Nunca é tarde para se contar uma outra história
A jornalista comenta como a história de Zumbi dos Palmares é ensinada nas escolas
Por Carla Nascimento
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| Carla Nascimento, jornalista, mestre em Comunicação e Semiótica e coordenadora do Centro de Referência, Estudos e Pesquisas da Faculdade Zumbi dos Palmares |
Mas ao contrário do que se poderia imaginar, o parágrafo reservado a Zumbi no livro de história parecia ser o mais longo, tal era a ansiedade para que a professora virasse a página. Afinal, a imagem de Zumbi aparecia bem ao lado daquela da bondosa princesa que dera a liberdade aos negros escravizados no Brasil por quase 300 anos. Era o fim! Quase sempre a única negra na turma de 35 alunos, tinha a sensação de que todos os olhares se voltavam para mim nesse momento.
Naquele início dos anos 80 ninguém falava de Zumbi como herói. Como um grande líder de um quilombo cuja organização era temida pela Coroa Portuguesa no século 17 e que chegou a reunir, segundo alguns historiadores, 20 mil pessoas. Para mim Zumbi foi, por muito tempo, uma lenda. A história que aprendi colocava em dúvida a existência desse personagem. Era quase um conto da carochinha em meio a feitos “comprovados” realizados pelos verdadeiros heróis, sempre brancos. Tempos depois fiquei surpresa ao descobrir que Zumbi de fato existiu, que ele não foi o único líder de Palmares e que o país teve inúmeros quilombos e revoltas lideradas por negros livres ou escravos.
Hoje, quando vejo tantas referências a Zumbi como nosso grande herói e como exemplo de luta do povo negro, é inevitável pensar como a construção da história pode ser perversa ao deixar na escuridão determinados fatos.
Desde 2003 temos uma lei que torna obrigatório o ensino de História da Cultura Africana nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio do país. Apesar de ainda não ser totalmente aplicada, essa lei é uma esperança e um alívio. Esperança por saber que as crianças que frequentam a escola hoje têm pelo menos a chance de perceber que a matéria-prima que da qual são feitos os heróis é a mesma que forma os homens e as mulheres que constroem uma nação no dia a dia, como seus pais, suas mães, seus amigos e como eles mesmos podem vir a ser no futuro. Alívio por vislumbrar a possibilidade de que crianças negras não passarão pelo mesmo massacre que coloca qualquer auto-estima bem cultivada em xeque.
A vida de Zumbi ainda está longe de ser consenso entre os historiadores. Segundo as versões mais freqüentes, Palmares foi uma localidade que surgiu a partir da reunião de negros fugidos da escravidão nos engenhos de açúcar da Zona da Mata nordestina, por volta do ano de 1600. Eles se estabeleceram na Serra da Barriga, onde hoje é o município de União dos Palmares (AL). Em umas das aldeias deste lugar Zumbi nasceu livre. Ainda criança, foi capturado por soldados e entregue a um padre português, que o criou. Após um tempo, Zumbi foge e volta para seu quilombo, tornando-se herói e guerreiro ao defender Palmares dos ataques dos soldados portugueses. Em 20 de novembro de 1695, ele foi morto em uma emboscada na Serra Dois Irmãos, em Pernambuco, após liderar uma resistência que culminou com a destruição do Quilombo dos Palmares. E é neste dia que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra.
Assim como no livro da minha infância, também falei de Zumbi em apenas um parágrafo. Mas essa é outra história! A essência da que contei é sobre a luta por valores como liberdade, dignidade e respeito. É sobre essa essência que pais e professores devem falar às crianças. Sejam elas negras ou não.
Foto arquivo pessoal






