Presentes em todas as religiões, os rituais de purificação transcedem a simples limpeza física: eles preparam a alma e a casa para inaugurar em paz e com alegria uma nova etapa da vida
Cinco vezes por dia, antes de se voltar para Meca para orar, o muçulmano lava mãos, pés e rosto, no ritual da ablução, a purificação por meio da água. Para tornar-se cristão, o bebê (ou o convertido adulto) é batizado com água e, assim, purificado para entrar na nova religião. De modo similar, o mikvá, banho de imersão ritual judaico, é exigência para a conversão, uma forma simbólica de apagar o compromisso com outras crenças. E, para o hinduísta, entrar nas águas sagradas do rio Ganges é uma maneira de recuperar a pure za perdida por ações ou eventos passados.
A água, utilizada para a limpeza ritual, prepara o ser para entrar em contato com o sagrado. Também purifica o ambiente para receber a presença divina. Não só isso. "Simbolicamente, o ritual de purificação predispõe a pessoa a entrar em uma nova situação despojada do que tinha antes. É a preparação para mais uma etapa da vida", explica Maria Celina Nasser, mestre em ciências da religião pela PUC de São Paulo.
É a imagem do Brasil na noite do réveillon. Milhões de pessoas, das mais diversas religiões ou de nenhuma delas, entram no mar ou jogam rosas brancas em suas águas. Conscientemente ou não, repetem ações e gestos ritualísticos. No fim de mais um ciclo - o ano civil -, procuram se livrar das bagagens desagradáveis para poder inaugurar, com o coração mais leve, um novo momento de vida. Para a antropóloga Teresinha Bernardo, autora de NEGRAS, MULHERES E MÃES (ED. PALLAS-EDUC), esse costume repete os rituais em honra de Iemanjá, que ela considera a grande mãe dos brasileiros. "O dia de Iemanjá não é 31 de dezembro - ela é cultuada em diferentes datas, dependendo da região do Brasil. Ainda assim, é ela a grande homenageada na noite de Ano-Novo, mesmo por pessoas que não são ligadas às religiões afro-brasileiras, como o candomblé. Tem a ver com o significado da água e seu poder de dissolver o indesejado, o mal", diz Teresinha.
Segundo Maria Celina, "a composição da água do mar é a mesma da lágrima e do líquido amniótico".
Daí sua força. "A água do mar tem um simbolismo ligado à maternidade e à fertilidade. Pode gerar, continuamente, novas vidas. A esse poder de fazer 'renascer', soma-se o poder de limpeza da água em geral, não só a do mar. Tudo que é novo vem limpo." A necessidade que temos de nos sentir purificadas, especialmente nesta época do ano, está relacionada ao desejo de renovação, de nascer de novo. O que queremos deixar para trás, nessa entrada em outra etapa da vida, certamente não é algo que afastemos com um banho ou com uma faxina da casa. Porém, o fato de realizar esses atos com a disposição mental - a intenção - de nos prepararmos para uma nova fase é, no mínimo, uma maneira de entrar no clima e criar a motivação interna para que as coisas possam acontecer.
O ritual tem bons efeitos porque é realizado com uma vontade específica, repetindo atos predeterminados e utilizando elementos (como água, plantas, essências) que são símbolos universais - "por exemplo, a água ou a cor branca são associadas à pureza em todas as culturas", explica Maria Celina. Portanto, você pode buscar o seu ritual particular para entrar no ano novo de alma limpa e peito aberto. O arquiteto Carlos Solano de Paula Carvalho, especialista em "terapias da casa" baseadas em diversas tradições (das orientais, como feng shui, às da cultura popular brasileira), e Renata Ashcar, autora de BANHO: HISTÓRIA E RITUAIS (ED. GRIFO), dão as coordenadas.