Como construir o estudante do século 21

Quem sabe escolher tem a força

Numa quarta-feira de fevereiro, uma polêmica mobilizou alunos, professores e funcionários da Escola Lumiar, no centro de São Paulo: os alunos podem ou não chupar balas durante as aulas? A questão foi levada à Roda – uma assembléia semanal que trata de assuntos relevantes para a comunidade escolar. Todos puderam opinar e o assunto foi votado (41 contra a bala; cinco a favor). “Formas diferentes de organizar a vida na escola podem nos levar a formas diferentes – e melhores – de organizar a vida em sociedade no futuro”, acredita o educador Eduardo Chaves, presidente do Instituto Lumiar, mantenedor da instituição, idealizada pelo empresário Ricardo Semler. Experiências democráticas no ambiente escolar ainda são raras, mas começam a ganhar espaço. “Quando escolhe o que é melhor para a escola, o aluno enfrenta um problema real do cotidiano e busca soluções”, afirma Simone André, coordenadora da área de juventude do Instituto Ayrton Senna. “Saber escolher é uma macrocompetência fundamental para o jovem do século 21. Ele já se experimenta como cidadão e como futuro profissional dentro da escola.”

A riqueza da diversidade

“Conviver com a diversidade é uma expressão da inteligência humana”, afirma o filósofo e educador Alípio Casali, professor da PUC-SP. Mais do que uma exigência do mercado, que valoriza as diferenças e a contribuição que cada um pode trazer para a organização do trabalho com base na própria história, respeitar o outro é uma questão de sobrevivência da espécie no planeta. “É preciso aceitar a diversidade não apenas com respeito mas também valorizando-a como riqueza”, orienta o educador Moacir Gadotti. Muitas escolas já buscam essa integração. Alunos do ensino médio do Colégio Santa Cruz, em São Paulo, passam no mínimo dez dias por ano na Amazônia. “Eles recebem muito mais do que levam e guardam essas impressões para a vida toda”, avalia o diretor, Luiz Eduardo Cerqueira Magalhães. Aprendem sobre a necessidade de preservar a floresta e a cultura local e sobre as dificuldades de governar um país imenso como o Brasil. Dão um salto de maturidade.”

Na Escola Lumiar, dos cerca de 85 alunos, 40% têm algum tipo de bolsa. A maioria paga mensalidade cheia, de pouco mais de mil reais, mas há crianças que vivem em casarões invadidos na região e não pagam nada. Andando pela escola, não dá para perceber quem é bolsista. “Criou-se um convívio muito natural”, explica a diretora, Maria Claudia Leme Lopes da Silva. Alguns pais nos procuram por isso. Percebem que é uma forma de educar para a não-violência.”

A psicóloga e consultora Rosely Sayão lembra que “dentro das escolas há uma diversidade incrível”. “Alunos, professores, auxiliares e faxineiros são de classes diferentes, mas a escola acostuma a criança a ficar cega diante disso”, critica. O Colégio Sidarta, em Cotia (SP), encontrou uma maneira simples de derrubar esse apartheid. Ao lado dos bebedouros, costuma haver um pano de chão. Quem derrubar água cuida da limpeza em vez de chamar a faxineira. “Algumas mães protestam dizendo que o filho nunca pegou um rodo”, conta a diretora, Claudia Siqueira. “Respondo: ‘Então esta talvez não seja a escola para o seu filho’.”

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