Claudia Leitte, as mil faces da deusa do axé
O show nosso de cada dia
Foi o “Pai Nosso” mais animado de que já participei. De mãos dadas com Claudia Leitte, seus músicos e bailarinos, fiz parte da oração minutos antes de a cantora subir no palco. Alguns batiam os pés enquanto rezavam em ritmo de aquecimento pré-show. Em seguida, fui convocada, como os demais participantes, a deixar uma “mensagem” ali mesmo no camarim. Meio sem jeito, disse algo como “tomara que vocês produzam hoje bastante endorfina”. Os integrantes do show agradeceram aos céus e pediram paz no mundo. Claudia Leitte escolheu a seguinte mensagem para arrematar seu ritual: “Espero que vocês não saiam daqui achando que são o máximo. Não se iludam, o sucesso é passageiro. Vão dormir apenas sendo o que são”. Mas na volta do show, que terminou por volta de 1 da manhã, nem foi preciso lembrar do conselho da artista. Depois de duas horas tocando, dançando e pulando, os artistas simplesmente desmaiaram no ônibus. Claudia Leitte continuava acesa, mas, seguindo orientação da assessoria da cantora, não puxei conversa com ela após o show: no dia seguinte Claudia se apresentaria no Rio e precisava descansar e preservar a voz.
Nossa aventura havia começado seis horas antes, com a entrevista em São Paulo, e continuou na van rumo a São José dos Campos, onde ela retomou um show cancelado por causa da meningite do filho. Entre os passageiros estavam o marido e empresário, Marcos Pereira, o estilista Walério Araújo, a fonaudióloga Regina Grangeiro e a ex-cabeleireira Zizi Santana, hoje transformada em uma de suas fiéis produtoras. Viajamos assistindo a PU 239, filme de Scott Z. Burns sobre o funcionário de uma usina nuclear que sofre um acidente radioativo. A cantora prestava atenção a tudo. Fazia exercícios de aquecimento com a fonaudióloga e, ao mesmo tempo, acompanhava o enredo. De vez em quando, repetia as frases para treinar o inglês. Foi durante o trajeto que a cantora também explicou mais detalhadamente a ideia de dar ao novo CD o título “Sette”, mas com dois “t” para combinar com o sobrenome Leitte. “É por causa de Mateus 7, versículos 1 a 7. A essência desse ensinamento é que, antes de julgar os outros, temos de olhar para nós mesmos.” Claudia disse ter uma “relação mágica” com o número, que é o dia de aniversário do pai (7 de agosto) e o mês do dela (10 de julho).
Em São José dos Campos, Claudia cumpriu sorridente o protocolo pré-show, que inclui receber jornalistas e alguns convidados do contratante. Deu nove rápidas minientrevistas exclusivas e atendeu reduzidos grupos de fãs. Três adolescentes tiraram fotos, abraçaram a artista e saíram da sala às lágrimas. A enfermeira Fernanda Fernandes, 26, levou a filha Isabella, de 5, para ser fotografada no colo da artista. “Claudinha é o ar que a minha filha respira”, disse a mãe, enquanto Isabella saia do camarim cantarolando “Bolha de Sabão”. Na primeira fila, a mesma menina assoprava as bolhas que os fãs espalharam pela plateia enquanto tocava a música. Como de hábito, Claudia estava eletrizada e parecendo ter o diabo no corpo. Mas era Deus que ela dizia levar o tempo todo no coração.
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