Bater em criança nunca é bom

A pedagogia do tapa está com os dias contados e os pais precisam aprender novas formas de resolver seus conflitos com os filhos

Arthur Guimarães em 13.05.2011
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Independentemente do amor que sentimos por nossos filhos, há situações em que as atitudes dos pequenos irritam. É nessa hora que muitas mães, cansadas de não ser atendidas, lançam mão das agressões “educativas” para punir o transgressor mirim. Fazem parte desse pacote táticas variadas – de baixo, médio e alto calibre –, como advertir com gritos, dar palmadas, beliscar, suspender a sobremesa e até colocar o filho de castigo isolado em um canto.

Para o psicólogo Lino de Macedo, essas ações são um abuso de poder. “O adulto se favorece da desigualdade para impor uma ordem. A palmada mostra uma fraqueza dos pais”, afirma Lino, que é professor de psicologia da aprendizagem, do desenvolvimento e da personalidade do departamento de psicologia da Universidade de São Paulo. Segundo ele, a mãe que agride age movida por emoções negativas que não consegue dominar. “Bater desabafa, mas não educa. Pelo contrário, gera pessoas com medo, com baixa curiosidade e sem confiança nem gosto pela experimentação”, conclui ele.

Fora da lei

O uso de punições corporais como recurso educativo virou tema de discussão em julho deste ano, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso o Projeto de Lei nº 7.672, que torna ilegal a aplicação pelas famílias de “ação de natureza disciplinar ou punitiva com o uso da força física que resulte em dor ou lesão à criança ou ao adolescente” e de “conduta que humilhe, ameace gravemente ou ridicularize a criança”. Traduzindo: palmadas, gritos e ameaças dirigidos aos filhos podem ser punidos judicialmente.

Para apimentar o debate, um levantamento do Instituto Datafolha mostrou que 72% dos entrevistados já tinham apanhado dos pais, 58% repetiriam o método com os filhos, e 54% eram contrários à nova lei. Não faltaram também artigos de especialistas e formadores de opinião considerando o zelo governamental exagerado e uma intromissão descabida na vida doméstica.

O advogado Fábio Botelho Egas, do escritório Botelho Egas Teixeira de Andrade, em São Paulo, defende que, independentemente de leis, é hora de as famílias reavaliarem o uso das agressões educativas. “Já temos várias normas que vão contra essa prática, como o próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, o Código Civil e o Código Penal. O que falta é reflexão por parte das pessoas em relação a elas”, argumenta o advogado, que acumula 15 anos de experiência em direito de família.

Força do hábito

Se o que falta é reflexão, um bom primeiro passo é entender as consequências das agressões para a cabeça da criança. Como explica a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, há estudos que mapeiam as reações cerebrais diante dos conflitos domésticos. “E eles mostram que o cérebro muda quando a criança é constantemente submetida a agressões”, explica a especialista, que é pós-doutorada pelo Instituto Max-Planck, na Alemanha, instituição de pesquisa científica.

Por uma defesa natural, nessas circunstâncias, o cérebro infantil amadurece considerando que os ataques agressivos farão parte de sua vida. Essa percepção leva ao desenvolvimento de comportamentos que garantam a sobrevivência em um ambiente hostil. “Um dos efeitos futuros pode ser a adoção pela criança de uma violência antecipatória, para se resguardar das supostas ameaças constantes”, explica Suzana. Um tratamento carinhoso, por sua vez, tem o efeito contrário. “Ele acalma, relaxa e desperta uma sensação de bem-estar. Com isso, a tendência é baixar a guarda e não ficar esperando o pior em todas as situações”, diz ela. Mas o fato é que não faltam pais e educadores que acham as palmadas aceitáveis. Normalmente, são pessoas que passaram por castigos físicos na infância e hoje acreditam que a pedagogia do tapa foi necessária naquele momento e não gerou nenhum problema sério para elas. Mais uma vez, a neurocientista desvenda o que acontece nesses casos.

Segundo Suzana, também por uma questão de sobrevivência, nosso cérebro não relaciona facilmente coisas ruins à figura da mãe. “A criança que apanha certamente sofre, mas seu cérebro não consegue registrar como negativo algo vindo da mãe. Mais tarde, ao lembrar do ocorrido, ela provavelmente irá considerar que a mãe estava certa. Mas não se trata de uma aprovação real, pois não comandamos essa função”, diz ela.

A convicção de que as palmadas de antigamente tinham lá seus méritos educativos é reforçada também pela crença de que as crianças hoje têm poucos limites. “Revisitamos velhas práticas, como se elas fossem a única alternativa para educar”, analisa a psicóloga Luciene Tognetta, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. De acordo com ela, no entanto, a diferença não está nas fiveladas do cinto, mas na capacidade de ensinar os filhos a lidar com frustrações. “Nossos pais, até por necessidade, não nos privavam delas. Se morria um bichinho de estimação, por exemplo, não ganhávamos outro no mesmo dia. Sentíamos a falta dele e vivíamos o luto. Hoje, há um pet shop em cada esquina e os pais se sentem na obrigação de suprir todos os desejos da criança”, diz ela.

Ponto de equilíbrio

Quando perdem a paciência, porém, muitos partem para a agressão, sem perceber que há outras alternativas para lidar com os comportamentos difíceis. Mas é possível segurar a própria mão, como ensinam Márcia Oliveira, coordenadora da Campanha Permanente Não Bata, Eduque, e as psicólogas Luciene Tognetta e Sônia Maria Vidigal, professora de pós-graduação em relações interpessoais da Universidade de Franca, polo Campinas.

‘Se me dá tapinhas na cara ou puxa meu cabelo, leva uma palmada Pense: você é a mãe, a criança é que precisa ser educada. Diga claramente que aqui lo doeu e que ela não deve bater. Pode não funcionar de imediato, mas dá bons resultados a longo prazo. Por outro lado, ao bater, você gera apenas dor, raiva e não ensina a criança a refletir sobre os seus atos.

‘Saio do sério com os berros do meu filho Crianças pequenas não sabem expressar emoções e desejos. Ao gritar, talvez seu bebê queira apenas solicitar sua atenção. Como adulta da relação, ajude-o a colocar em palavras esse sentimento: “Você quer a mamãe?”. Se possível, distraia-o com uma brincadeira.

‘Dou um tapinha na mão quando ele pega coisas perigosas Ele não pegará mais o objeto em questão, do mesmo modo que um ratinho de laboratório deixa de subir em uma escada ao tomar um choque. Mas continuará a se expor a outros riscos. É melhor afastar a criança do perigo e explicar que aquilo machuca.

‘Se apronta demais, leva um beliscão O suíço Jean Piaget (1896-1980), estudioso do desenvolvimento da inteligência, dizia que o castigo físico leva ao conformismo (quando a pessoa só sabe obedecer) e ao cálculo de risco (em que a obediência é proporcional ao medo do castigo). Portanto, bater para obter um bom comportamento é a receita para formar pessoas que receiam o novo ou que, no futuro, não hesitam em fazer algo errado, desde que a probabilidade de punição seja baixa.

‘Quando fico nervosa, digo ao meu filho que não gosto mais dele A retirada de amor é um método infalível... para criar um ser dependente e infeliz, que se sentirá sempre na obrigação de buscar a felicidade dos outros e nunca a própria. Ao repreender sua criança nomeie o comportamento que é alvo de desaprovação. Por exemplo: “Não gosto quando você grita”. Em vez de: “Não gosto de um bebê barulhento como você”. Afinal, confesse: seu amor de mãe é incondicional e não será verdadeiramente abalado por nenhuma traquinagem.

‘Se uma regra importante foi quebrada, deixo de castigo no berço Você pode até ir com a criança para outro cômodo, mas aproveite essa retirada para explicar o que houve de errado na atitude dela e não para castigar. Isolar o bebê como castigo ensina que estar sozinho é algo negativo, o que nem sempre é verdade.

Herança histórica

A presença do castigo físico na educação das crianças vem de longa data. Na Grécia, por volta do século 5 a.C., os espartanos chicoteavam os meninos uma vez por ano, na frente do altar da deusa Ártemis, como forma de deixá-los mais fortes. Na Bíblia, o Livro dos Provérbios afirma: “O que não faz uso da vara odeia seu filho, mas o que o ama desde cedo o castiga”. E, na Idade Média, a chamada regra de São Bento previa jejuns e surras como corretivos. Ao longo dos tempos, orientações como essas criaram a noção de que amor e punição são duas faces da mesma moeda. Só de 1970 para cá, essas práticas começaram a ser socialmente questionadas. Hoje, de acordo com a ONG End All Corporal Punishment of Children (endcorporalpunishment.org), apenas 25 países do mundo conseguiram aprovar leis e iniciaram processos para acabar com a educação por meio de palmadas nas famílias e nas escolas. No outro extremo, 145 países continuam no estágio zero dessa tarefa.

Foto Christian Parente; Edson Florindo (assistente) / Realização Mônica Tagliapietra / Assistente de produção Brenda Colautti / Modelos, Bianca Paes, Elite; criança, Victoria Moreira, Kids / Vestido, Enjoy; sapatilhas, Uza; blusa, Super Lucy; short, Green; sapatilhas, Pampilli; presilha, Acessorize

 

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