Casamento em troca de cidadania
Para se proteger da intolerância contra os imigrantes e voltar a ser uma cidadã, com todos os direitos, brasileiras que vivem no exterior recorrem ao casamento de fachada. Com um marido de mentira, elas saem da clandestinidade... mas continuam correndo riscos
Patricia Jota

Carla, 31 anos, é diretora de recursos humanos na cidade californiana de Costa Mesa. Helena, 42, tem um restaurante em Londres. Rosa, 35, é dançarina em Tóquio. As três brasileiras arranjaram um casamento de fachada na tentativa de driblar a clandestinidade. Um marido nacional poderia lhes devolver a condição de cidadãs e o direito de trabalhar, dirigir o próprio carro, abrir um negócio, comprar um imóvel, entrar no país que escolheram para viver - ou sair dele - sem sobressaltos. Tudo na legalidade. Rosa ainda precisa se esconder da fiscalização porque o "marido" sumiu. As outras duas mulheres estão em paz com a polícia de imigração, mas não podem sequer revelar o nome verdadeiro nesta reportagem para não sofrer retaliações ou ter o passaporte cancelado, como você verá no depoimento delas.
Uma explicação rápida para o acirramento da perseguição aos estrangeiros: o mundo mudou depois do atentado às Torres Gêmeas, em 2001, fechou fronteiras por causa dos ataques terroristas que abalaram também países europeus e o mundo árabe e encontra-se em estado de alerta desde a crise financeira que eclodiu em 2008 nos Estados Unidos e se alastrou por toda parte. Rosita Milesi, diretora do Instituto Migrações e Direitos Humanos, com sede em Brasília, faz uma reflexão pertinente: "As migrações, que no passado eram vistas como um potencial para trazer novidades enriquecedoras, agora são consideradas uma fonte de terrorismo e ameaça ao emprego de quem já vive naquela região e à segurança dos Estados". Para ela, o estrangeiro se tornou bode expiatório para justificar as crises econômicas e sociais de vários países. "Transformá-lo em criminoso virou uma forma relativamente fácil de esconder as verdadeiras razões dos conflitos sociais."
O processo de criminalização a que Rosita se refere acaba "desumanizando" todos os migrantes, indiscriminadamente, está por toda parte e representa uma erosão dos direitos humanos. Na União Europeia, materializou-se sob o nome de Pacto Europeu, também conhecido como Pacto Sarkozy porque teve no presidente francês seu maior defensor. Aprovado em 16 de outubro pelo Parlamento Europeu, com o apoio dos chefes de Estado dos 27 países membros da União Eu ropeia, o documento endurece o controle nas fronteiras e facilita a expulsão dos irregulares. Estabelece, entre outras coisas, a Diretiva de Retorno, que prevê que, a partir de 2010, o estrangeiro em situação irregular terá até 30 dias para voltar ao país de origem; caso contrário, poderá ficar detido por até 18 meses antes da expulsão. As novas medidas devem acelerar ainda mais a caça ao casamento por conveniência em Portugal, na Espanha e Inglaterra, nações europeias mais procuradas pelas brasileiras. Mas mesmo essa não é uma solução fácil. A mulher tem que ficar atrelada a um homem por anos. Ainda que não viva sob o mesmo teto, é obrigada a manter a aparência de que está bem casada. No período em que esperam pela legalização, essas brasileiras sentem-se angustiadas com a possibilidade de ser desmascaradas.
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