Como ensinar valorer, como partilhar e ceder, para filhos únicos
Há apenas 30 anos, as mulheres tinham de dois a três filhos. De uma geração para outra, passaram a ter apenas um. E vão descobrindo, na prática e sem manual, o melhor jeito de educar crianças sem irmãos, ensinando conceitos como a importância de se dividir. Conheça os erros e acertos mais comuns
Alice Sampaio | Fotos Chris Parente | Produção Sylvia Radovan | Cabelo e maquiagem Sandro Borges
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| Para Veridiana, ter apenas Bernardo permite curtir a maternidade com mais leveza |
O argumento de dar do bom e do melhor para o filho é uma espécie de mantra dos atuais pais de filho único. Mas esse raciocínio é traiçoeiro, alerta a psicóloga e terapeuta familiar Lidia Aratangy, de São Paulo. “O desejo é ilimitado”, lembra ela. “Pais que têm o projeto de dar tudo, exceto um irmão, estão negando a única coisa que somente eles poderiam oferecer à criança. Um irmão pode ensinar uma lição preciosa: que o ódio mais intenso não mata o amor. No dia seguinte à briga, os irmãos já estão de mãos dadas. Esse aprendizado é fundamental para a vida”, completa Lidia. Como cada vez mais famílias engrossam as estatísticas do filho único, porém, uma geração de crianças terá que aprender lições de civilidade e partilha de outra maneira – e esse aprendizado está a todo vapor, na prática, todos os dias. “Se é para ter um filho só, tem que criar direito”, acredita a bióloga Ana Paula Lepique, 37 anos, mãe de Alice, 14. A garota nasceu quando Ana e o marido, André, engenheiro químico, terminavam a faculdade. Depois veio o mestrado, o doutorado, o pós-doutorado em Nova York... E ninguém sentiu falta de aumentar a família. “Minha política sempre foi estar muito presente na vida de Alice”, explica a mãe. “Vamos a todos os eventos escolares, falto ao trabalho quando ela adoece, largo o que for se minha garota precisa de mim. Eu a considero uma jovem segura e independente, capaz de organizar a própria agenda, que inclui aulas de inglês, jogos de handebol, natação e uma banda de rock.”
Está aí outra tendência dos pais de filho único: organizer para a criança uma vida repleta de eventos na tentativa de afastar uma pressentida solidão. “A criança acaba fazendo tanta coisa que não tem tempo para o que é básico: brincar”, alerta o psiquiatra Edson Engels, de São Paulo, observando que esse comportamento afeta também famílias com mais filhos. “Essa sobrecarga pode ainda gerar pessoas com alto grau de inteligência racional e pobres em inteligência emocional.”A psicóloga Lidia completa: é importante levar em conta as preferências da criança, deixando de lado os próprios sentimentos. Vale também estimular a opção por esportes coletivos, que ensinam a trabalhar em equipe e ajudam a criar laços fraternos.
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