CLAUDIA entrevista Inés Alberdi, diretora executiva da Unifem

CLAUDIA Um dos processos mais lentos é a conquista, na política, de cargos eletivos...
INÉS ALBERDI
Ocupamos apenas 18,4% dos parlamentos. Se continuarmos no ritmo atual, vamos demorar 20 anos, nos países desenvolvidos, e 40 anos, nas nações em desenvolvimento, para chegar a 40% das Câmaras e Senados. A saída é fazer leis de cotas que garantam mais mulheres disputando as eleições, com sanção para os partidos que as descumprem.

CLAUDIA A senhora se reuniu com a bancada feminina da Câmara Federal em Brasília. Do que as deputadas, que representam menos de 9%, se queixam?
INÉS ALBERDI
Elas revelaram que os partidos não respeitam as cotas e não lançam 30% de candidatas. Falaram da falta do financiamento para as campanhas e que não podem ocupar, como gostariam, os horários de rádio e TV para divulgar propostas de trabalho. Acham injusto, ainda, não ocuparem cargo na direção da Câmara. Mas vi na reunião algo raro, que não existe em nenhuma parte do mundo: independentemente das diferenças ideológicas e das siglas partidárias, elas caminham juntas para acabar com a pequena representatividade no parlamento.

CLAUDIA A recessão global é um atestado de que precisamos descobrir novas maneiras de gerenciar o mundo. A crise está levando a uma revisão de valores. A senhora acredita que ela traga oportunidades para a mulher ou significa mais dificuldades, mais portas fechadas?
INÉS ALBERDI
Não sei o que vai acontecer no curto prazo. Há formas de gestão da economia que têm se mostrado pouco adequadas. A inexistência de regulação e de normas não favorece a economia. O excesso de risco nos negócios, também não. O liberalismo entende que não haja regulação e está demonstrado que não funciona. De certa maneira, um sistema bem organizado impõe melhor uso de recursos humanos – e aí há uma oportunidade para as mulheres, que significam grande quantidade de talentos que não podem mais ser desperdiçados. Há estudiosos de economia dizendo que certas coisas não teriam ocorrido se os dirigentes do mundo tivessem incluí do as mulheres nas decisões. A justificativa é simples: elas têm menos tendência ao risco, são partidárias de avançar pouco a pouco, de segurar as ganâncias. Não há defesa melhor do que essa para convencer os empresários a convocar mulheres. Elas podem ajudar a encontrar saída diante dos impasses provocados pela recessão.

CLAUDIA O Unifem faz uma cobrança aos governos. Qual é a mudança prática que podemos esperar?
INÉS ALBERDI
O objetivo do relatório é mobilizar a opinião pública. Ler informações sobre as soluções criadas nos outros países pode servir de incentivo para a tomada de medidas locais. Tenho certeza de que muitas nações vão olhar a Lei Maria da Penha e pensar: “Nós também podemos fazer igual”. O Brasil, por sua vez, vai olhar os vizinhos e notar que o número de parlamentares é mais elevado (numa referência à Argentina, presidida por uma mulher, onde há 40% de deputadas e 39% de senadoras). E vai perceber que precisa mexer nessa situação. Porque os avanços têm que ser garantidos por lei. Se o parlamento brasileiro tem cerca de 10% de mulheres, dificilmente as mudanças vão ocorrer. Conhecendo o relatório, pode-se ainda responsabilizar os governos e as esferas privadas por medidas que não estão sendo tomadas e até pedir sanções para os que barram a promoção dos seus direitos.

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