CLAUDIA entrevista Lúcia Rosenberg: a paz em casa
A psicoterapeuta Lúcia Rosenberg, mãe de três jovens e autora do recém-lançado “Cordão Mágico – histórias de mãe e filhos” (ed. Ofício das Palavras) mostra como as mães podem pacificar a relação com as crianças e os adolescentes sem deixar de reconhecer os conflitos e os sentimentos que estão presentes. Seja irritação ou amor
Déborah de Paula Souza
A seguir, os comentários da especialista sobre alguns dilemas que muitas mães enfrentam em casa. E como lidar com eles.
Birra, manha - De acordo com a terapeuta, mesmo crianças bem pequenas e bebês percebem quando a mãe está triste, calma ou irada. Eles logo percebem também quem é que manda e qual o sentido do “sim” e do “não”. Desde que sejam ensinados. Por isso, a primeira regra é: converse muito com seu filho, não imagine que ele não entende nada e disponha-se a explicar o que precisa ser explicado. Muitas vezes se for necessário. E quase sempre será.
Por outro lado, “mãe tem que economizar o ‘não’. Assim, quando recusar ou proibir algo, isso será para valer”, diz Lúcia. Mas aí tem que explicar o motivo dessa negativa. E não vale dizer “porque não”: precisa explicar, numa linguagem que ele possa compreender, e também negociar. Um exemplo: explique porque ele não pode comer o sorvete antes do almoço. Mas lembre que, depois de almoçar, poderá comer a sobremesa. Para Lúcia, quando a mãe contextualiza o “não”, explica seus motivos, ela transmite os valores que deseja passar; ganha respeito, enfim, educa. “A criança vai entender muito bem a situação – e a mãe também vai se sentir mais segura ao recusar algo”. Resultado: a manha diminui muito e a mãe não corre o risco de, na hora da raiva, competir com o filho para ver quem é que vai ganhar a disputa. “Se a mãe entrar nessa de “Ah, é, vamos ver então quem vai ser mais pentelho”, ela perde a parada. É claro que a criança vai ser mais birrenta que sua mãe. Ela é criança, pode se atirar no chão e gritar. A mãe não pode.
Se a criança grita e se atira no chão – “Em primeiro lugar, procure ter paciência. Espere a criança se debater e fale baixo com ela. Quanto mais a criança grita, mais baixo a mãe deve falar”, sugere Lúcia. Depois, sente por perto e mostre que você está ali, não abandonou o barco. E nessa hora, não é adequado oferecer nada a quem está esperneando. “A mãe não pode entrar nessa ‘loucura’”, diz a terapeuta. Cabe a ela dar significado a esse ódio que transparece no ataque da criança e com o qual o filho pequeno não sabe ainda lidar—e por isso esperneia. Um modo de intervir pode ser: “Estou vendo que você está muito bravo, nervoso. Vou esperar um pouco.” E esperar. De um lado, ela não se deixa manipular – pois a criança grita e esperneia para tentar obter o que quer. Por outro, a mãe não é indiferente, não finge que não está vendo. Está vendo, sim, mas não vai entrar no jogo. Vai esperar o ataque passar, para aí, sim, conversar. Em outros termos.
Brigas entre irmãos – Quem tem mais de um filho sabe que, às vezes, eles brigam muito! Fazer o quê? “Quanto menos você interferir na hora em que está todo mundo de cabeça quente, melhor”, diz Lúcia. Conversar depois pode ser ótimo. Mas na hora H, tente se conter.
“E lembre-se: viver junto é difícil mesmo. Os pequenos e os adolescentes não têm a sabedoria que a convivência requer. E vão precisar conquistá-la.” Mas na opinião da terapeuta, o tipo de briga que se estabelece entre irmãos também depende do clima que se tem em casa. “Quem apanha dos pais, bate mais”, diz Lúcia. Então, primeiro verifique se a briga é mesmo só entre irmãos ou se ela é mais uma das manifestações de violência que existe nessa casa e nessa família – nas quais a possibilidade de conversa e entendimento se perdeu e os membros estão se machucando fisicamente ou com grandes agressões verbais, uma boa terapia familiar é indicada – é preciso buscar ajuda profissional.
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