Casamento em troca de cidadania

O maior desafio é comprovar a veracidade do relacionamento perante as autoridades. Em meados de 2007, Portugal, por exemplo, passou a considerar crime o casamento de fachada. A punição inclui a negativa ou o cancelamento da residência (se já tiver sido concedida) e a prisão da mulher e do falso marido por até quatro anos em regime fechado. A lei foi elaborada em resposta a uma realidade que incomoda: o número de uniões entre portugueses e estrangeiros saltou de 2 093 para 4 332 apenas entre 2001 e 2005. Além de arriscado, o processo sai caro no mundo inteiro. Nos Estados Unidos, nação que lidera guerra contra a imigração indesejada, um marido que dá direito ao green card (permissão de residência condicional por dois anos, que pode ser renovada por mais dez) está custando 10 mil dólares. Desde janeiro, para entrar no país, até os cidadãos dispensados de visto prévio (como os europeus) têm de requerer online, antes de fazer a viagem, um código de autorização do Departamento de Segurança Interna. É sinal de que os meios de fiscalização vêm se sofisticando. A situação de quem já está dentro também fica mais tensa. As batidas policiais em locais frequentados por imigrantes tornaram-se rotineiras. "Os policiais param as pessoas nas ruas e averiguam seus documentos sem motivo, sem que tenham cometido uma infração", diz a advogada Iara Nogueira Morton, brasileira que trabalha há dez anos nos Estados Unidos. "Nunca vi tanta gente amedrontada e insegura. Há poucos anos, isso não era assim." No Reino Unido, há um clima parecido, com a ameaça do governo de voltar a exigir dos brasileiros o visto de entrada. Segundo estatísticas oficiais, nossos conterrâneos formam um grupo de 150 mil ilegais. Além disso, só quem possui o passaporte em dia consegue atendimento nos centros de saúde de Londres. Também o Japão, que abriga mais de 300 mil brasileiros - o terceiro maior contingente de estrangeiros no país -, tem se preparado para selecionar meticulosamente os candidatos a imigrantes. A meta é reduzir pela metade o número de residentes ilegais. Diante desse contexto, o bispo brasileiro dom Luiz Demétrio Valentini escreveu em um artigo: "Os que querem rejeitar os migrantes, achando que assim resolvem seu problema, também acabam sendo vítimas da visão estreita em que se enclausuraram, pensando ser possível criar ao redor de si mesmos ilhas de prosperidade enquanto o resto do mundo pode continuar na penúria e na miséria. Aí está o grande engano".

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