Livro de brasileira é sucesso internacional

A vida invisível de Eurídice Gusmão, primeiro lançamento da jornalista Martha Batalha na literatura, conquistou mais de dez editoras estrangeiras e terá até uma adaptação para o cinema

Publicar um livro não é fácil. Em começo de carreira e em um país em crise econômica, então, nem se fala! Por isso a jornalista brasileira Martha Batalha procurou oportunidades fora do país para divulgar sua primeira obra literária, A vida invisível de Eurídice Gusmão. Passado na primeira metade do século 20, no Rio de Janeiro, o romance conta a história de Eurídice Gusmão – “a mulher que poderia ter sido” – e sua irmã Guida, que assim como outras personagens, não puderam protagonizar suas vidas. O relato é fictício, mas verossímil ao representar a vida de tantas mulheres que foram levadas pelos costumes e valores da época a serem donas de casa, empregadas domésticas ou prostitutas. “Infelizes e invisíveis”, como descreve no livro. 

“Enquanto trabalhava nas receitas ela tinha certeza de que estava fazendo algo de valor, mas na frente do marido tudo perdia sentido. Publicar um livro, falar na rádio, ensinar culinária foram devaneios que teve. Visão quem tinha era Antenor – uma visão definida por tudo aquilo que ele via pelo bonde no trajeto até o trabalho. Mas mesmo essa visão de Antenor era maior do que qualquer outra que pudesse vir de Eurídice, que só via as paredes da casa, as barracas da feira, os grãos do armazém e o imenso vazio que a incomodava”. (A vida invisível de Eurídice Gusmão. Cia das Letras, 2016. pág.32)

O drama levanta questões como machismo, injustiça e violência, mas ganha vida com o toque de humor, as sacadas irônicas e a descrição envolvente da autora. Não à toa, a obra especial ganhou o mercado estrangeiro, sendo comprada por editoras da Alemanha, Holanda, França, Noruega, Portugal, entrou outras. “Além de sua profunda visão sobre a vida, Batalha também se mostra extremamente capaz em sua prosa. Sua linguagem é fresca e cheia de poesia, com um imenso senso de humor”, disse Sabrine Erbrich, da editora alemã Surhkamp, a primeira a adquirir o título.

No Brasil, “A vida invisível de Eurídice Gusmão” já teve até os direitos adquiridos pelo produtor Rodrigo Teixeira para uma adaptação a ser dirigida pelo diretor Karim Aïnouz e foi publicado pela editora Companhia das Letras (R$39,90).  Em entrevista exclusiva à CLAUDIA, Martha Batalha falou sobre o romance de sucesso e a relação da obra com sua vida – ela nasceu em Recife, cresceu no Rio de Janeiro e que hoje reside nos Estados Unidos. 

Reprodução/Cia das Letras

Reprodução/Cia das Letras

Apesar de ser ficção, o livro fala bastante da questão feminina e feminista. Por que a escolha pelo tema?

Por conhecê-lo profundamente. É algo que vivenciei, que minha mãe e avó vivenciaram, que todas as mulheres do Brasil vivenciam. O romance tem uma série de personagens femininas que esbarram no machismo cotidiano. É o marido que reclama com a mulher sobre as natinhas que encontra no leite, o pai de família que pula o muro enquanto a companheira está de resguardo, a moça jovem que não consegue um emprego decente por ser mulher. Procuro usar o humor para descrever cada uma destas situações, para fazer com que o machismo se torne ridículo. A trama se passa nos anos 1940 e 1950, mas tenho certeza de que muitos leitores e leitoras vão se identificar com algumas situações. Tem gente que me procura no Facebook para dizer “Li seu livro e parece que você estava falando da minha família!”. Isso me deixa bem contente. Procurei fazer um livro acessível, que dialogasse com a nossa realidade. 
 
Algumas personagens tentam mudar a vida que lhes é imposta e outras fazem escolhas mais convencionais para a época. Por que escolheu mostrar essa contradição? E mais: como a fez sem colocar um julgamento em cima?

Não foi uma escolha muito consciente. Os personagens foram aparecendo, deixei que seguissem seus caminhos, e a história se formou. O importante, como você disse, é não julgá-los. Eles estão ali, vivendo suas vidas, de acordo com um fluxo que não passa exatamente pela lógica. É mais um trabalho do subconsciente, acredito. Existem escritores que traçam um roteiro, mas eu não consigo trabalhar assim. Minhas escolhas passam pela intuição. Enquanto isso acontece eu me preocupo em fazer um texto que prenda o leitor, o tempo todo. A concorrência é braba, com Facebook, Whatsapp, TV, telefone. O mínimo que tenho que oferecer é um texto gostoso de ler. 
 
Depois de morar em diferentes cidades, no Brasil e nos Estados Unidos, como escolheu o cenário e a época para a trama?

Morei em Nova York, moro na Califórnia, mas não sei se conseguiria escrever um romance que se passasse por aqui. Não consigo “sentir” estes lugares como eu “sinto” o Brasil. Também acho que a distância da terra natal e a imersão em outra cultura me deixou mais próxima do meu país. Eu consigo ver melhor nossas particularidades, entender as nuances da nossa cultura. Existe esta regra básica sobre escrever ficção, que diz que a gente deve escrever sobre aquilo que conhece. Conheço profundamente a realidade da mulher de classe média brasileira, do bairro tradicional da Tijuca, onde passei minha infância. É uma ligação emocional que tenho com esta realidade e este local, e que faz com que fique fácil escrever sobre eles. A princípio pode parecer que não há nada de interessante na vida de uma dona-de-casa de um bairro ordinário do Brasil, mas não é verdade. Foi o que procurei mostrar neste livro. 
 
Como foi a aproximação do Rodrigo para comprar os direitos no cinema? Vai participar ativamente do roteiro?

Foi minha agente, Luciana Villas Boas, que fez o contato. Ele leu e gostou do livro, e há tempos queria realizar um projeto de filme que falasse sobre a realidade feminina, com o diretor Karim Ainouz. Mas nem penso em participar de nada! Vender os direitos para o filme é como se desfazer de um namorado – não adianta ficar em cima para saber o que será feito dele. A gente tem que se libertar e pronto. Fico feliz de saber que minha criação vai ser a base de outra criação, completamente diferente. Por outro lado tenho um pouquinho de ciúmes, porque a imagem de Eurídice criada pelo Rodrigo e pelo Karim vai se tornar a Eurídice de milhões de espectadores, enquanto a minha será só minha, e a dos meus leitores será só deles. O mundo audiovisual tem isso, ele impõe uma imagem. Eu não consigo, por exemplo, pensar em outra imagem para a Gabriela de Jorge Amado que não seja a Sônia Braga. Mas faz parte. Estão trabalhando agora no roteiro, o filme começa a ser rodado no primeiro semestre de 2017. 

 

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