não tem indicação obrigatória para a realização do exame preventivo. A indicação do Ministério da Saúde é que o papanicolau seja feito a partir dos 25 anos.

Por que é tão importante construir, desde cedo, nas meninas, a mentalidade de que elas precisam cuidar do próprio corpo, principalmente depois que iniciam a vida sexual?

Dra. Mariana Maldonado: Essa é uma questão cultural muito importante. A mulher ainda é muito censurada no aspecto de autoconhecimento do próprio corpo, sempre ouvimos que ‘isso não pode’, que pé feio, proibido. A menina vai tocar a genitália, às vezes não com um desejo sexual, mas para se descobrir mesmo, e a mãe bate na mão. Há uma série de sitações que corroboram para que as meninas nao tenham curiosidade de se conhecer.

Outro fator que também deve ser levado em conta é que o orgão reprodutivo feminino é bem mais interno quando comparado ao masculino. Por isso não é tão difícil que o homem aprenda desde cedo a se tocar com maior desenvoltura. Nós mulheres não temos essa visão tão direta, para ver bem, colocamos um espelho. A cultura masculina também sempre foi mais livre nesse sentido de conhecer o próprio corpo.

Hoje, percebo que as famílias estão conversando mais e melhor com suas meninas, apesar de ainda ser um assunto motivo de muito preconceito e tabu. Acredito que estamos mais liberais em termos de conversa. Mães costumam conversar com suas filhas sobre o que é mensrtuação, para que elas tenham ciência acontece com o corpo, quais são os cuidados etc. Fala-se um pouco sobre educação sexual na escola, mas é algo muito superficial. Se você não sabe dos reais riscos, você se protegerá menos, não terá tant consciência.

É fundamental que as garotas compreendam a importância de colocar em prática essas recomendações e usem isso para seu próprio bem. Hoje, os adolescentes têm um maior entendimento das coisas do que tinham antes. Isso não significa que as meninas que têm dificuldade em aceitar e conhecer o prórpio corpo não continuarão tendo. O que tenho percebido é que jovens que recebem uma educação mais rígida estão procurando mais se informar e nos procurado mais. Elas leem sobre o assunto e se identificam. Parece que agora as meninas têm mais coragem para falar. Saber sobre o seu corpo, como ele muda, como ele funciona, é um exercício diário.

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Quais são os conselhos que uma mãe pode dar para a filha quando percebe que ela está iniciando sua vida sexual?

Dra. Mariana Maldonado: Primeiramente, se cuidar para não contrair nenhuma doença sexualmente transmissível e também para não engravidar. Em segundo lugar, escolher seus parceiros de coração. Porque muitas meninas iniciam a vida sexual por pressão, seja do namorado, das amigas que já começaram, enfim, para não se sentirem alheias ao grupo. Mas é muito importante que a primeira relação sexual aconteça com alguém com que ela tenha vontade de estar junto e que seja uma experiência responsável e consciente. Não porque ela ‘cansou de ser virgem’ e sim porque já se sente preparada para isso. É muito importante que ela também tenha a consciência de que isso poderá trazer experiências boas e ruins, riscos emocionais e de saúde.

É importante que a garota tenha responsabilidade com o próprio corpo, respeito consigo mesma, não só do ponto de vista físico, mas também emocional. Por isso é tão importante que ela faça por ela e não pelos outros. As meninas estão iniciando a vida sexual cada vez mais cedo, os índices de gravidez na adolescência têm aumentado bruscamente. O índice meninas com catorze, quinze anos que engravidam aumenta significativamente, enquanto o de todas as outras faixas etárias diminui. Isso é um reflexo de aspectos preocupantes da nossa estrutura social, política e econômica. E esse é um problema que afeta todas as camadas sociais. O que eu posso dizer é que, como médica, percebo que há um ‘pensamento mágico’ que permeia essas garotas, o de que ‘nunca vai acontecer comigo’.

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Quais são as dúvidas mais recorrentes das meninas nesse período e qual a estratégia que as mães e os pais devem adotar para respondê-las claramente?

Dra. Mariana Maldonado: Depende da faixa etária, de onze a treze anos, as dúvidas maiores dúvidas vêm da mãe, sobre orientações de higiene durante a menstruação, a frequência com que as garotas devem trocar o absorvente, como ajudá-la a anotar os ciclos, lavar as calcinhas, sobre as espinhas, cólicas e outras responsabilidades. Entre os catorze e dezesseis anos, meninas perguntam mais sobre contracepção e proteção, irregularidades no ciclo, fluxo acentuado, ovário policístico etc.

Como lidar com a puberdade precoce?

Dra. Mariana Maldonado: Se a mãe perceber o surgimento na filha de sinais de que ela vai menstruar cedo, é muito importante que ela encaminhe a filha o tratamento de retardar a menstruação. As principais consequências, neste caso, estão relacionadas ao crescimento da jovem que pode não alcançar o alvo genético caso menstrue precocemente. Geralmente, o próprio pediatra é capaz de identificar essas mudanças no corpo da menina. Na maioria das vezes, as causas são genéticas.

Como a família pode ajudar e estar presente nesse processo?

Hoje, a gente tem uma multiplicidade de arranjos familiares, que nem sempre são concentradas nas figuras da mãe e pai. Às vezes, o pai é mais presente, a chefe-de-família é a avó ou então os pais são separados. As dinâmicas variam muito por causa dessa questão. Mas algo que tem se agravado muito é a participação cada vez menos efetiva. As agendas dos aldolescentes são cheias, as da família também. O ritmo de trabalho não permite uma conversa profunda. E todo o tempo livre que temos dedicamos aos celulares. As coisas acontecem e os pais não percebem, pois estão todos muito entretidos, muito ocupados em suas telas.

Muitas vezes, esse tipo de conduta pode estar relacionado a uma atividade sexual mais precoce ou a uma falta de cuidado com o corpo. E as consequências são graves: uma gravidez não planejada, um vírus. Por isso é tão fundamental prestar atenção no crescimento dos filhos e se mostrar sempre disponível para uma oportunidade de conversa. Podem ser pequenos momentos do dia a dia, atividades em conjunto, um almoço, um jantar. A gente precisa o tempo todo criar possibilidades nesse mundo super exigente. Sem acompanhamento não tem como criar bem os filhos neste mundo conturbado em que vivemos.

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