Que fim levou Ingrid Betancourt?
Três anos de seqüestro na selva das Farc mudam o destino da mulher que queria ser presidente*
Ruth de Aquino, de Paris | Foto: AFP
* Reportagem publicada em junho de 2005
Enquanto a pergunta inquietante ecoa por todos os cantos, o marido da líder política colombiana, guiado pela paixão, se lança numa ação sem precedentes: despeja milhares de folhetos com as fotos dos filhos de Ingrid sobre o ponto da floresta onde acredita estar seu cativeiro
Semiviúvo. Assim se define Juan Carlos Lecompte, diante do imenso pôster de sua mulher, Ingrid Betancourt, exposto na porta da prefeitura de Paris, junto ao rio Sena, num dia luminoso de primavera. O sol é esplêndido, mas os olhos verdes de Juan Carlos estão carregados de sombras. Ingrid está há mais de três anos num cativeiro na selva colombiana, como refém política da guerrilha de esquerda. Tinha 40 anos, dois filhos do primeiro casamento, com um diplomata francês, era senadora pelo Partido Verde e candidata à presidência da Colômbia quando foi seqüestrada, em 23 de fevereiro de 2002, pelas Farc (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas). Beleza clássica, educada na França, nos Estados Unidos e na Inglaterra, fluente em vários idiomas, Ingrid é a mais famosa dos 3 mil reféns civis e militares da guerra entre o presidente colombiano, Álvaro Uribe, e as Farc. Um conflito em que não só a ideologia está em jogo. O coquetel é indigesto, e a receita inclui o poder econômico dos narcotraficantes, a corrupção de autoridades, o terror dos paramilitares de extrema direita e a maior ajuda dos Estados Unidos a um país latino-americano. Somente um pacto humanitário entre o governo e as Farc, de troca de reféns por guerrilheiros presos, pode libertar Ingrid. Ou então a força da pressão internacional. Ninguém sabe em que ponto da floresta ou como exatamente está Ingrid. O marido, Juan Carlos, ex-publicitário que amava rock e golfe e detestava política e notoriedade, hoje é deputado do Partido Verde, viaja pelo mundo todo, e tem um palpite: sua mulher estaria na serra de Chiribiquete. Guiado pela paixão, que revolucionou seus valores, e com o dinheiro dos direitos autorais de seu livro Au Nom d’Ingrid (Em nome de Ingrid), editado em março em Paris, ele alugou um pequeno avião e no dia 13 do mês passado sobrevoou a selva do sul da Colômbia. “Joguei milhares de folhetos de papel reciclado com fotos impressas de Melanie e Lorenzo, os dois filhos de Ingrid, agora com 19 e 16 anos. Tenho certeza de que ela ficará maravilhada e surpresa de ver como eles cresceram. Melanie tem um namorado e estuda russo na Sorbonne, Lorenzo toca guitarra. Os dois sentem uma falta imensa da mãe nessa fase de amadurecimento e mudanças”, diz. O livro de Juan Carlos é um relato emocionante, uma história de amor e política, de traições e ameaças. Em Paris, Juan Carlos falou à revista CLAUDIA sobre o calvário da família, a solidariedade da Europa à sua mulher e o ceticismo em relação ao presidente Álvaro Uribe, que comparou a George W. Bush: “Os dois têm enormes fazendas, montam a cavalo, são pequenos e amam a guerra”. Uribe foi o único presidente da América Latina a apoiar a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Hoje, a Colômbia recebe milhões de dólares do governo Bush. Agentes americanos lançam, de aviões, pesticidas nos campos de cultivo de coca.



