Trabalho proibido para menores

O Brasil regulamentou a proibição das 94 piores formas de trabalho infantil em setembro. Crianças e adolescentes não podem mais vender produtos na rua, trabalhar na lavoura, no processamento de plástico, no serviço doméstico... Você concorda com a lei? Leia, opine e veja se alguma coisa mudou de lá para cá

Patrícia Zaidan e Fatima Souza | Fotos Fatima Souza

Samanta e Estefani: venda de bilhetes em bares até meia-noite
São quase 10 horas da noite quando duas meninas entram em um bar no bairro paulistano do Morumbi oferecendo bilhetes da Loteria Federal. Cada uma carrega um boneco de plástico comprado por 2 reais: “O nome deles é Rafael e Rafaela”, diz Samanta, 8 anos, ao lado da irmã, Estefani, 10, que se sente uma veterana nas vendas ambulantes, sua atividade desde os 5 anos. O pai morreu, e a mãe, contam, precisa do dinheiro para alimentar sete filhos. A dupla circula pela cidade do início da tarde até a noite. Já foram assaltadas, o ladrão levou 30 reais que haviam faturado no dia. Estudam de manhã: Samanta terminou o 1o ano, depois de uma reprovação. Estefani repetiu duas vezes e terminou o 2o ano. A mais velha diz que seria bom “estar em casa descansando”, mas acredita que, “aprendendo desde criança”, possa ter “uma vida melhor”. Ela quer ser professora, e a irmã bailarina. Quandoperguntamos se não é muito tarde para estarem nas ruas sozinhas, Samanta responde: “Minha mãe manda a gente chegar até a meia-noite”. Para cumprir o horário, terão que se apressar e tomar dois ônibus.

No dia seguinte, no bairro do Butantã, Marcos entrega panfletos de uma empresa no meio do trânsito. Tem 14 anos, mas é tão pequeno que aparenta 11. Desistiu de estudar porque se ocupando o dia inteiro fatura o dobro. Quando o farol abre, ele pula na calçada para não ser atropelado. “Se eu gostaria de parar de trabalhar? É claro. Queria fazer um curso de computador”, diz. Noutra ponta da capital, o bairro do Ipiranga, a protagonista é Suzana, 5 anos. Ela circula entre os carros o dia todo oferecendo os pacotes de bala que a mãe, que vai logo na frente, pendura nos retrovisores. Com o rosto triste e sujo, ela cumpre a instrução da mãe: “Peço um trocadinho se o motorista não compra”. Como Suzana, Marcos, Samanta e Estefani, há milhares de brasileirinhos entre 5 e 17 anos trabalhan do em condições inaceitáveis, mesmo contra a lei.

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