Cinquenta anos depois de sua morte, Carmen
Amada e infinitamente homenageada, ela traduziu para o mundo a alegria, a malandragem, a sensualidade e o colorido do Brasil. No entanto, a mulher por trás do mito revelou-se muito mais do que isso. À sua maneira, Carmen foi uma revolução de pouco mais de 1,50 de altura, balangandãs e sandálias plataforma. Um exército de uma mulher só, o traço (curvilíneo) de união entre o modernismo da Semana de 22 e o tropicalismo dos anos 60. "Ela abriu o caminho para a bossa nova brilhar nos Estados Unidos. Quando João Gilberto e Tom Jobim chegaram lá, encontraram um ambiente receptivo às últimas novidades rítmicas brasileiras graças ao que ela já tinha mostrado do país", diz Sergio Molina, músico e professor de MPB nas faculdades Santa Marcelina e Alcântara Machado, em São Paulo. Antes dos tempos da cultura de massa, Carmen intuiu a força da imagem e construiu uma personagem que não era ela, a Maria do Carmo Miranda da Cunha, mas uma falsa baiana, nascida em Portugal.
"Aos olhos do público, era a primeira brasileira a criar para si uma personalidade pública - e viver dela", diz Ruy Castro na biografia Carmen, lançada no fim do ano passado pela Companhia das Letras. A cantora não lembrava nem de longe a brasileira típica dos comportados anos em que viveu. Fumava como uma chaminé, não media as palavras ("Falo palavrão mesmo, para os homens me respeitarem"), logo aderiu às calças compridas, lançadas por Marlene Dietrich, e chocava Deus e o mundo com declarações como: "Não gosto da palavra trepar, mas que é uma delícia, lá isso é". Com o tempo, esse comportamento nada convencional deu margem a boatos de todos os tipos. Corria a lenda, por exemplo, de que só se apresentava nos shows sem calcinha. Ao que parece, a história surgiu quando, ao filmar Aconteceu em Havana, saiu às pressas do trailer-camarim, sem se preocupar com a lingerie, para fazer fotos de publicidade. Seu co-star, Cesar Romero, resolveu rodopiar com ela e pronto, o flagra aconteceu. Por mais revolucionária que fosse, porém, não negava a sua educação conservadora. Era contra posar nua e, católica fervorosa, arrependeu-se a vida toda de um aborto feito na juventude.
Carmen nasceu em Portugal no dia 9 de fevereiro de 1909, na aldeiazinha de Várzea da Ovelha, no município de Marco de Canavezes, distrito do Porto. Veio para o Brasil - Rio de Janeiro - com pouco mais de 1 ano. O pai era barbeiro e a mãe servia refeições numa pensão. Para ajudar em casa, a filha começou a trabalhar cedo, e, por isso, não chegou a terminar o curso ginasial. Foi vendedora numa loja de gravatas e depois confeccionou e vendeu chapéus - aprendendo então a criar os turbantes que passaram a ser sua marca registrada. Nessa época, ganhou o apelido de Carmen, dado por um tio. Ela adorou e reclamava de quem escrevia Carmen com a letra m: "O meu é com n, como o da Carmen, de Bizet".
Descoberta por um violonista baiano, Josué de Barros, ela gravou com a ajuda dele três discos consecutivos - que não chamaram a atenção. O quarto, com a marchinha de Joubert de Carvalho, Pra Você Gostar de Mim, lançado em janeiro de 1930, bateu todos os recordes. Carmen tornou-se uma estrela do disco, ainda que fosse insuperável mesmo nos shows ao vivo, em que mostrava todo o seu carisma. Até que apareceu a oportunidade de levar sua ginga para os Estados Unidos, graças ao ator americano Tyrone Power, tido na época como o homem mais bonito de Hollywood. Ele visitava o Brasil em dezembro de 1938 quando decidiu assistir a um show da senhora dos balangandãs no Cassino da Urca. Encantado com a performance, recomendou-a ao empresário Lee Shubert. Um mês depois, ele veio vê-la e a contratou na hora para um dos papéis principais da revista musical Streets of Paris, na Broadway, em Nova York. O sucesso foi imediato. Sem falar inglês, cantando samba em português, conquistou Nova York. Ao seu lado, estava o Bando da Lua. "Ela só aceitou ir para os Estados Unidos com a condição de levar seus músicos, para garantia de suingue no samba", diz o professor Molina.
A figura exuberante da baiana, rebolando os quadris e "cantando" pelos cotovelos, com as mãos, os olhos e os pés, virou o assunto do momento. As lojas da Quinta Avenida se encheram de vestidos à la Carmen, turbantes espalhafatosos, sapatos plataforma e balangandãs. Costumava comentar que seu estilo era pessoal mesmo: "Nunca segui o que dizem que está na moda. Acho que a mulher deve usar o que lhe cai bem. Se querem me imitar, não tenho nada com isso". Na verdade, o samba-de-roda O Que É Que a Baiana Tem?, de Dorival Caymmi, que ela gravou em 1939, ajudou-a a compor o figurino e gestual. Ou seja, se ela lançou o então desconhecido Caymmi, ele, com sua descrição minuciosa da baiana, lançou-a definitivamente para o sucesso... A Pequena Notável, apelido dado pelo radialista Cesar Ladeira, tornou-se, nos Estados Unidos, a "Brazilian bombshell" - algo como "explosão brasileira". Hollywood não ficou indiferente a esse êxito. Ela estreou no cinema em Serenata Tropical, ofuscando astros como Betty Grable e Don Ameche. Foram 15 filmes nos Estados Unidos: a figura exuberante, que quase sempre aparecia como Rosita ou Chiquita, cantava e dançava enquanto ajudava a mocinha a conquistar o galã. Nos shows, de Nova York a Los Angeles, passando por Las Vegas, lotou todas as platéias. Era mais intérprete do que cantora, já que não tinha muita voz. Mas, como escreveu o cronista Antonio Maria: "Sem voz, sem virtuosismo algum, Carmen brilhava à base de três coisas: inteligência, graça e sensibilidade!"
Na esteira desse oba-oba, voltou ao Brasil em julho de 1940. Ao chegar, com um tailleur verde-amarelo, desfilou em carro aberto pelas ruas do Rio. Mas, ao se apresentar no Cassino da Urca, incluindo no repertório músicas em inglês, foi recebida friamente. Disseram que ela estava americanizada. Triste e amargurada com seu país de adoção, encomendou à dupla Luiz Peixoto e Vicente Paula um samba em que respondia a essas acusações. Gravou Disseram Que Voltei Americanizada e retornou aos Estados Unidos. (Só 14 anos depois, em 1954, viria de novo para cá, assim mesmo por insistência da irmã - e também cantora - Aurora.) Sempre tão independente e livre nos seus casos amorosos - como o músico Aloysio de Oliveira, do Bando da Lua, os atores John Payne e Arturo de Cordova, sem falar do romance nunca comprovado com o ditador Getulio Vargas -, Carmen casou-se em 1947 com David Sebastian, um nada bem-sucedido produtor de filmes. E virou uma mulher dependente. Como já tinha 38 anos, quis logo um filho, mas perdeu o bebê após um show exaustivo. Quanto a Sebastian, as opiniões se dividem. Para alguns, era um explorador que, na condição de seu empresário, fez de sua vida um inferno - batendo nela, inclusive. Outros acham que Sebastian foi um marido dedicado, que segurou a barra quando a estrela entrou em decadência, entregue à bebida e às drogas. Com sua rotina de trabalho estafante, muito álcool e pílulas para dormir e para ficar desperta, a Pequena Notável acabou realmente entrando em parafuso. Foi parar num sanatório com colapso nervoso e fez tratamentos com choques elétricos. Carmen Miranda morreu em 5 de agosto de 1955, após um show para a TV em que foi obrigada a se retirar de cena, reclamando de falta de ar. Jantou com amigos, voltou para casa, em Beverly Hills, e teve um ataque cardíaco. O enterro, no Rio, no dia 12, foi acompanhado por 1 milhão de pessoas. Ao som de muito samba, o país se despediu daquela mulherzinha corajosa e ousada, que fixou para sempre no mundo a imagem de um Brasil alegre e vibrante.
"A bossa nova encontrou um ambiente receptivo nos Estados Unidos graças ao que Carmen já tinha mostrado do Brasil"
Sergio Molina
"Sem voz, sem virtuosismo algum, ela brilhava à base de três coisas: inteligência, graça e sensibilidade!"
Antonio Maria