O que é melhor: focar na carreira ou na família?

Duas mulheres com histórias diferentes nos ensinam a compreender que há muitas maneiras de se realizar – e que a resposta está dentro de nós.

Silvia Braccio/ Ilustração Nathália Rodrigues em 23.05.2011
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Eu parei tudo

Há alguns anos, eu ia para Nova York e voltava no mesmo dia. Uma loucura. Agora, viagem a trabalho, só como primeira-dama, acompanhando meu marido. Essa transição radical teve início em 2004, e não foi obra do acaso, embora não tenha começado por decisão minha – e sim depois de ter levado um cartão vermelho da empresa. Lá, fiz uma carreira fulminante. Sou formada em matemática com bacharelado em computação. Aos 21 anos, fui contratada por uma multinacional americana como analista de sistemas júnior. Com 28, cheguei ao cargo de vice-presidente para a América Latina de toda a área técnica, responsável por uma equipe de 200 pessoas em seis países. Trabalhava no mínimo 12 horas por dia quando não estava viajando. No meio disso tudo, casei e tive um filho, Leonardo. Não vi o tempo passar. Me separei, casei de novo e mudei de vida. Hoje, cuido da minha casa, em Vinhedo, do meu segundo marido, Celso, do meu filho e do meu enteado, Luis. Faço ginástica, encontro minhas vizinhas na academia e passei a entender a rotina das donas de casa. Confesso que achava que elas não faziam muita coisa. E sou muito feliz por ter optado por essa nova vida. Lógico que, quando fui demitida num corte de custos, levei um susto. Passei algum tempo deprimida. Uma vez, meu irmão foi lá em casa para me fazer tirar o pijama que vestia havia dois dias. E disse: “Rita, você tem 35 anos, está bem de vida e tem um filho lindo. Acorda!” Comecei, então, a descobrir o que significa ter tempo”. Nessa época, conheci melhor o Celso, que também era funcionário da empresa, namoramos e casamos. Decidi encarar aquela nova fase como um ano sabático. Mas o destino sabe mesmo o que faz. No final daquele mesmo ano, Leonardo teve lúpus sistêmico e foi internado em estado gravíssimo. Travou uma luta entre a vida e a morte, mas Deus e muitas orações “nos” salvaram. Depois que ele deixou o hospital, o médico percebeu que o tratamento não estava sendo eficiente. Ele foi submetido a novos exames e, finalmente, saiu o diagnóstico: ele tinha síndrome de Evans. Se ainda me passava pela cabeça alguma ideia de voltar a trabalhar, naquele momento ela se foi completamente. Não há dinheiro que pague alguém para cuidar do seu filho doente. Foram três anos de internações mensais. Hoje, Leo está ótimo. A vida foi entrando na rotina e eu me acostumando a ela. Logo recebi uma nova proposta profissional, financeiramente irrecusável. Só que o preço era alto demais: teria de passar 70% do tempo fora do Brasil. Fiquei uma semana sem dormir, pensando, mas respondi, sem medo: “Não”. Como iria abrir mão – de novo – de tantas conquistas? Diante da perspectiva de eu retomar aquela rotina maluca, Celso me perguntou: “Já imaginou nós dois levando esse tipo de vida?” Não, não consigo mais imaginar. Querem saber qual é o balanço que faço seis anos depois? Não sinto falta do trabalho, tenho tudo de que preciso, controlo os meus rendimentos (fiz um ótimo pé-de-meia, porque não sou boba) e adoro ser dona de casa. E não é que sobra bem pouco tempo livre? Não dá para comparar a qualidade de vida que tenho hoje com a que tinha. Continuo sendo uma mulher ativa, invisto na bolsa de valores, sou da comissão de formatura da escola do Leonardo; afinal, adoro um bom desafio. A diferença é que agora EU dou as cartas.

Nem desfaço a mala

Não fui criada para namorar, casar e ter filhos. Na verdade, sempre resisti a essa ideia. Quando cheguei perto da idade de casar, pensei: “Onde esse negócio se encaixa na minha vida?” Adiei quanto pude. Há quatro anos, após dois de namoro, casei com o Cristóvão, meu parceiro e maior incentivador do meu grande projeto profissional: sou gerente de marketing de uma empresa alemã especializada em produtos odontológicos, braço de uma multinacional americana, e quero expandir os limites para o meu poder de atuação e realização. Vivo viajando para Joinville (SC), onde está instalada a fábrica brasileira; São Paulo, onde moro; Estados Unidos e Alemanha, onde há duas outras fábricas; e América Latina para vender meus produtos. Essa rotina já dura cinco anos. Nem desfaço mais a mala, pois está sempre pronta para o próximo embarque. Nos fins de semana, não consigo me desconectar completamente. Acabo sempre dando uma olhada nos meus e-mails. Já passei por vários desafios e não descarto a possibilidade de trabalhar no exterior. Afinal, como faço parte deu uma grande rede, tenho pares estrangeiros. Se minha realização estiver em outro país, por que não? Eu e meu marido temos um acordo – ele também atua em uma multinacional de softwares –, que é o seguinte: o primeiro que receber uma proposta muito boa leva o outro. Para crescer profissionalmente, um abriria mão e tentaria um reposicionamento lá fora. Sempre ganhei mais do que os meus namorados, inclusive o Cris, e já terminei relacionamentos por causa do trabalho, por ciúme mesmo. Um deles teve a ousadia de dizer que, para ficarmos juntos, eu teria de rever a minha carreira. Cheguei a questionar se, para ter uma vida feliz, essa realmente seria a escolha mais acertada. Deu uma piração. Há homens assim, que se sentem atraídos por mulheres decididas e realizadoras, mas depois ficam com medo e querem colocar rédeas. Com o tempo, entendi. E, quando conheci o Cris, vi que tudo valia a pena. Devo a ele ter chegado até aqui feliz. E olha que não faltaram comentários do tipo: “Se continuar trabalhando dessa maneira, o seu marido vai te largar”. Parece que as pessoas não entendem que ele concorda com o meu modo de vida. Às vezes até pede para eu diminuir o ritmo porque se preocupa com a minha saúde, mas é meu grande motivador. Ele tem uma mãe tão ativa quanto eu, que fez questão de manter sua carreira. A minha mãe, que é dona de casa, sempre incentivou as filhas a serem profissionais e a não dependerem de marido. As pessoas perguntam quando eu vou ter um filho. Esperei a ficha cair aos 35 anos, não caiu. Aos 36, não caiu. Foi cair aos 37. Mas confesso que, se tivesse mais tempo, adiaria um pouco. Só que chega um momento em que é preciso ser racional. Decidimos, eu e o Cris, que é agora. O bebê será muito bem-vindo, mas não vai me parar. Minha mãe diz que duvida que eu vá cumprir os meses de licença-maternidade. Só penso que há inúmeras mulheres pelo mundo que têm de dar mais atenção à profissão do que aos filhos, não por opção, mas por necessidade. E as crianças crescem felizes, bochechudas e rosadas. O importante é a gente se livrar da culpa, e a terapia ajuda muito. O Cris brinca que vai ficar em casa cuidando dos filhos enquanto eu trabalho. Até que não é má ideia.

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