Como se proteger do ataque dos supervírus e das superbactérias

Uso excessivo

O maior responsável por essa reviravolta dos micro-organismos é o emprego abusivo de antimicrobianos (o termo engloba antibióticos, antivirais, antifúngicos e antiparasitários). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 50% das prescrições feitas por médicos se mostram inapropriadas. Em pesquisa divulgada no ano passado, a equipe da farmacêutica Patrícia de Magalhães Abrantes avaliou a prescrição de antibióticos em ambulatórios da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte. Ali, o porcentual de inadequação ultrapassou 25%.

Aos equívocos na prescrição soma-se a prática da automedicação. Em vários países, dois terços dos antibióticos são usados sem recomendação médica. De acordo com o infectologista Artur Timerman, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, o consumo dessa medicação explode na ocorrência de sintomas como febre e tosse, característicos dos surtos de gripe. Só que antibióticos não têm nenhum efeito sobre infecções por vírus. Uma pesquisa feita no Canadá revelou que 53% dos entrevistados acreditavam no contrário, ou seja, que antibióticos combatem vírus.

No Brasil, embora a lei determine há 35 anos que a venda de antibióticos requer apresentação de receita médica, a exigência não é cumprida. Um levantamento do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo em 2769 estabelecimentos farmacêuticos apurou que 68% forneciam antibióticos e anti-inflamatórios sem receita. O uso inadequado inclui erro na escolha da droga, na dose (que deve ser calculada conforme o peso individual) e no tempo de administração (que em geral se estende a uma semana, no mínimo), informa a infectologista Delzi Vinha Nunes de Góngora, da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP). “É comum a pessoa interromper o tratamento ao começar a melhorar, com três dias de uso, o que favorece a resistência bacteriana”, diz. Esse fato ocorre quando as bactérias modificam um detalhe de sua estrutura para neutralizar a ação do antibiótico. Assim, ele perde a capacidade de impedir sua reprodução. A modificação é transmitida de “mãe para filha” e também a outras bactérias que convivem no mesmo ambiente, trazendo complicações sobretudo a pessoas já debilitadas por outros problemas. “Com isso, se mantêm ou se agravam as doenças infecciosas, aparecem mais reações adversas, usam-se alternativas antimicrobianas mais onerosas e, consequentemente, ocorrem mais hospitalizações”, registra a professora de farmacologia Lenita Wannmacher, da Universidade de Passo Fundo (RS).

A ciência, porém, tenta produzir novas armas. Pesquisadores testam estratégias para derrotar a bactéria Staphylococcus aureus, responsável pela maioria das infecções hospitalares. No University College, da Universidade de Londres, estuda-se um vírus contra a Pseudomonas aeruginosa, bactéria multirresistente que infecta o ouvido. Outros grupos tentam produzir antibióticos com fontes não convencionais, como a pele de sapos e insetos. “Os antibióticos são recursos esgotáveis”, adverte Timerman. “Os de largo espectro devem ser indicados só contra bactérias multirresistentes. Do contrário, podem perder poder.”

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