
Aos 17 anos, após assistir à agonia do avô, um italiano robusto, vitimado pelo câncer, a paulista Sílvia Regina Rogatto decidiu que estudaria os tumores e encontraria formas de amenizar o sofrimento das pessoas atingidas por eles. Hoje, aos 51 anos, a bióloga e geneticista é uma das maiores especialistas brasileiras em genética de câncer. Sílvia abriu caminho para diagnósticos mais precisos e tratamentos eficientes de vários tipos da doença. Descobriu, por exemplo, mutações em alguns genes que indicam a predisposição para o desenvolvimento de tumores comuns em mulheres, como os de mama e de cólon. “Isso contribui para a identificação precoce da doença, o que tornará possível tratá-la antes que avance”, explica a professora do Departamento de Urologia da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, e pesquisadora do Centro Internacional de Pesquisas do Hospital A.C. Camargo. O rastreamento de marcadores moleculares – substâncias encontradas no sangue, urina ou tecidos que indicam a presença do câncer –, associado à resposta ao tratamento de carcinomas de boca e faringe, é outro resultado importante da pesquisa de Sílvia. Os marcadores estudados por ela dão indícios de como a pessoa reagirá ao tratamento. “As terapias não são específicas para cada indivíduo e muitos não respondem a elas, sofrendo apenas os efeitos adversos”, diz. “Nosso objetivo é identificar aqueles que respondem ou não à quimioterapia e à radioterapia nos tumores muito agressivos de orofaringe.”
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Todos os dias, o sol envia para a Terra 10 mil vezes mais energia do que a humanidade consome. Transformar a luz da nossa estrela maior em eletricidade é uma tarefa complexa e cara, o que faz essa forma de energia ser muito pouco aproveitada no mundo todo. O trabalho da física gaúcha Izete Zanesco, 45 anos, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, pode mudar essa realidade no Brasil. Em parceria com o físico Adriano Moehlecke, ela desenvolveu uma tecnologia nacional, eficiente e barata para transformar energia solar em elétrica: os módulos fotovoltaicos. Eles são compostos de células fotoelétricas fabricadas com silício, mesmo material semicondutor usado nos chips de computador. Produzir as células exige o domínio de tecnologia de ponta. Resolvida essa questão, elas são agrupadas em painéis ou módulos, de tamanho variável, conforme a necessidade. A energia gerada não causa nenhum tipo de poluição e pode ser usada na hora ou armazenada em baterias, para ser utilizada à noite ou em dias nublados ou de muita chuva. Em uma minifábrica montada na universidade, Izete e sua equipe produziram 200 desses painéis solares. “Entregamos o produto pronto. As empresas só terão de colocá-lo para funcionar”, comemora a física. Trata-se de uma das raras vezes em que uma instituição acadêmica participa da pesquisa, do desenvolvimento e da fabricação. “A ideia agora é atrair investimentos para lançar as bases de uma indústria nacional de células solares”, diz Izete Zanesco.
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O trabalho da nutricionista paulista Lucia Yuyama, 56 anos, pode ser visto sob dois ângulos. Do ponto de vista científico, ela pesquisa os frutos amazônicos – a composição química, o valor nutricional e a biodisponibilidade, ou seja, quanto o corpo humano assimila esses nutrientes. O outro lado é transformar a pupunha, o buriti, o tucumã e muitos outros em farinha para suprir a carência de vitaminas e proteínas da população, principalmente de crianças e adolescentes. “As pessoas, por desconhecer o valor nutritivo, acabam não utilizando”, alerta a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa). Ao serem acrescentadas à merenda escolar das escolas públicas, as farinhas da pupunha e do tucumã criadas por Lucia complementam as necessidades diárias de vitamina A (betacaroteno), boa para a pele e visão, prevenção de doenças infecciosas e proteção do aparelho digestivo. As pesquisas mostram ainda que os frutos amazônicos ajudam no controle da anemia e desnutrição. A obesidade infantil também pode ser combatida com o uso do cubiu, fruto pouco calórico, mas com alto teor de fibras, que reduz o nível de colesterol e glicose no sangue. Outro objetivo da nutricionista é dar suporte científico às receitas populares. “É preciso resgatar a cultura regional. Não adianta descobrir o potencial nutricional dos frutos se não entregamos essa informação à população”, defende. A iniciativa ainda estimula a agricultura familiar e os pequenos produtores, que criam métodos artesanais para processar os alimentos encontrados ao seu redor.
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Se amargo foi já ter sido/Troque já esse vestido/ Troque o padrão do tecido/Saia do sério deixe os critérios/Siga todos os sentidos/Faça fazer sentido...” As palavras instigantes são versos da música Milágrimas, escritos pela curitibana Alice Ruiz, 65 anos, uma das maiores poetas e letristas do país atualmente. “Por meio da poesia, busco mostrar o lado positivo, as coisas boas da vida. Claro que há dor, mas há a possibilidade de enfrentá-la com mais leveza”, ensina a grande estudiosa, escritora e disseminadora de haicais, forma poética japonesa que se inspira na natureza e valoriza a objetividade. Ela dá oficinas e palestras pelo país e já despertou em milhares de pessoas – de todas as idades – a paixão pelo poema. “Dentro de cada indivíduo, há um talento louco para acordar; muitas vezes, porém, a vida não dá chance para que isso aconteça”, diz. Alice escreve versos desde menina, mas fez carreira na publicidade e lançou seu primeiro livro, Navalhanaliga (Zap), em 1980. Hoje são 20 livros publicados, dois deles premiados com o Jabuti de poesia: Vice Versos (Brasiliense), em 1989, e Dois em Um (Iluminuras), em 2009. Escreveu mais de 50 músicas – algumas com parceiros – gravadas por feras como José Miguel Wisnik, Ná Ozetti, Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Arnaldo Antunes, Cássia Eller e Adriana Calcanhoto. Um dos parceiros de longa data foi Itamar Assumpção. “Uma vez, Itamar ligou para brigar comigo porque eu estava em São Paulo e não havia procurado por ele e, no calor da conversa, compusemos uma música por telefone”, recorda.
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Espinhos do mandacaru, cacto típico do Nordeste, são usados como alfinetes pelas rendeiras. Das mãos ágeis e calejadas vão nascendo pequenas obras de arte: bilro, renascença, filé e boa-noite. Valorizar e tornar mais conhecida essa cultura tão rica e brasileira é o trabalho e a paixão da estilista Martha Medeiros, 48 anos. A alagoana é proprietária de um ateliê nos Jardins, bairro nobre de São Paulo, onde cria vestidos de renda para noivas e para festa . “O mais fascinante é a oportunidade de estar presente nas duas pontas e unir sofisticação ao artesanato brasileiro.” Com bom humor e disposição invejável, Martha atende suas clientes em São Paulo e capacita as rendeiras à beira do rio São Francisco, agregando valor ao produto – são 280 mulheres de oito comunidades que se organizam em cooperativa para confeccionar o produto vendido para Martha. A estilista participa ainda de desfiles e eventos pelo Brasil e visita compradores de seus vestidos artesanais no exterior. O gosto pela moda, ela herdou da avó, professora de arte que ensinou a neta a fazer vestidos para as bonecas. Na juventude, criava roupas customizadas paralelamente ao emprego de bancária. Até que montou a primeira butique multimarca, a Maison M, em Maceió. Perspicaz, viu na renda um bom negócio. No fim de 2008, inaugurou seu ateliê na capital paulista. Os vestidos de Martha Medeiros são vendidos não só nas duas lojas próprias mas também em 20 estabelecimentos em diferentes estados e ainda no Oriente Médio, nos Estados Unidos, na Inglaterra, Alemanha e em Portugal.
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Órfã de pai ainda criança, Daniela Biancardi, 36 anos, foi estimulada pela mãe a se envolver em projetos artísticos para superar a dor e o trauma. Levou tão a sério que se tornou palhaça cênica profissional e referência no país quando o assunto é apresentar humor para crianças e jovens de comunidades sem acesso à cultura. Primeira e única brasileira a fazer parte da trupe Palhaços sem Fronteiras, ONG internacional que leva apresentações cômicas a zonas de conflito e exclusão, em 2007 Daniela viajou pela África do Sul e Lesoto, onde trabalhou em aldeias com crianças portadoras de HIV. “A maioria nunca havia visto um espetáculo, muito menos um palhaço”, conta. “Não era fácil para elas nem para mim. Então, procuramos alguma coisa para rir juntos, brincar juntos.” Trouxe a rica experiência para sua terra natal e, por três anos, atuou com jovens de baixa renda no programa Teatro Vocacional da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Participou também de vários projetos do Sesc e do Instituto Vivo, no qual deu oficinas de humor e teatro na periferia de cidades do norte do país. Hoje, entre muitas atividades, é formadora do curso de humor da SP Escola de Teatro, instituição do governo do Estado de São Paulo que ensina artes cênicas. Daniela Biancardi não pratica o humor banal e superficial, da “graça pela graça”; vê o palhaço como uma figura que nasce de uma urgência social, cultural e humana. “É um agente provocador, que instiga as pessoas a pensar em uma sociedade diferente.”
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Ao conhecer Etel Carmona em sua sofisticada loja nos Jardins, em São Paulo, não se imagina que a empresária já andou de mula, tomou banho em igarapé e dormiu em rede quando viveu na Floresta Amazônica capacitando artesãos para fazer móveis. A obstinação dessa mineira de 64 anos a transformou em referência no mercado de luxo de móveis feitos com madeira brasileira certificada. “Meu trabalho agrega valor à madeira e a transforma em joia”, afirma a dona da Etel Interiores, marca fundada em 1988 pela designer, que conquistou diversos pontos do globo. Nas casas do ator George Clooney e do prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, há criações dela. Com o faturamento de dezenas de milhões, alcança todo o Brasil e, no exterior, vende em lojas de Nova York, Toronto, Lisboa e Düsseldorf, além de ter clientes que compram aqui e levam para Rússia, Kuwait e Dubai. Etel emprega 110 artesãos em sua fábrica em Valinhos, interior de São Paulo. Montou também uma fábrica em Xapuri (AC), a Aver Amazônia, onde ensinou e incentivou comunidades a trabalhar com o manejo sustentável. Hoje são cem famílias, todas fornecedoras (não exclusivas) da fábrica. Com o conhecimento do manejo, elas passaram a ganhar 30% a mais. Etel tornou-se a primeira moveleira no Brasil certificada pelo Forest Stewardship Council (FSC), entidade internacional pioneira na certificação de madeira. Também foi convidada pela instituição para dar workshops sobre a prática de manejo da madeira.
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Etel Interiores: 3064-1266
Lissa Carmona – 8382.9841
lissa@etelinteriores.com.br

Armazém Paraíba, no Nordeste, é sinônimo de progresso na cidade. Cláudia Claudino, 46 anos, comanda uma rede varejista de 400 lojas de departamento espalhadas pelo Piauí, Maranhão, Ceará, Bahia e Pernambuco. Visão para o negócio e coragem de expandir ela aprendeu com o pai, o paraibano João Claudino. Em 1958, ele abria uma modesta loja de tecidos. Com um irmão, foi inaugurando lojas e fábricas pelo interior e pelas capitais. O Grupo Claudino soma hoje a rede de varejo, as fábricas de roupas, móveis, colchões, bicicletas e carrocerias, uma construtora, uma gráfica, um frigorífico e um shopping center. Cláudia nasceu em Cajazeiras (PB) e, com 3 anos, mudou-se com a família para Teresina, onde hoje comanda parte do império que João Claudino ainda administra, com a ajuda dos filhos. Cláudia está à frente das lojas de departamento, que respondem por metade do faturamento do grupo – 1,9 bilhão de reais em 2010. “O negócio está no sangue”, diz. Formada em direito e economia, decidiu trabalhar no setor de vendas até assumir um cargo na diretoria e, há sete anos, a vicepresidência da rede varejista e da fábrica de roupas Guadalajara. Criou novas marcas, abriu mais lojas, modernizou as existentes, implementou o setor de RH e investiu na carreira dos funcionários – 8 mil só na parte do negócio que cabe a ela. Fundou o Instituto Ciranda do Bem, que realiza ações sociais nas comunidades carentes de Teresina. O segredo do clã? “Não tem. Só muito trabalho.”
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Os amigos a chamavam de “natureba” por sua opção pela alimentação saudável. Hoje, seu estilo de vida a ajuda a tocar uma empresa que cresce em média 30% ao ano, é lucrativa e sustentável. Aos 38 anos, a paulistana Marília Rocca, uma executiva que decidiu ter o próprio negócio e tornou-se sócia da Mãe Terra em 2008, vê os produtos orgânicos de sua empresa ganharem mais e mais espaço nos supermercados. A conquista é resultado de muita negociação e de inovações constantes – como a primeira linha infantil de salgadinhos orgânicos. “Lançamos ícones do junk food em versão orgânica e natural. Isso é importante quando se sabe que 33% das crianças brasileiras estão com sobrepeso”, conta. Marília e sua equipe pesquisaram no mercado produtos com grande aceitação pelo consumidor e criaram versões com milho, arroz integral e temperos saborosos. Os salgadinhos têm vitaminas e não levam conservantes nem substâncias como o glutamato monossódico, usado para acentuar o sabor. Na linha de produção estão ainda um macarrão tipo lámen e uma sopa instantânea– orgânicos e livres de aditivos químicos. Este ano, a Mãe Terra ganhou o Prêmio GreenBest como a maior empresa verde do segmento, graças ao projeto “Pensando bem”, que rastreia os sete impactos ambientais de diversos produtos – do plantio à entrega nas lojas – para reduzi-los. Marília se orgulha de ter o propósito de mudar a vida das pessoas com seus alimentos “naturebas”.
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A assistente social Alice Kuerten, 62 anos, foi voluntária em 13 instituições antes de criar e assumir o Instituto Guga Kuerten (IGK), que investe no esporte como ferramenta
de aprendizado e desenvolvimento de alunos de escolas públicas e de pessoas com deficiência.
"Uma criança que aprende a gostar do estudo e do esporte não vira apenas bom aluno - conquista um futuro", diz Alice. "Ganha dignidade, constrói boa autoestima e, quando atinge a maioridade, consegue emprego." Alice ficou viúva em 1985, com três filhos pequenos: Rafael, Gustavo e Guilherme (este último, chamado de Guga, portador de deficiência física e mental, faleceu aos 28 anos em 2007). Guga, que tinha 8 anos, e começado a treinar tênis,incentivado pelo pai, e com o apoio da mãe. Quando se tornou o número 1 do mundo, o jogo virou: ele passou a apoiar financeiramente o trabalho social da família e, em 2000, nasceu o IGK, que implantou seis núcleos em associações e empresas parceiras frequentados por crianças e jovens de baixa renda no período em que não estão na escola. Além do incentivo ao esporte, há sessões de leitura e debates sobre valores familiares, bullying, violência e paz. Às sexta-feiras, 30 pessoas com deficiência participam das atividades. O IGK recebe patrocínio de empresas e apoia com dinheiro e recursos técnicos 188 instituições em 165 municípios de Santa Catarina. Elas desenvolvem ações de integração social para pessoas com deficiência. Já foram atendidos mais de 39 mil adultos e crianças.
Contato:
Florianópolis - SC
(48) 3331-4631/ 9167.8088 Cristiane sec.
igk@guga.com.br
Alice@guga.com.br

Com apenas 5 anos, João já carrega cicatrizes no corpo e na alma. O pai era violento e a situação em casa atingiu tal gravidade que a própria mãe o entregou ao conselho tutelar.
Desde então, ele mora em um abrigo. Lá, está montando um álbum de sua vida, com fotos, recortes e relatos. Faz parte do programa "Fazendo minha história", idealizado pela psicóloga paulista Claudia Vidigal, 36 anos, para resgatar a identidade e a autoestima de crianças e adolescentes órfãos ou de famílias sem condições de criá-los. "Eles têm marcas, dores e amores diferentes.
Não dá para tratá-los simplesmente como pessoas negligenciadas e abandonadas", defende Claudia. "Minha ideia é dar voz, força, individualidade e potência a cada uma delas." Claudia se dedica ao trabalho voluntário desde os 10 anos. Em 2005, com mais três psicólogas, montou o Instituto Fazendo História. A ONG tem vários programas, entre eles o que acolheu João: crianças e jovens entram em contato com livros - em cada abrigo é implantada uma biblioteca com 150 obras infantis e juvenis - e são estimulados a contar e registrar a própria trajetória. Outros programas: "Perspectivas", que forma profissionais da rede de acolhimento; e "Com tato", no qual psicoterapeutas atendem voluntariamente crianças e adolescentes em seus consultórios. Em 2010, o Fazendo História atuou em 105 instituições, recebendo mais de mil crianças e adolescentes em municípios de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Ceará e Paraíba.
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São Paulo - SP
(11) 3021-9889/ 8126.2333
Claudia@fazendohistoria.org.br
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Se hoje nós, mulheres, temos direito à carreira, à sexualidade e à educação, muito devemos a um grupo de feministas corajosas que, em plena ditadura militar, reagiam contra a desigualdade entre homens e mulheres, às vezes arriscando a vida. Uma delas é a advogada carioca Leila Linhares Barsted, 66 anos, conhecida por sua luta em defesa das mulheres e pela descriminalização do aborto.
"Minha missão é fazer barulho para que a mulher tenha direito à autonomia sobre a vida e o corpo", resume. Há quase quatro décadas, Leila está envolvida em atividades múltiplas, mas com objetivo definido: garantir os direitos femininos. Faz pressão nos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário; conduz pesquisas e orienta projetos de lei;publica livros; participa de reuniões e seminários em todo o país; dá cursos de capacitação para profissionais da saúde e policiais do Rio de Janeiro para que se sensibilizem no atendimento às vítimas de violência. É uma das fundadoras e diretoras da CEPIA - Cidadania, Estudo, Pesquisa, Informação e Ação, ong que atua a favor dos direitos humanos e, sobretudo, das mulheres. Participou da elaboração do texto da Lei do Planejamento Familiar (1997), que reconhece o direito feminino a condições seguras de contracepção e da Lei Maria da Penha (2006). Ajudou a criar as delegacias de mulheres e a sacramentar na Constituição de 1988 a igualdade entre os sexos. A militância começou quando cursava direito e defendia presos políticos.
"Fomos uma geração com sonho e ideologia", afirma.
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21. 2205.2136 / 8700.3106
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O mundo é feito de diversidade. Nas escolas, por exemplo, um aluno nunca é igual ao outro. Alguns são mais rápidos e assimilam sem problemas a matéria apresentada em classe. Outros precisam ser constantemente estimulados e acompanhados de perto pelo professor. Também não podemos nos esquecer das crianças com algum tipo de deficiência, que necessitam de atenção especial e orientação profissional para ganhar autonomia, integrando-se perfeitamente à sociedade. Garantir a inclusão de pessoas surdocegas, cegas ou com baixa visão é o trabalho desenvolvido pela professora de orientação e mobilidade Arlete Fátima Argenta, 56 anos, através do Instituto da Audiovisão (INAV) na cidade de Caxias do Sul (RS). Fundado há pouco mais de dois anos por Arlete e outras quatro amigas, a instituição oferece serviços de intervenção, educação, habilitação, reabilitação e capacitação aos usuários e suas famílias. “Adoramos contar a nossa história e mostrar o nosso trabalho. Esse reconhecimento é muito importante para nós, pois nos dá respaldo para batalharmos mais parcerias”, conta a consultora, cheia de orgulho. Hoje, o INAV oferece atendimento específico para cada um de seus 90 beneficiários e cada caso requer um plano de ação personalizado. Além de assessorar o usuário na escola, apoiando professoras e familiares, a instituição fornece material didático adaptado para a total compreensão dos alunos, como livros em braille e sorobã. Sempre contando com a ajuda de suas parceiras, Arlete faz planos: “Diversas pessoas procuram nossa instituição todos os dias em busca de atendimento. Este ano queremos alcançar a meta de 100 beneficiários, que poderão ser verdadeiramente incluídos socialmente e experimentar uma nova perspectiva de vida”.

Todo mundo já sabe: quase tudo que vai para o lixo poderia ter vida nova. Além de proteger o planeta e combater o desperdício, a iniciativa de reciclar também gera oportunidade de renda para quem precisa. A preocupação com o destino do lixo faz parte do cotidiano de Elaine de Freitas Silva, 30 anos, há mais de três anos, quando conheceu o trabalho realizado pela Associação de Trabalhadores com Papel, Papelão e Materiais Recicláveis de Ibirité (ASTRAPI), no estado de Minas Gerais. Quando visitou o galpão da associação e viu as condições precárias de trabalho às quais os colaboradores eram submetidos, a jovem decidiu que iria ajudar de qualquer maneira. Ela mobilizou catadores, traçou um projeto de coleta seletiva, batalhou a compra de uma fragmentadora de papel e articulou a melhora do convênio que a instituição mantém com a prefeitura para o pagamento do aluguel do galpão, despesas de água e energia. Hoje, todos os trabalhadores são recebidos com muito respeito pela comunidade. “A minha luta é diária. Faço isso para melhorar a vida das pessoas que vivem em extrema pobreza”, diz Elaine, que também integra a equipe da Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura de Ibirité. A remuneração dos associados melhorou significativamente depois que ela começou a atuar na Associação. Agora, eles aprendem a caminhar com suas próprias pernas: buscam contatos para novas parcerias, negociam a venda de material triado para empresas de reciclagem, participam de fóruns e congressos, ajudando a promover o nome da ASTRAPI. “Ter chegado nessa etapa já é um grande reconhecimento para o nosso trabalho. Os associados estão trabalhando com mais felicidade e esperança. Dá para sentir isso no ar”, comemora a consultora.

"Nossas fraldas são as mais cheias de amor do mundo”". É assim que Maria de Fátima Andrade Pires, 56 anos, começa descrevendo o trabalho realizado pela Instituição Secos e Não Molhados. A ONG fundada por ela é responsável pela fabricação e doação de fraldas descartáveis para idosos e crianças portadoras de necessidades especiais. Tudo começou há 20 anos, na cidade de Franca (SP), quando a consultora passou a trabalhar como voluntária em asilos. Ao acompanhar o dia a dia dos idosos, ela percebeu o quanto o uso da fralda descartável era indispensável para o bem-estar daquelas pessoas. “Além de ser ineficiente, o modelo de pano machucava muito a pele dos velhinhos. Já a descartável não causava nenhum tipo de agressão, mas era extremamente cara e poucos podiam arcar com esse custo”, relembra Maria de Fátima. Foi então que a consultora mobilizou forças e conseguiu comprar uma máquina manual para a produção do item. A partir daí, ela começou a dedicar-se com afinco à causa, promovendo bingos, desfiles e festas para arrecadar fundos. Sem receber nenhum tipo de verba pública, a organização sobrevive apenas com doações realizadas por terceiros. Hoje, a ONG atende 248 beneficiários, conta com cinco máquinas para a produção e mantém 112 voluntários ativos, que frequentam a instituição semanalmente. Para o futuro, a consultora busca desenvolver um novo tipo de fralda que não seja agressiva ao meio ambiente. “Se hoje a Secos e Não Molhados é reconhecida nesta causa é porque eu e outras pessoas nos dedicamos de coração a ela. Acreditar é importante. Depois que um inicia, outros começam a ajudar e juntos podemos fazer muito a quem precisa!”, finaliza a idealizadora.

Oito anos atrás, Marlene Depolito Santi, 60 anos, participou de um amigo secreto diferente. A brincadeira não previa a entrega de presentes ou qualquer tipo de prenda, mas sim uma troca de experiência entre as envolvidas: mulheres, voluntárias, que se reuniam semanalmente para desenvolver algum tipo de ação social. Marlene, então, sorteou um pequeno pedaço de papel e, ao desdobrá-lo, leu o nome de Milza Garcia, integrante da Rede Feminina de Combate ao Câncer de São Caetano do Sul (SP). Ainda sensibilizada pela perda da mãe, que havia falecido em decorrência da doença no mesmo período, ela aceitou o desafio e envolveu-se de vez no projeto, assumindo o cargo de tesoureira da organização. “Quando aceitei o convite, pensei que só encontraria mulheres tristes e abaladas pela difícil situação. Mas minha surpresa foi enorme ao perceber a energia e a alegria que elas dispunham – e ainda dispõem – tal é a vontade de viver!”, diz Marlene. Diariamente, ela auxilia pessoas diagnosticadas com câncer a receber tratamento médico gratuito e outras necessidades que eles venham a ter – um único remédio chega a custar R$ 14 mil. Hoje, a Rede Feminina oferece apoio a uma média de 100 pacientes e seus cuidadores. Uma das realizações que deixa a tesoureira mais orgulhosa foi a conquista de uma sede própria para a rede. Marlene também reestruturou e informatizou a área onde atua, melhorando o fluxo de doações. Empenhada em realizar sempre mais, ela não se cansa de fazer planos para o futuro. “Nosso maior desafio é conscientizar a população sobre a importância da prevenção. Pretendemos atuar em escolas e unidades básicas de saúde, ressaltando métodos de prevenção do câncer de útero, mama e próstata”, planeja a consultora.

Aqualidade do ensino básico oferecido é fator decisivo para o sucesso de um país. Para jovens de baixa renda, a maior escolarização representa muito mais do que a compreensão de textos ou a resolução de problemas de matemática, trata-se da oportunidade de ascender socialmente e, enfim, mudar de vida! É exatamente essa chance de crescimento que a consultora Valquíria Alves dos Santos, 36 anos, oferece a 230 estudantes da comunidade de Flexal, na cidade de Maceió (AL). Idealizadora e fundadora do Instituto Bondade, ela atende crianças entre 11 meses e 13 anos de idade, em situações de vulnerabilidade e risco pessoal, oferecendo abrigo, alimentação, educação básica e reforço escolar. O que começou como uma fonte de renda alternativa que nunca deu certo - ao final do mês as mães sempre diziam não ter os R$ 5 cobrados para pagar as aulas de reforço que Valquíria dava a seus filhos - tornou-se algo muito maior. “Mesmo sem receber nenhum tipo de pagamento, acabei me convencendo de que aqueles pequenos precisavam muito de mim e do que eu podia oferecer a eles. Algumas daquelas crianças passavam fome e viviam expostas a situações diárias de violência”, relata a idealizadora do projeto. Hoje, o Instituto Bondade cresceu, possui certificação da Secretaria Estadual de Educação para funcionar como uma escola do maternal à 4ª série e conta com o apoio de 16 voluntários fixos - entre eles, as filhas de Valquíria. “Não é fácil fazer um trabalho no anonimato. Atualmente o instituto está mais conhecido e conseguimos um maior apoio para desenvolver nosso trabalho. No momento, o que eu mais quero é conquistar uma nova sede e melhorar nossas instalações”, relata a consultora.

Mais autonomia, mais cidadania e menos violência. Durante sete anos, esse foi o compromisso da ex-ministra carioca Nilcéa Freire, 58 anos, com as mulheres brasileiras. No comando da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), em que permaneceu do início de 2004 até o final de 2010, ela e sua equipe construíram algo até então inédito no país: políticas públicas elaboradas exclusivamente para as mulheres. “A existência da SPM chamou a atenção dos demais espaços governamentais para a necessidade de tratar com igualdade homens e mulheres. Se não houver um órgão coordenador desse diálogo, isso não acontece naturalmente.” Formada em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da qual foi reitora de 2002 a 2003 e onde implantou o sistema de cotas, Nilcéa conta que foi surpreendida pelo convite para assumir a então recém-criada SPM. "Minha experiência era no mundo acadêmico. Mas, como sou teimosa e gosto de desafio, aceitei.” A SPM lançou dois Planos Nacionais de Políticas para as Mulheres; coordenou a implantação da Lei Maria da Penha; capacitou mais de 50 mil profissionais da rede de atendimento à mulher em situação de violência; criou o Disque 180, de atendimento telefônico 24 horas para mulheres vítimas de agressões; lançou um crédito específico para mulheres na agricultura familiar.“Vou continuar teimando e acreditando que o Brasil pode ser um país mais equalitário e com mais justiça social”, afirma Nilcéa, atualmente representante da Fundação Ford no Brasil.
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Da etnia caxuiana, Valéria Paye nasceu numa aldeia isolada no norte do Pará. Cresceu nadando nos rios, pescando, ajudando na roça e na fiação do algodão para fazer redes. Até que, aos 10 anos, recebeu a incumbência do avô cacique de estudar na cidade para ajudar seu povo. “Eu nunca tinha saído da aldeia e fiquei apavorada. Senti uma responsabilidade enorme”, recorda. “Foi muito difícil porque não me deram opção, me obrigaram a fazer aquilo. Na escola, as crianças não queriam se aproximar de uma índia.” Valente e esperta, tornou-se a melhor aluna da classe e cumpriu com louvor a “missão” que lhe foi determinada: tornou-se uma defensora dos direitos de seu povo – por saúde, por educação, pela demarcação de terra e contra a invasão do garimpo. Ampliou a militância para as outras aldeias, depois para o norte do país e hoje é respeitada nacionalmente.
“Me tornei uma ponte entre os índios e o governo”, define. Assumiu diferentes cargos na Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), sempre propondo e cobrando políticas públicas de representantes governamentais. Hoje, aos 37 anos e vivendo em Brasília, Valéria luta sobretudo pelos direitos das mulheres indígenas. Trabalha na Coordenação de Gênero e Assuntos Geracionais da Funai e também oferece capacitação a mulheres indígenas para atuarem nos comitês regionais da fundação. “Muitos homens deixam as aldeias e as mulheres assumem tudo. Elas precisam conhecer seus direitos para poder reivindicá-los.”
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Por unanimidade, no dia 5 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal reconheceu a união estável de pessoas do mesmo sexo. No voto dos ministros, notava-se a força da influência da advogada gaúcha Maria Berenice Dias, 63 anos. Com traquejo de quem já foi juíza e desembargadora, ela apresentou argumentos para convencer os ministros que ainda estavam indecisos sobre um assunto urgente e crivado de preconceito: a invisibilidade dos homossexuais. Berenice usou a experiência e habilidade de quem há muitos anos optou por defender os homossexuais e as mulheres. E sempre se pautou por esta máxima:“A falta de lei não significa ausência de direito”. Inquieta, não se limita a julgar e escrever (tem 14 livros publicados, entre eles União Homossexual, o Preconceito e a Justiça, pioneiro a respeito dessa nova família recentemente admitida no Brasil): promove cursos de capacitarão para advogados e ajudajuízes do país inteiro a entender que os tempos são outros por meio de um site de direito homoafetivo, no ar há dois anos. Berenice Dias se tornou conhecida em batalhas anteriores. Ela está ligada à elaboração da Lei Maria da Penha, ao divórcio direto e ao Estatuto das Famílias, que tramita no Congresso. Desde o final dos anos 1980, é sinônimo de defesa dos direitos humanos. Sua atuação se dá em duas frentes: interpreta as leis enxergando nelas o direito que os homossexuais não têm e, dessa forma, cria jurisprudência; e lidera – até hoje, como se viu no STF – campanhas para mudar legislações arcaicas.
Criativas, realizadoras, talentosas, empenhadas na construção de um Brasil mais justo. Assim são as 15 finalistas do Prêmio CLAUDIA 2011, maior evento do país a celebrar a garra da mulher brasileira, que chega à 16ª edição com novas histórias vibrantes e inspiradoras. Confira as selecionadas:
Obs: VOTAÇÃO ENCERRADA!
