Mulheres inspiradoras mostram como superar, regenerar e seguir em frente

A vida é bela

A deputada Fátima Pelaes nasceu e  viveu num presídio até os 3 anos. Sua biografia diferenciada tornou-a mais forte e sensível às questões sociais

Alessandra Roscoe

"Cresci sem ter pai e sentia raiva. Elaborei o sentimento ao ver como minha mãe superava as dificuldades"

A deputada Fátima Pelaes em Brasília


Começar a infância longe dos quintais e crescer num ambiente cruel, onde homens e mulheres cumprem pena por roubo, homicídio e tráfico, poderia ter atirado Fátima Pelaes num caminho sombrio. A deputada federal do PMDB do Amapá, no entanto, é reconhecida como uma das parlamentares mais sérias do Congresso Nacional. Em 2009, ao completar 50 anos e em seu quarto mandato, ela revelou, num debate na TV Câmara, uma história que ninguém conhecia: seu início de vida num presídio misto no Amapá. A revelação pode ter justificado o projeto de sua autoria, tornado lei em maio, determinando que as unidades prisionais tenham um berçário decente para amamentação e uma creche para que os filhos permaneçam com as presas até os 7 anos. A medida é polêmica – alguns especialistas acreditam que a criança sofreria prejuí­zos com o confinamento. Outros a defendem, como Fátima, inconformada com a negação, ao filho da detenta, do direito de crescer sob os cuidados maternos. A história da deputada: sua mãe, Marcionila Pelaes, matou o marido, com quem tinha cinco filhas, ao flagrá-lo em casa com uma vizinha. Depois do desatino, jogou querosene nas roupas e só não pôs fim à vida porque a filha mais velha, na época com 14 anos, impediu-a de riscar o fósforo. Após ser julgada, condenada e presa, levou a caçula com ela e, atrás das grades, engravidou de Fátima. A paternidade sempre foi uma dúvida. “Minha mãe sofreu violências na prisão. Ela era jovem, bonita e, para sobreviver na cadeia, teve que fazer o que não queria”, afirma. “Cresci sem ter pai e sentia muita raiva disso. Mais tarde, elaborei esse sentimento ao ver como minha mãe superava as dificuldades. Ela morreu em 1995, aos 62 anos, e continua viva em cada conquista minha.” Para Fátima, a mãe agia como o personagem de A Vida É Bela (filme ganhador do Oscar em 1997), em que o pai cria um mundo imaginário para que o filho não perceba que estão em um campo de concentração. “Recordo-me de brincar com minha irmã, mas tenho poucas lembranças da prisão, talvez porque minha mãe camuflasse de beleza o que era na verdade muito feio.”

Durante o dia, Marcionila e as filhas ficavam numa casa dentro do presídio. À noite, voltavam para a cela, onde havia outras presas. Cinco anos depois do julgamento, Marcionila recebeu um indulto de Natal. Fora da penitenciária, Fátima e a irmã eram apontadas como “as filhas da presa”, e a família enfrentou problemas financeiros. “Éramos oito mulheres em casa, minha avó, minha mãe e as seis filhas. Comíamos pão com manteiga de dia e jantávamos mingau de açaí. Minha mãe costurava nossas roupas, e eu adorava porque até a chita mais barata ganhava ares de vestido de missa.” Com muita luta, Marcionila conseguiu empregar-se como servente em escola e depois num hospital. Certa vez, voltou para casa com duas crianças. “Ela as adotou porque a mãe tinha morrido”, diz a deputada.

Fátima vive hoje em Brasília com o marido, o professor Sivaldo Brito, e com o filho, Yuri, 20 anos, estudante de direito, que se orgulham de seu currículo parlamentar. A deputada relatou a CPI sobre o extermínio de crianças e adolescentes (1992), cuja principal providência foi a garantia legal para que policiais que matavam jovens nas periferias passassem a ser julgados pela Justiça como qualquer réu, e não na Justiça Militar. Fátima também presidiu a CPI que investigou a mortalidade materna no país (2000/2001) e criou a lei, de 2002, que estendeu a licença-maternidade para mães adotivas. Atualmente, tem convocado audiências públicas para discutir o aumento da pedofilia no país.

Para a coordenadora da bancada feminina, a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA), a trajetória de Fátima Pelaes serve de estímulo para as 45 mulheres e os 468 homens da Câmara. “O momento em que Fátima revelou sua gênese foi de grande emoção. Ela é uma âncora moral, prova viva de que é possível dar a volta por cima. Sua presença mostra que o Congresso é feito de pessoas comuns.” Quando ouve elogios, a deputada do Amapá remete-os a Marcionila. “Essa história de superação não é minha, é da minha mãe, uma guerreira que en­fren­­tou o preconceito e deu às filhas uma vida digna.”

Fátima fez faculdade de sociologia e, desde jovem, atuou em ações sociais. Indicada pelo patrão de uma das irmãs mais velhas, que era babá na casa de uma família com influências políticas, ela assumiu a Superintendência da Legião Brasileira de Assistência, extinta no governo Fernando Henrique. O fim da LBA estava previsto na Lei Orgânica da Assistência Social, aprovada em 1993 com a ajuda de Fátima. Foi pensando na elaboração dessa lei – que modernizou a assistência social no país – que a deputada se elegeu em 1990. Da Câmara, só se afastou em 2002, quando disputou o governo do Amapá. Não ganhou a eleição e quatro anos depois voltava para mais este mandato. Indagada sobre o motivo de não ter contado antes a sua história, Fátima explicou: “Não é fácil falar sobre o passado, não queria parecer uma vítima. Agora vejo que isso pode ajudar outras pessoas a vencer como eu venci”.

Fátima Pelaes  e a mãe em  seu
aniversário e, ao lado, num
evento familiar

VEJA NESTA REPORTAGEM
A imigrante japonesa que virou surfista aos 72 anos A menina que nasceu na prisão e transformou-se numa deputada

Fotos Fusae, Fabiano Accorsi; Fátima, Cristiano Mariz/Produção Sylvia Radovan

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