Jovens perversos e sem limites

Onde foi que as famílias perderam a mão? O espancamento brutal de uma doméstica por garotos de classe média no Rio de Janeiro chocou o país e expôs uma geração que confunde violência com brincadeira e não tem noção de valores humanitários. Num artigo exclusivo, a psicoterapeuta LIDIA ARATANGY alerta: boa parte da encrenca começa em casa e a busca por soluções também

Abril, 1997 - Em Brasília, três adolescentes jogam álcool e ateiam fogo num homem adormecido perto de um ponto de ônibus. O homem, Galdino, um índio pataxó que participava de um encontro indígena, não resistiu às queimaduras e morreu dias depois. Os jovens alegaram que era apenas uma brincadeira e que confundiram o índio com um mendigo.

Fevereiro, 1999 - Após uma festa de confraternização de calouros e veteranos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o calouro Edison Hsueh é encontrado morto dentro da piscina do Centro Acadêmico. Segundo o delegado que atendeu o caso, o mais provável é que ninguém tenha se disposto a ajudar o colega, que não sabia nadar e se afogou. Um faxineiro encontrou o corpo cerca de nove horas depois, na piscina escurecida pelo excesso de sujeira e cloro.

Dezembro, 2005 - Três universitários da PUC de Campinas são presos sob a acusação de dopar e estuprar uma colega.

Junho, 2007 - A empregada doméstica Sirlei Dias é roubada e espancada por cinco jovens de classe média do Rio de Janeiro. Os agressores alegaram ter confundido a vítima com uma prostituta.

Que brincadeiras são essas, em que alguns se divertem às custas de alguém que é humilhado, oprimido, machucado? Será que nossos jovens não aprenderam que brincadeiras têm de ser consentidas e proporcionar divertimento para todos os envolvidos? Caso contrário, deixam de fazer parte universo do lúdico para adentrar obscuro terreno da violência. Onde foi que as famílias erraram? Por que crianças educadas com todos os recursos e nos melhores colégios vestem a pele de marginais?

É tentador atribuir essa escalada da violência a fatores isolados, como a perda da autoridade paterna ou a dificuldade de diálogo entre gerações. Questões desse calibre, no entanto, não têm respostas lineares. Esses aspectos têm relação com a violência, mas nenhum, sozinho, seria suficiente para instalá- la e mantê-la. Ainda assim, não temos o direito de nos colocar alheios à busca de soluções, com a desculpa de que a compreensão de problemas complexos, como a violência urbana, está fora da nossa alçada. Não podemos negar que parte da encrenca origina-se dentro da nossa casa, no difícil convívio com os filhos adolescentes. A necessidade de se diferenciar dos pais e a importância de se sentir parte de outro grupo que não a família são fatores que dificultam a comunicação. A perplexidade dos pais diante das transformações dos filhos e sua impotência para impedir o afastamento deles colaboram para tornar difícil esse momento. A escola também tem sua cota de responsabilidade, já que nossos jovens passam grande parte do tempo sob sua guarda. Precisamos da aliança de todos os envolvidos (família, escola e comunidade) na formação das próximas gerações.

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