Paz em vez do stress (a decisão é sua)
Na batalha para equilibrar trabalho, casamento e filhos, estamos nos tornando vítimas da nossa mania de perfeição, sempre cansadas e em dívida com alguém. A escritora e psicoterapeuta Lidia Aratangy propõe um desafio que pode iluminar o caminho
Foto Getty Images
Se você é capaz de falar ao telefone com a amiga enquanto escreve a lista de compras do supermercado, acompanha o barulho dos pequenos que brincam no quarto, controla o horário do mais velho (não vá ele perder a hora da perua!) e sente o cheiro do leite queimado derramando no fogão, deve isso à anatomia do seu cérebro. Pesquisas recentes revelam que as mulheres têm mais conexões entre os dois hemisférios cerebrais do que os homens, o que lhes permite prestar atenção em vários eventos ao mesmo tempo.
E se, enquanto conversa ao telefone, você escolhe a roupa com que vai para o trabalho, percebe que está com uma unha lascada (precisa de manicura urgente!) e, num cantinho escondido do cérebro, repassa o relatório que vai apresentar à sua equipe, isso se deve à emancipação feminina. Você é uma mulher do seu tempo, que já conquistou seu lugar no universo do trabalho. Algumas gerações atrás, uma mulher casada só “trabalhava fora” quando o marido não tinha condições de sustentar a família. Era uma ajuda temporária ao orçamento doméstico, até que o chefe da família conseguisse “se estabelecer”. A ideia de que o trabalho feminino servisse para algo mais do que garantir o pão e, se possível, o circo não fazia parte do imaginário das famílias: as mulheres almejavam o trono de “rainhas do lar” e os homens sentiam-se realizados quando asseguravam à família um cotidiano confortável e um futuro tranquilo. Nada indica que essas mulheres fossem mais felizes do que as de hoje, mas provavelmente eram menos estressadas e menos culpadas. A responsabilidade pelas decisões é proporcional ao poder de escolha, e um número menor de opções diminui a angústia de escolher errado.
Quando os métodos anticoncepcionais não eram tão seguros, o casal não podia decidir a hora em que teria filhos nem quantos seriam: a procriação era um evento puramente biológico, controlado por forças alheias. Com o advento de métodos anticoncepcionais eficientes, a maternidade deixou de ser uma contingência natural para entrar no universo do desejo. Desde então, as mulheres que escolhem ser mães devem arcar com as consequências de sua opção e têm menos espaço para lamentações. A pílula trouxe, além da liberdade, a responsabilidade pela escolha, e a pressão por sentir prazer na maternidade se junta à culpa e ao sentimento de insuficiência – desde sempre ardilosos companheiros das mães – para ampliar a angústia e o desamparo das inexperientes.
O casamento foi inventado para consolidar alianças, garantir o direito de herança, proteger as mulheres. A escolha dos parceiros cabia aos pais ou a alguma autoridade reconhecida pelas famílias. Logo o pessoal se deu conta de que o vínculo permanente de um casal, com moradia conjunta e fixa, era um nicho adequado para a criação dos filhotes – e este passou a ser o escopo secundário do casamento. Só muito mais tarde entrou em cena o ideal romântico que associou o casamento à ideia de um vínculo amoroso duradouro, cujo objetivo era tornar os parceiros felizes. Com essa nova concepção, a escolha passou a ser feita pelos parceiros – e sobre eles recai a responsabilidade por escolhas malfeitas. A felicidade conjugal e a harmonia da família tornaram-se atestados de que o parceiro foi bem escolhido e de que o casal é suficientemente sábio e amadurecido para conservar o vínculo. Surge daí uma fonte de stress: marido e mulher procuram demonstrar ao mundo o sucesso da relação por meio de provas materiais e simbólicas, como a casa bonita e sempre em ordem, os filhos bem-vestidos e com boas notas. Esse território já pertencia à mulher quando éramos vestais em tempo integral e cuidávamos para manter o calor do fogo e dos afetos na família – e até hoje continuamos a nos responsabilizar por ele, a despeito de conquistas mais amplas.
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