Foto: Masterfile/Other Images
)Sair do emprego para ficar em casa cuidando das crianças. Se essa decisão já é difícil para as mulheres, imagine para um homem! Pois, desde agosto passado, tirei um ano para criar minhas gêmeas, Beatriz e Helena. Minha mulher – a supermãe e advogada Taís – topou a briga. E, juntos, embarcamos na incerta experiência de “mamãe trabalhadora e papai dono de casa” – até agora de muitos sucessos e, vá lá, alguns inevitáveis solavancos.
A sociedade não está moldada para o homem que decide cuidar dos filhos enquanto a mãe segue carreira nem as pessoas estão acostumadas a conviver com um pai-mãe. Falta confiança e sobra estranheza: na sala de espera do pediatra, no posto de saúde, na rua, na pracinha e até na família. Mas pai que quer ser mãe torna-se flexível. Para escrever esse artigo, pedi à minha mãe que desse uma força com as meninas. Aí vai um pouco da nossa epopeia de incertezas, acertos e erros.
Projeto filho + casa com quintal
Em novembro de 2009, a Taís me comunicou que era hora de ter nosso tão sonhado filho. Eu estava com 33 anos, tinha um ótimo emprego em um dos principais jornais do país, bom salário, estabilidade, reconhecimento profissional. Vivia em viagens pelo Brasil ou em grandes coberturas políticas. Nada a reclamar.
Ritmo de repórter é puxado, a cabeça conectada ao trabalho de segunda a segunda e muita pressão. Mas isso vira uma razão de vida, e a gente esquece que, às vezes, precisa desligar. Nessa época, eu já me cobrava fazer uma pós-graduação e dar andamento ao livro que começara. Tudo somado, decidi pedir demissão.
Havia combinado com Taís que criaríamos nossos filhos fora de São Paulo. Sendo assim, o projeto envolvia não só deixar o bom emprego na capital e sua visibilidade de mercado mas também voltar para o interior – onde há menos oportunidades e os salários caem. Ouvi dois colegas que haviam trilhado caminhos parecidos anos antes e que me encheram ainda mais de incertezas... e de vontade de entrar de cabeça na dobradinha sabático/filhos. O termo “sabático” vem do hebraico shabbath, que significa repouso, parada, descanso. No Antigo Testamento, correspondia a um período a cada sete anos, quando a terra ficava sem cultivo para depois iniciar um novo ciclo de fertilidade. Era o que eu precisava.
Com a perspectiva de passar um ano sem trabalho fixo, resolvi manter alguns serviços temporários, tocar um mestrado em ciências políticas na Unicamp e a pesquisa do livro. Desde antes do casamento, eu e a Taís nos programamos para sair da vida de apartamento e construir uma casa (ter quintal, grama, churrasqueira) quando resolvêssemos engravidar.
Obra em andamento, contas para pagar, acabei aceitando um emprego em Campinas enquanto tentávamos engravidar. Fiquei nele até agosto de 2011, quando Beatriz e Helena nasceram. O novo trabalho e a gravidez complicada levaram a uma segunda mudança de planos: o adiamento da pós e do livro. intensivão de pai-mãe Se a gravidez corresse normalmente, minhas filhas nasceriam entre o final de setembro e o início de outubro. Mas não foi assim. Depois de duas internações, no sexto e no sétimo mês, com medicação para inibir a dilatação e acelerar o amadurecimento dos pulmões da meninas, Taís foi para a mesa de cirurgia. As gêmeas nasceram na 31ª semana de gravidez, prematuras, com 1,4 e 1,5 quilo.
Ter bebê em cidade pequena tem vantagens, mas também desvantagens. A única UTI para recém-nascido de Araras (SP) tinha poucas vagas e, logo após o parto, Beatriz e Helena foram transferidas. De carro, segui a ambulância até Campinas, onde eu começaria uma maratona tensa de um mês, dividido entre o hospital onde minha mulher ficara internada e aquele onde estavam minhas pequenas (a 74 quilômetros de casa).
A UTI neonatal foi um baque: aqueles equipamentos apitando e os bebezinhos, indefesos, dentro de caixotes transparentes, envoltos em faixas, presos por fios, conectados a tubos. Fiquei estressado e com medo. Mas o pior não havia passado.
Depois de uma semana internada, recuperando-se do parto, Taís saiu e pôde ver as bebês. Iniciou a ordenha, mas quase não tinha leite. Foi aí que começou a sentir dores e precisou voltar para a mesa de cirurgia, reabrir o corte da cesárea e retirar um edema.
Com o vaivém de Taís ao hospital, assumi o papel de pai e mãe nas visitas à UTI (sempre à tarde e à noite). Foi quando aprendi a cuidar das bebês, a interpretar os choros e estabeleci vínculos afetivos com elas. Orientado pelas enfermeiras, dei banhos, fiz os primeiros “pele a pele”, amamentei, troquei fraldas e vesti minhas filhas com aquelas roupinhas que sempre pareciam gigantescas, mesmo as feitas especialmente para prematuros. Um intensivão de pai-mãe!
Antes, a palavra “pai” me trazia à mente a figura de um ser forte, grande, quase inabalável – e acho que é assim que os filhos nos veem. Só quando acordei pai, descobri quanto somos pequenos. Ainda me lembro de como, apesar de me sentir destruído naqueles dias de UTI, avivava em mim um bicho instintivo, que, mesmo com medo, permanecia firme para dar sombra e serenidade àqueles dois seres ainda em busca de caminhos.
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