Um lugar de guerras e conflitos. Até janeiro do ano passado, o Oriente Médio resumia-se a isso para a professora de literatura Marina Miranda Fiúza, 28 anos, moradora de São Paulo. “Era uma realidade distante, quase como outro planeta”, diz ela. Então, surgiu a oportunidade de embarcar em uma viagem que se revelou transformadora. Com o marido, o professor de relações internacionais Guilherme Casarões, e um grupo de estudantes universitários, ela se lançou no Caminho de Abraão (veja o quadro “A jornada do patriarca”), um roteiro nos mesmos moldes do Caminho de Santiago, a famosa rota de peregrinos que corta a Europa rumo à cidade espanhola de Santiago de Compostela. Em 17 dias, Marina e os integrantes do grupo passaram por 21 cidades e vilarejos de Israel, da Turquia, Jordânia, dos territórios palestinos e do Líbano. Refaziam parte dos passos de Abraão, o personagem que, segundo o livro do Gênesis da Bíblia, teria vivido há 4 mil anos. Chefe de um clã seminômade, ele teria cruzado o Oriente Médio durante seus 175 anos de vida, dando provas de sua fé inabalável em um Deus único – por isso, é considerado o patriarca das três principais religiões monoteístas da atualidade (judaísmo, cristianismo e islamismo). O novo roteiro está sendo procurado por pessoas que desejam entender melhor a região conflagrada, uma das mais explosivas do planeta. Um dos principais pontos de tensão tem raízes no final do século 19, quando os judeus decidiram regressar em massa a Jerusalém, na Palestina, então parte do Império Otomano, de onde tinham sido expulsos pelos romanos no século 3 d.C. Em 1948, eles constituíram o Estado de Israel, declarando sua independência. Na Guerra dos Seis Dias, em 1967, derrotaram os países vizinhos e anexaram os territórios da Cisjordânia, Gaza, Colinas de Golan e Jerusalém Oriental. Um nó que não se desatou até hoje: Israel não quer retirar os 500 mil judeus que moram na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental; os palestinos são maioria (2,5 milhões de pessoas) e colocam a desocupação desses territórios como condição inapelável para a paz.
Trilhar o Caminho de Abraão é uma viagem cheia de significados, como refletir sobre tolerância. “É um roteiro histórico-cultural que propõe colocar as pessoas em contato com os moradores dessas regiões para que enxerguem o que eles veem, conheçam o outro lado e vivenciem valores como hospitalidade e respeito”, explica Roberta Sotomaior, brasileira voluntária da ONG Iniciativa Caminho de Abraão, responsável pelo mapeamento do trajeto do patriarca. “Acreditamos que esse é um turismo transformador, que promove a reflexão e o entendimento entre os povos.” O rabino Nilton Bonder fez a caminhada, base para o livro Tirando os Sapatos (Rocco). Para Marina Fiúza, a experiência foi repleta de descobertas. “Lá, apesar de ficar chocada com as diferenças, descobri o lado humano que nos aproxima”, afirma. Aqui, ela conta as passagens mais marcantes.
2 comentário(s) de 2
Comentado em 15.05.2012 às 14:00 por dinalva pires:
responder
Comentado em 07.05.2012 às 20:37 por Cristiane:
responder