Aprenda a viver melhor com menos
"Passamos a nos perguntar se tudo o que tínhamos era mesmo necessário"
Embora gere satisfação imediata, um estilo de vida baseado no poder de compra acaba por se revelar vazio. Foi o que descobriu a publicitária paulistana Suzana Pamponet, 39 anos. Acostumada a um padrão elevado e a uma rotina bastante estressante, ela viveu, ao lado do marido, Reinaldo, uma verdadeira revolução de valores. “Há seis anos, tínhamos dinheiro, sucesso profissional e todas as facilidades que se podem comprar. Gostávamos de viajar, de ir a bons restaurantes, mas não tínhamos tempo para cuidar de nós mesmos nem da família. Uma crise de coluna fez meu marido repensar a carreira. Ele deixou o alto cargo que ocupava em uma empresa e criou a ONG Eletrocooperativa, que forma garotos carentes”, conta. Aos poucos, Suzana foi sendo contagiada pela transformação do marido. “Passamos a nos perguntar se tudo o que tínhamos era mesmo necessário. Percebi que eu não precisava de mais um sapato só porque a loja havia lançado um modelo novo.”
Quando estava grávida da segunda filha, Suzana resolveu sair da agência de propaganda em que trabalhava para se juntar ao marido na ONG. “Nossa renda diminuiu, mas os ajustes no orçamento não prejudicam nosso conforto, apenas cortamos o excesso. Vendemos o apartamento no Morumbi (bairro de luxo) e fomos morar perto do escritório, na Vila Madalena (bairro boêmio). Tínhamos dois carros, ficamos somente com um. Hoje, vamos trabalhar a pé e usamos o mesmo veículo para ir ao clube e à academia. Apesar de mais modesta, nossa rotina ganhou em qualidade, pois temos tempo para conviver”, afirma.
Os hábitos de consumo também mudaram. “Antes, não tinha um minuto para ir ao supermercado, comprava pela internet. Hoje, vou pessoalmente para comparar os preços. Levo meus filhos, Tomás, de 5 anos, e Joana, de 2, à feira e é bem divertido. Quero ensinar a eles que o conceito de riqueza vai além do dinheiro, inclui as relações, os amigos e o meio ambiente.”
A busca por um modo de viver mais focado na essência do que na aparência não começou agora. Em plenos anos 1980 – quando o estilo yuppie consumista imperava no mundo –, o ativista americano Duane Elgin lançou o livro SIMPLICIDADE VOLUNTÁRIA (ED. CULTRIX). Ele já previa a necessidade de mudar. Cada um de nós sabe em que aspectos nossa vida é desnecessariamente complexa. Simplificar é aliviar nossa carga. É estabelecer um relacionamento mais direto, despretensioso e desimpedido em todos os aspectos”, afirma o autor. Diferentemente do que muita gente pode pensar, descomplicar não significa fazer voto de pobreza. “Ninguém é pobre porque quer, mas só é simples quem decide ser. Quando fazemos essa opção de forma consciente e livre, reduzimos a demanda por elementos externos, que só proporcionam uma dose limitada de satisfação”, explica o terapeuta Jorge Mello, um dos principais divulgadores da simplicidade voluntária no Brasil.
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