CLAUDIA entrevista Inés Alberdi, diretora executiva da Unifem
CLAUDIA O relatório conclui que a violência contra a mulher – mais especificamente o estupro – está relacionada com o aumento da transmissão do vírus da aids. O dado surpreendeu?
INÉS ALBERDI Não. Em alguns países, 30% das mulheres contam que a primeira experiência sexual foi forçada e muitos desses casos estão nas estatísticas da aids. Há avanços no combate à violência doméstica. Noventa países criaram leis específicas – a Lei Maria da Penha, do Brasil, é uma das mais modernas e completas. O grande problema é a falta de dados porque as denúncias ainda são mínimas. Nossa luta é para aumentá-las e também para identificar e punir os agressores. Só mesmo conhecendo o tamanho da violência, podemos planejar ações efetivas – que envolvem ainda a mudança de mentalidade. Fui a uma reunião no Rio de Janeiro com homens e meninos que discutiram paternidade, equidade de gênero na saúde sexual e reprodutiva. A iniciativa é inovadora, ajuda a entender que masculinidade não é superioridade nem desprezo pelas mulheres. É amor por elas.
CLAUDIA Na Guatemala, houve protestos contra uma marca de sapatos que espalhou outdoors com fotos de mulheres mortas e a frase: “A nova coleção é de matar!” Por que o Unifem publicou o caso no relatório?
INÉS ALBERDI Pela crueza e falta de sensibilidade dos que foram capazes de ligar, de maneira frívola, sapatos a mulheres mortas no país latino-americano que tem o maior número de assassinato de mulheres por ano. O problema lá é gravíssimo. Os movimentos feministas que se sentiram ofendidos mobilizaram a opinião pública e produziram grande im pacto sobre os responsáveis políticos, que determinaram a retirada do anúncio. Foi um passo adiante no sentido de levar autoridades a tomar uma atitude e a prestar contas às mulheres. A cobrança deve ocorrer em todas as áreas onde encontramos problemas ou irregularidades: na Justiça, na prestação de serviços, na polícia, no centro de saúde, na administração municipal, na escola dos filhos. As pessoas não podem perder a capacidade de se indignar e de se defender.
CLAUDIA Ainda morrem 83 crianças em cada mil nascidas vivas. A meta é reduzir a mortalidade infantil a 31 para mil. É possível chegar a esse patamar em 2015?
INÉS ALBERDI A mortalidade infantil por doença e má nutrição decresceu mundialmente de 106 em cada mil nascidos vivos, dos anos 1990, para os números atuais. Não tem sido rápido o suficiente para chegar à meta em 2015. O nível de instrução das mães afeta a sobrevivência da criança. Quanto mais escolarizadas, maior o número de bebês vacinados, por exemplo. Já a morte materna decresceu muito menos. Só a prevenção da gravidez indesejada diminuiria um quarto das mortes. Sem falar na liberalização da interrupção da gravidez. É necessário vontade política e dinheiro para frear o problema.
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