Dilema de mãe: avós não substituem os pais

A psicóloga Elizabeth Brandão explica porque é importante manter os fihos na presença dos pais — e não com os avós — quando é necessário decidir a moradia da família. Confira!

Suzana Lakatos | Reportagem Fábio Melo em 28.02.2012
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(Foto: Fuse/Getty Images)

P. Meu marido recebeu uma ótima proposta para trabalhar no exterior, mas meus filhos, de 11 e 14 anos, se recusam a mudar. Deixá-los com os avós é uma alternativa?

R. À primeira vista, entregar os filhos aos avós parece a solução perfeita. Seus adolescentes estariam bem cuidados e manteriam as atividades e o grupo de amigos. Os avós não seriam privados da convivência com os netos. E você e seu marido pilotariam a situação à distância, com o bônus de encarar o reinício de vida em outro país sem preocupações com os garotos. Na realidade, porém, é grande o risco de conflitos e prejuízos ao desenvolvimento deles.

Para começar, a relação com os avós tende a se desestabilizar rapidamente. Afinal, hospedar os netos em casa de vez em quando é bem diferente de tê-los como moradores. Haja energia para acordar cedo, mandar para a escola, dar carona, apartar brigas, arrumar a bagunça e tudo o que vem a reboque do convívio com um adolescente! Sem falar na pressão de tomar decisões e assumir a responsabilidade pela formação deles. Pior se os pais decidirem “teleguiar” a educação dos garotos. Aí, os avós provavelmente não farão direito nem aquilo em que acreditam nem o que os filhos esperam... e os netos irão manipular ambos.

Os adolescentes, por sua vez, seriam privados do confronto de opiniões e valores com os pais, fundamental para aprender a resolver conflitos, respeitar diferenças e afirmar convicções. Com os avós, esse capítulo fica de fora e cria-se uma condescendência em nome da “diferença de gerações”. A sensação de abandono é outro dano. No futuro, eles vão esquecer que quiseram ficar e cobrar a ausência dos pais. A situação pode até derivar para acusações e condutas de risco, como forma de chamar a atenção.

Manter a família unida evita essa bomba de efeito retardado. Chame os dois para uma conversa e explique que prevalecerá a decisão de vocês, pais, sobre mudar ou não. Reconheça que é natural ficarem chateados por se afastarem dos amigos, mas lembre a eles que, lá, também vão se enturmar e poderão alimentar os relacionamentos atuais por meio das redes sociais. Mostre que, às vezes, a realidade impõe caminhos que não coincidem com o que desejamos e que a experiência de morar no exterior, embora assuste, é enriquecedora e traz possibilidades de boas surpresas.

Se quiser (e puder) evitar uma ruptura brusca, você e seu marido podem ir na frente, para procurar casa e escola, e eles alguns meses depois. Não crie falsas expectativas, na linha do “se não gostar, quem sabe a gente dá um jeito”. É preferível ser sincera e enfrentar a cara virada, típica de adolescentes, com a certeza de ter feito a melhor escolha para vocês e para eles.

Elizabeth Brandão, psicóloga clínica e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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