Como se manter sã em tempos de crise

Reconheça os problemas e assuma suas responsabilidades

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Coaching, Villela da Matta, superar problemas depende da capacidade de reconhecê-los e de assumir responsabilidades. “As pessoas que fingem que não está acontecendo nada são engolidas pela crise. Outras tentam culpar os pais, o chefe, o marido e perdem o controle da própria vida. Há ainda as que buscam justificativas, como ser velha demais, para não agir. O melhor é sair em busca das soluções possíveis.”

Foi o que fez a empresária Paola Tucunduva, 40 anos, de São Paulo. Dona de uma lavanderia industrial, em 2001 ela perdeu um cliente que representava 30% de seu faturamento, sendo obrigada a demitir 20 dos 60 funcionários. “Sofri muito porque tinha uma ligação afetiva com eles”, conta Paola, que, além do baque emocional, precisou administrar uma dívida alta. Com três filhos pequenos, a saída foi correr atrás de novos clientes. Acabou abrindo uma filial em Camaçari, na Bahia, onde havia grande demanda por seus serviços. Nessa época, a empresária procurou o Sebrae em busca de aprimoramento profissional. Fiz o Empretec, um seminário que visa formar empreendedores de sucesso – esse passo foi fundamental para reerguer a empresa”, diz. Tudo ia bem até que em 2004 um incêndio destruiu a unidade da lavanderia em São Paulo. “Perdemos tudo e ficamos com um rombo de 500 mil reais”, lembra. Com o dinheiro do seguro, Paola comprou outra sede e conseguiu, aos poucos, reconstruir o prédio. Hoje, ela administra três unidades da empresa, 250 funcionários diretos e tem um faturamento dez vezes maior.

A autodesvalorização é um efeito colateral comum das demissões. A chave para não se abalar demais com a perda de um emprego consiste emvalorizar mais os próprios talentos do que a posição na empresa. “As pessoas precisam entender que não é o cargo que garante suas habilidades. Pelo contrário, elas puderam ocupar tais cargos graças às suas competências, que continuam existindo depois da demissão. Reconhecer os próprios talentos facilitará a busca por novas colocações”, diz Márcia.

Nessa situação, o conselho é analisar seus potenciais e também seus limites, tentando aprimorarse. Um exemplo inspirador é o da biomédica Claudia Watanabe, que ocupava um cargo de confiança em um grande laboratório em São Paulo. Os 16 anos na empresa renderam-lhe um alto salário, mas, num período de cortes, ela foi demitida. “Estava com 38 anos e fiquei muito insegura. Comecei a duvidar de mim, a imaginar que não conseguiria me recolocar no mercado por causa da idade.”

Sem saber como agir, Claudia decidiu procurar o serviço de coaching. “Descobri que, apesar da experiência, não tinha qualificações para o cargo que pretendia e decidi investir em um MBA. O aconselhamento também me ajudou a enxergar o medo de não ser aceita e a dificuldade de me abrir para experiências diferentes. Até então, minha visão do mercado era muito estreita”, avalia. A estratégia foi tão positiva que Claudia encontrou na própria consultoria uma oportunidade. “Fiz um treinamento específico e há mais de um ano atuo como coacher. Hoje, sei que crises acontecem, mas elas não me assustam mais.”

Sentimento igual nutre a produtora de moda Malena Russo, 39 anos, que também se sabe hoje muito mais forte depois de ter sobrevivido a um vendaval: crise financeira seguida de divórcio. Tudo começou há quatro anos, quando ela resolveu abrir uma loja de roupas em São Paulo. O sucesso veio rápido. Em pouco tempo, ela mudou para uma sede maior e contratou mais funcionários. Mas a nova localização não favorecia o movimento. Em um ano, ela se viu totalmente endividada. A crise detonou uma depressão e, na sequência, o fim do casamento, de 13 anos. Com o auxílio de um amigo empresário, Malena compreendeu que era necessário adiar o sonho de ter o próprio negócio até saldar as dívidas. Arranjou um emprego fixo como produtora em uma emissora de TV e começou a vender as sobras do acervo da loja na casa das clientes. Aos poucos, reconquistou o pique: “Estou prestes a quitar todos os débitos e já encontrei um novo projeto para investir, desta vez com mais planejamento. Também reatei com meu marido – a briga foi consequência do momento ruim, mas o amor nunca acabou”.

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