Como enfrentar a obesidade infantil

Ambiente tóxico

Como a obesidade nasce de uma combinação entre fatores orgânicos (genes, proteínas, enzimas e hormônios que interferem no metabolismo) e hábitos de vida, enfrentar esse desafio requer um esforço conjunto. Para Fisberg, é preciso que médicos e universidades pesquisem soluções; pais, mães e escolas se comprometam a educar para a alimentação saudável; e governos implementem políticas públicas de saúde voltadas para prevenir o excesso de peso desde cedo. Não se pode atribuir a responsabilidade apenas à família. “Esperar que os pais exerçam a verdadeira liberdade de escolha no ambiente tóxico atual é como es perar que alguém surpreendido por um tsunami saia dele nadando”, escreve o pediatra americano David Ludwig, autor do livro Você Precisa Comer Melhor: Como Ajudar Seu Filho na Luta contra a Obesidade (BestSeller). O ambiente tóxico ao qual ele se refere são as praças de alimentação dos shoppings, as gôndolas de supermercados e as cantinas escolares.

O problema é agravado por uma equação perversa: acesso fácil a alimentos densamente energéticos (menores e mais cheios de calorias) e predomínio da inatividade física. “As crianças das escolas públicas são um pouco mais ativas porque caminham para ir à aula”, observa Fisberg. “Já os estudantes de escolas privadas fazem apenas meia hora de natação ou balé duas vezes por semana. O resto do tempo é dedicado a práticas sedentárias, como jogos no computador ou assistir televisão.” O prejuízo decorre não apenas do tempo roubado de esportes e outras atividades que ajudam a controlar o peso. Um estudo da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, verificou que para ca da hora adicional de TV as crianças consumiam 167 calorias extras, influenciadas pelos produtos anunciados durante a programação. Pesquisa do Ministério da Saúde constatou que 72% dos anúncios de alimentos veiculados na TV brasileira são de guloseimas de baixo valor nutricional. Uma das autoras, Elisabetta Recine, do Observatório de Políticas de Segurança e Nutrição da Universidade de Brasília, sugere proibir a veiculação desses anúncios em programas infantis. A indústria tem procurado cooperar desenvolvendo produtos mais saudáveis, com teores reduzidos de sal, açúcar e gorduras, avalia o pediatra e nutrólogo gaúcho Nataniel Viuniski. Mas ainda há muito a fazer.

A escola tem uma função importante. “As crianças poderiam aprender hábitos saudáveis se o tema fosse inserido na proposta pedagógica”, afirma Viuniski. Muitas instituições estão investindo nisso. Em 2001, os endocrinologistas Keyla Camargo e Gustavo Caldas, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, introduziram um programa de educação alimentar em 40 escolas piloto de Pernambuco. O programa, batizado de Escola Saudável, incluiu orientação aos estudantes de 1a a 4a série durante as aulas, treinamento dos cantineiros e campanhas incentivando a atividade física. As cantinas passaram a oferecer frutas e gelatina no lugar dos doces. Em 2004, o projeto foi estendido a todo o Brasil, com o apoio do Ministério da Saúde, mas não teve sequência por motivos políticos. Outras iniciativas pipocaram, num trabalho de formiguinha, segundo a nutricionista Martha Fonseca Paschoa Amodio, diretora técnica da empresa Comer e Aprender, em São Paulo, pioneira na reformulação de cantinas escolares. A maior resistência, segundo ela, não é da criança, mas dos donos das cantinas, temerosos de vender menos. “Se a troca for gradual, como substituir a coxinha por um salgado assado saboroso, os estudantes acabarão preferindo.”

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