CLAUDIA entrevista Inés Alberdi, diretora executiva da Unifem

CLAUDIA Quais são os desafios para acabar com a desigualdade?
INÉS ALBERDI
Os principais são três. Primeiro: as mulheres precisam de empregos decentes. A desigualdade inibe a capacidade, sobretudo das pobres, de utilizar o trabalho – seu maior recurso – para sair da pobreza. A luta contra a violência é o segundo desafio, e é pesado, porque está nos quatro cantos do mundo. O terceiro é a atuação da mulher em todos os locais onde se tomam decisões e de onde vem a autoridade sobre a sociedade. Elas têm de assumir parte da direção da economia e da política por uma questão de justiça, pois são a metade da população mundial, e para que possam ser ouvidas. É a única forma de terem atendidas as suas necessidades e as demandas das suas famílias.

CLAUDIA O relatório revela uma fuga de cérebros femininos dos países menos desenvolvidos. Diz que, entre os migrantes, o número de mulheres com curso superior é bem mais elevado que o de homens. Qual é a consequência do êxodo de talentos?
INÉS ALBERDI
Quando a mulher é obrigada a abandonar tudo para buscar salários melhores, o futuro se compromete: que tipo de liderança feminina a nação mais pobre terá se as mulheres mais preparadas vão embora? Fomentar a igualdade de trabalho nas empresas é imprescindível. Não é saudável que países com poucos recursos coloquem dinheiro na educação de mulheres e as percam por falta de empregos para lhes oferecer.


CLAUDIA Nos grandes negócios, há apenas uma mulher para cada nove diretores. A média mundial sobre a disparidade de salários é 17% – há países onde ela chega a 40%. Os governos lavam as mãos dizendo que quem regula salário é o mercado e que, quanto maior a empresa, mais livre de controle. O que, de fato, eles podem fazer para acabar com essa distância?
INÉS ALBERDI
Não se trata de controle sobre empresas, mas de garantir crescimento econômico para todos. Nesse aspecto, temos um argumento: contar com as mulheres é fazer boa gestão. Os governos podem interferir, sim. Na Noruega, uma lei determina que as grandes empresas reservem 40% dos conselhos de administração para as mulheres – e o resultado tem se traduzido em lucros. Já na Espanha, foi proposta lei semelhante, com prazo de cinco anos para que as mulheres chegassem à paridade. Houve protesto de empresários de peso e, infelizmente, a lei não foi aprovada. O texto final apenas sugere que haja 40% de mulheres na direção das grandes empresas. Uma pena.

Dinheiro pela igualdade

As soluções para a equiparação de gênero apresentadas pelo relatório do Unifem dependem de dinheiro. O Comitê de Ajuda ao Desenvolvimento,da Organização para a Cooperação e De senvolvimento Econômico (OCDE), atrela certas doações para os países pobres ao cumprimento de ações que promovam a mulher. Nesse comitê, 22 nações já doaram 60 bilhões de dólares, valor que chegará a 72 bilhões em 2010. A maior parte do dinheiro é repassada pelo Banco Mundial. Nos países beneficiários, ganham força os chamados orçamentos sensíveis ao gênero, que preveem verbas para ampliar a autonomia feminina.

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