Calligaris: “Nosso passado é sempre um peso que a gente carrega”

Às voltas com a estreia da 3a temporada da série Psi, que criou e dirige, o psicanalista garante que a vida longe dos padrões pode ser mais interessante

Ele nasceu em Milão, na Itália. Estudou na Suíça e na França. Trabalhou nos Estados Unidos. Em uma viagem ao Brasil, na década de 1980, a estada se prolongou (bem) mais que o previsto: apaixonou-se por uma brasileira e decidiu adotar o país. O casamento acabou – assim como os sete (!) que vieram a seguir.

Aos 67 anos, Contardo Calligaris, que fala português com leve sotaque italiano, é doutor em psicologia clínica e psicanalista. Sua história de vida, pouco convencional, aliada a uma personalidade tão interessante, poderia fazer dele o protagonista de um romance. Na verdade, ele acabou escrevendo dois – em meio às suas obras sobre psicanálise, figuram O Conto do Amor e A Mulher de Vermelho e Branco (Companhia das Letras), em que o personagem principal é o (não tão) fictício psicanalista Carlo Antonini, que se assemelha, até fisicamente, ao autor.

Em 2014, seu personagem foi para a televisão na série Psi, produzida pela HBO – e Contardo ganhou novos papéis: ele não só empresta suas experiências (vividas ou ouvidas) para compor o argumento dos episódios como também escreve o roteiro. E ainda assumiu a direção geral de todo o projeto, que está previsto para voltar à tevê em abril. É o ator Emílio de Mello quem interpreta Antonini. Claudia Ohana é Valentina, sua melhor amiga. Entre uma cena e outra, gravadas no Cemitério da Consolação, em São Paulo, o psicanalista conversou com CLAUDIA.

Do que trata a terceira temporada de Psi?

O tema geral é um pouco negligenciado, quase um tabu na psicanálise freudiana: o fato de que a dificuldade de viver faz parte de estar vivo. É incrível que a gente consiga viver sabendo que tudo isto aqui não vai durar muito e que vamos morrer. Carregamos esse dado conosco, avaliamos o tempo inteiro, nos perguntamos: “Será que vale a pena?”. Não à toa Albert Camus dizia que a única questão séria da filosofia era o suicídio. “Vale a pena a vida que estou tendo? Será que vale o esforço que isso me custa?” Essas são questões que estão sempre presentes, e não só para pessoas cuja vida acarreta uma dose de sofrimento muito grande, como é o caso de quem está doente, passando por dores físicas. Como diz uma personagem no primeiro episódio, sobre suicídio assistido, nem sempre o desejo de morrer é patológico. Toda a nova temporada é sobre a dificuldade de viver, de desejar, independentemente das patologias. Também abordo, por exemplo, a dificuldade de conviver com o nosso passado, que não precisa ter sido traumático ou horroroso – é sempre um peso que carregamos.

Que novidades podemos esperar em relação às temporadas anteriores?

Todos os episódios terão duas partes, totalizando 110 minutos. Assim, as histórias serão muito mais aprofundadas do que na primeira e na segunda temporada. A presença do Emílio na tela diminuiu. Agora temos mais espaço para contar a história dos pacientes.

Como surgiu Psi na sua vida? Você agora é um psicanalista que trabalha na tevê, está aqui rodeado por câmeras…

Foi por acaso. Quando publiquei meu primeiro romance, produtores da HBO me convidaram para almoçar. Eles liam minha coluna fazia muito tempo e queriam saber se eu tinha alguma coisa para propor à tevê. Eu disse que não. Um ano depois, outros produtores se ofereceram para transformar meu livro em filme. Fiquei infeliz com o tratamento que o projeto recebeu; então a coisa morreu, não teve longa. Aí me lembrei daquele almoço. Liguei para a HBO, que se interessou em comprar os direitos do personagem com a condição de que eu escrevesse uma série. Eu me associei a um roteirista, o Thiago Dottori. Todas as situações narrativas são decididas a dois.

Você se imaginava como um diretor geral de série?

Não. Eu nunca tinha trabalhado em equipe – como terapeuta, meu ofício é solitário, a responsabilidade é minha; e como romancista também, apesar de ter um editor. Já fazer parte de uma equipe televisiva é completamente diferente: você trabalha com muita gente. Somos uma espécie de família que convive por cinco meses direto, o tempo das filmagens. É algo sedutor, mas que também exige muito; toma toda a rotina durante as filmagens.

contardo-calligaris-claudia

(Gabriel Rinaldi/CLAUDIA)

Já que ninguém é perfeito – nem os psicanalistas, como mostra o protagonista da série –, em última instância por que fazer análise?

Por uma série de razões: cognitivas, para que alguém tenha uma ideia mais clara do momento em que está, e isso é muito frequente; para alguém se consolar… O psicanalista pode ser a única pessoa para quem falamos a verdade. Não dá para comparar com a relação com os amigos, nas quais, de certa forma, você está sempre em uma persona. O terapeuta é alguém ao mesmo tempo íntimo e estrangeiro, desempenha um papel papel único e muito especial. Ele não está lá como um padre, com a função de julgar, perdoar: tem uma certa isenção. Além disso, em uma série de situações limitadas, é possível que a psicanálise sirva para suprimir sintomas desagradáveis. E, em linhas gerais, ela torna mais interessante a vida de quase todo mundo que passa por ela.

Ficar falando dos problemas no consultório é a solução?

Não, claro que não. O processo da psicanálise é, sem dúvida, racional. A questão não é se a razão comporta a complexidade dos nossos afetos, comportamentos e sentimentos. Mesmo que você se dê conta deles, isso não muda nada na maioria dos casos. “Captei as origens dos meus problemas, e continua tudo igual.” Freud tinha a ideia de que a psicanálise pode levar a pessoa até a beira de um rio, mas, se ela vai atravessar ou não, depende dela. Não há garantias. Em geral, quando alguém consulta um psicanalista, a luta não é entre o sintoma e a ausência dele; a luta é para organizar um sintoma de forma a ter um compromisso menos dispendioso e menos catastrófico com ele.

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Mas não se trata de alcançar a normalidade, certo?

Não. Primeiro porque a normalidade não existe. Aliás, a normose, essa vontade de ser normal, é uma das patologias mais chatas que existem. [O psicanalista Jacques] Lacan entrevistou por muito tempo um paciente internado e, por fim, o médico residente declarou, sorrindo, que ele era um jovem normal. Lacan disse: “Isso significa que ele é absolutamente sem esperança”. A normalidade é uma maneira de se conformar à média e, para tanto, é preciso cair em uma espécie de ausência de vida interior, que torna o sujeito desinteressante não só para os outros mas para ele próprio. Alcançar a normalidade não é o objetivo da psicanálise. O objetivo é construir outras anormalidades menos dispendiosas e mais corajosas, nos permitindo coisas que a gente não se permitia antes, mas sem pagar um preço maluco por isso.

Mas tem gente que acaba sendo mais “normal” não para corresponder a expectativas sociais, mas porque a pessoa é assim mesmo, não? Por exemplo, tem mesmo o desejo de casar, de ter filho.

Sim. A psicanálise não tem a função de criar um desconforto onde ele não existe. Se alguém está confortável no tipo de vida que organizou, tudo bem. Não acho que todo mundo precisa fazer análise. Vou perguntando, investigando. Imagine uma mulher que tem uma vida superadaptada como dona de casa e é feliz com os filhos – esses seres que são uma fonte infinita de infelicidade, mas também de satisfação. Ela pode ter um lamento por ter renegado uma vida profissional, mas tudo bem. Não há razão para ficar cutucando esse sentimento. Agora, pode ser o contrário: a maternidade é um fio que, se for puxado, faz o castelo todo desmoronar. A normalidade é um problema quando a pessoa faz força para se encaixar nas expectativas, como se não pudesse ser quem é.

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E podemos ser quem somos?

Eis uma excelente pergunta, mas que não tem resposta. Se pensarmos nos anos 1950, havia a noção de que os sonhos eram todos iguais: ter o mesmo carro, a mesma casa. A partir dos anos 1960, a cultura ocidental criou a ideia de que todos podemos ser nós mesmos. A questão não é mais sermos iguais, mas únicos, cada um descobrindo sua singularidade, ou melhor, inventando-a. Mas o que é isso, sermos nós mesmos? Não há algo fixo, uma essência. É algo que inventamos todos os dias.

Quem não deveria consultar um psicanalista?

Lacan dizia que a psicanálise não deveria ser oferecida aos canalhas porque eles se sentem mais autorizados para agir como tais e pioram. Também há um critério subjetivo do analista: não se pode analisar alguém por quem tem muita antipatia. Aliás, é uma boa definição de canalha esta: alguém de quem não gostamos. Vou analisar um torturador? Não vai rolar, porque minha posição não é isenta. Querer é importante. Tem que querer levar um problema, uma dor. Fazer só para ‘ver como é’ não é uma boa razão. Esses é um dos motivos mais fracos.

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que em 2030 a depressão vai ser a doença mais comum do mundo. A psicanálise pode ajudar?

O diagnóstico da OMS não tem valor porque é empurrado por uma quantidade absurda de médicos. Não se trata de ser contra o uso de antidepressivo – tenho pacientes que tomam e eu os acompanho. Mas o diagnóstico de depressão está sendo feito por qualquer médico (ginecologista, clínico geral…) sem checar nada. Existe um abuso de prescrições, vejo coisas bizarras. Os remédios não são um tiro certeiro, têm efeitos colaterais, alguns cortam a libido drasticamente, e aí as pessoas ficam mais deprimidas com isso… O diagnóstico de depressão deveria ser limitado a quem sofre da doença. “Ah, morreu meu pai; estou triste?” Mesmo que você fique triste por um ano, isso é depressão? Os antidepressivos estão na moda nem tanto pelos resultados, mas porque movimentam um dinheiro enorme na indústria farmacêutica.

Mas está mais difícil viver hoje?

Não acho. A gente passa por todo tipo de emoção: medo de perder alguém, do fracasso… Mas são angústias existenciais, relativas à nossa condição humana. Sobre as drogas, por exemplo: não vejo uma grande diferença entre drogas lícitas e ilícitas; elas sempre existiram. Ou sobre a violência. Na Idade Média, você saía de casa e estava perdido em uma terra de ninguém: sem luz elétrica, sem leis. O mundo está infinitamente melhor. Pelo menos onde nós vivemos. Em geral, para quem não mora em condições precárias, está menos violento, mais diverso, menos preconceituoso e mais agradável do que era o mundo dos nossos antepassados.

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