Nem toda doença tem causa psicológica
Exames medem dor?
Pessoas com dores crônicas estão particularmente sujeitas a tais distorções. “A dor é um dado subjetivo. Não existe máquina para averiguar sua veracidade”, explica Claudio Corrêa, coordenador do Centro de Dor e Neurologia Funcional do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. Por exemplo, na fibromialgia, hipersensibilidade que acarreta dor no corpo, o diagnóstico é feito por exclusão. Os exames de imagem e de laboratório dão resultado normal e a pessoa parece bem fisicamente, embora viva se queixando. “A falta de dados objetivos e a aparência de normalidade levam parentes e até médicos a desacreditarem a dor”, afirma Corrêa.
Nesse caso, o sintoma pode ser qualificado de “psicológico”, como se fosse provocado (deliberada ou inconscientemente) e houvesse controle sobre ele. Enquanto isso, o paciente peregrina por consultórios sem obter alívio. “Recebo pessoas que ficam alegres só por eu acreditar que elas têm algo errado”, conta Corrêa. A validação traz alento para quem já começa a achar que está ficando maluco. “Ter causa indefinida não significa que a dor seja psicológica”, diz o médico, lembrando que a dor mais prevalente no mundo, a de cabeça, tem causa desconhecida em mais de 95% dos casos. “A medicina convive com a dúvida. Nem tudo tem explicação”, diz o psiquiatra gaúcho Pedro Prado Lima, presidente do 5º Congresso Brasileiro de Cérebro, Comportamento e Emoções, realizado em junho passado, em Gramado (RS). Para o médico, o mais honesto seria admitir isso em vez de apelar para a suposta origem emocional. Afinal, nem tudo é psicológico. Isso vale até para as doenças psiquiátricas. De acordo com Pedro Lima, um estudo canadense comparou ratos que foram mais lambidos pela mãe com outros privados desse contato. Na fase adulta, os dois grupos foram submetidos a stress intenso. Os animais menos lambidos desenvolveram depressão. A falta do cuidado os predispôs à doença, o que era de se esperar. Existem casos, porém, em que as pessoas desenvolvem o transtorno (além de esquizofrenia e síndrome do pânico) sem apresentar passagem trágica na sua história. Têm bom emprego, dinheiro, casamento equilibrado e mesmo assim perdem o interesse pela vida. Suspeita-se, então, de uma justificativa orgânica, um desarranjo na química cerebral. O tratamento adequado depende de um bom diagnóstico diferencial, salienta o psiquiatra. Mas aí surge outro entrave: a forma como a medicina é praticada hoje. “Não dá para fazer grandes descobertas em 15 minutos de consulta.”
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