Eram 4 da manhã quando parti rumo ao breu a bordo de um carrinho rebocado por uma moto anciã (o típico tuk-tuk). Na estrada, apenas os faróis de automóveis esparsos iluminavam as nuvens de poeira que levantavam da terra batida. "Eu queria mesmo estar aqui?", questionei enquanto ajeitava o lenço que protegia meus pulmões do peso do ar, tampando boca e nariz, imitando a sabedoria local. Sete quilômetros depois, quando o ronco da moto cessou, finalmente percebi que já não estava só naquela madrugada abafada. Partindo do centro da cidade de Siem Reap, eu estava chegando ao templo de Angkor Wat, maior monumento religioso do planeta.
Na verdade, a mais famosa atração turística do Camboja é "apenas" um entre mais de mil templos erguidos entre 802 e 1220 pelo Império Khmer, que se estendia do Mianmar ao Vietnã, dominando grande parte do Sudeste Asiático. O que se pode visitar hoje são 50 ruínas de santuários, entre eles Angkor Wat, que faziam parte da capital do reino, a sagrada Angkor, onde chegou a viver 1 milhão de pessoas.
Os restos mortais da antiga cidade estão pulverizados por um complexo de 400 quilômetros quadrados, com várias construções imponentes. Por isso, vale a pena investir num bilhete de pelo menos três dias (40 dólares por pessoa) ou uma semana (60 dólares). Só assim é possível explorar lugares como Banteay Srei, a 32 quilômetros de Siem Reap. Também conhecido como "templo das mulheres", ele ostenta minuciosos trabalhos em pedra. Suspeita-se que o conjunto tenha sido esculpido por mulheres, tamanha a riqueza de detalhes e o esmero do acabamento.
Os arqueólogos equiparam o furor de criatividade e devoção dispensado a Angkor Wat aos esforços empregados para levantar as pirâmides do Egito. Os templos foram erguidos entre 1112 e 1152, sob encomenda do devaraja (rei-deus) Suryavarman II para abrigar seu túmulo e servir como santuário da divindade Vishnu. Mais tarde, no final do século 12, quando a religião budista substituiria o hinduísmo, o complexo foi convertido em mosteiro.
Hoje, é lugar de meditação para monges vestidos em mantos cor de açafrão, que acrescentam um toque de leveza e alegria ao cinza monocromático do cenário. Dóceis e acessíveis, eles muitas vezes estão dispostos a conversar com os visitantes. É sempre bom esperar que a iniciativa parta deles, respeitando eventuais votos de silêncio. Mas em geral basta uma troca de olhares para selar o contato. Curiosos, eles se empenham em praticar o idioma inglês, árduo exercício para quem tem o khmer, ou cambojano, como língua materna. Com influências do sânscrito e do páli, o alfabeto cambojano é completamente diferente do latino.
A conversa com um grupo de quatro monges adolescentes se estende tarde adentro. Entre divagações sobre espiritualidade, eles descrevem a dura rotina de estudos e a vida austeríssima. Nesse momento, me deparo com o abismo entre Oriente e Ocidente e a nossa própria futilidade - eles almejam o divino enquanto brincamos de Barbie! Só mais tarde, quando nos unimos numa gargalhada ao tentar assimilar frases do idioma alheio, enxergo finalmente os meninos que tenho diante de mim por trás das cabeças raspadas.
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