As mulheres do vinho

Elas chegam ao comando das vinícolas e logo imprimem a sua marca: a bebida que produzem tem personalidade feminina, é elegante, sensível e com notas frutadas.

Patrícia Jota e Cibele Costa em 27.04.2011
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Há uma década, o mais comum era encontrar mulheres nos vinhedos posicionadas horas a fio diante da mesa de escolha para identificar os bagos apropriados para a fermentação ou ainda na pisa das uvas – tarefas pesadas e sem grande prestígio. À frente de vinícolas, elas sempre foram raridade, em geral, herdeiras únicas do negócio, como a portuguesa Antónia Adelaide Ferreira, a Ferreirinha, nome forte no universo do vinho do Porto do século 19. A lendária francesa Barbe-Nicole Ponsardin, a viúva que ficou famosa como Veuve Clicquot, também reinou naquele século ajudando a desenvolver a técnica do remuage, responsável pelos melhores champanhes, enquanto suas conterrâneas Louise Pommery e Lilly Bollinger tornaram a casa de champanhe que representavam um emblema da região. Mais recentemente, a também francesa Carole Bouquet passou a chamar a atenção para além de sua performance de atriz. Ela colocou nas estreladas cartas do mundo todo os vinhos que assina na Sicília.

O novo movimento, porém, não se relaciona à condução dos negócios ou à elaboração de uma bebida de prestígio, como fizeram as pioneiras. Trata-se de uma corrente que apresenta um vinho com traços da personalidade feminina. Os grandes conhecedores já começam a referendar os rótulos dessa linhagem. “Sensíveis, intuitivas e atentas ao detalhe, as mulheres percebem as nuances das uvas colhidas e, por isso, conseguem extrair delas a melhor expressão do terroir, seus aromas e ingredientes naturais, produzindo, em geral, vinhos frutados e elegantes”, explica Renato Frascino, professor de enogastronomia, de São Paulo.

A bebida parece ter também algo mais leve, embora as winemakers possam elaborar tintos austeros, encorpados, com taninos pronunciados, talhados para evoluir na garrafa durante décadas. Mas elas preferem demarcar um território para a bebida que já faz fama sob o título “vinho de mulher”. Para que a ideia ganhe o mundo, as produtoras europeias se reúnem em instituições que defendem e divulgam suas criações. As ações estão funcionando: no centro de Bordeaux, na França, o restaurante La Robe, aberto há um ano e meio, oferece uma carta de vinhos exclusivamente feminina, com mais de 100 rótulos. Na Itália, a Associazione Nazionale Le Donne del Vino contabiliza 750 mulheres; na França, a Femmes de Vin engloba 80 produtoras das regiões de Alsace, Bourgogne, Bordeaux, Champagne, Vallée du Rhône, Provence, Languedoc... “Temos uma paixão em comum pela nossa terra e transmitimos os nossos valores”, explica Marie-Laurence Saladin, 29 anos, na direção da Femmes de Vin. O pensamento dela é o mesmo das outras cinco gestoras de vinícolas que CLAUDIA ouviu. Todas elaboram tintos, brancos e espumantes à semelhança de seus temperamentos.

Pioneira no Chile

Chama-se Maria Luz Marin a primeira mulher a trabalhar como enóloga em terreno chileno. Aos 60 anos, ela lembra que sua singela estreia no ramo ocorreu há quase 30. Há dez, essa engenheira agrônoma, pós-graduada em viticultura na França, quebrou outro paradigma lançando-se num projeto próprio: a Viña Casa Marin, em San Antonio, a 4 quilômetros do oceano Pacífico, onde a paisagem reúne espessas neblinas matinais, fortes ventos e temperaturas frias na época da maturação das uvas. Olhada com ceticismo pelos seus pares, que não aprovavam o local, ela acreditou que as condições extremas permitiriam que seus vinhos expressassem os mais finos sabores. E provou que sua intuição estava certa. Os traços guerreiros de Maria estão nas suas criações, que se valem de uma cartela diversificada de castas: riesling, sauvignon blanc, sauvignon gris, gewürztraminer, pinot noir e syrah. “Cada um dos meus vinhos possui sutileza, delicadeza, harmonia, muitas notas de frutos, além das características de seu terroir. São vinhos frescos, fáceis de ser apreciados”, descreve Maria, que defende o dom da mulher para o vinho. “Damos à luz e alimentamos pequenos seres. Então, é natural criarmos vinho, que é como um ente que respira”, compara. Mas põe o pé no chão: “Também usamos ciência e alta tecnologia em todos os processos, na plantação do vinhedo, na evolução da bebida na madeira e até mesmo depois do engarrafamento”. Sobre as diferenças entre enólogos homens e mulheres, conclui: Já ouvimos dizer que o olfato feminino é mais apurado do que o deles. Esse, porém, não é o motivo do sucesso. Os homens são focados em uma coisa de cada vez. Nós nos dedicamos a várias coisas ao mesmo tempo. E isso faz mais diferença do que um nariz”.

Lição do Brasil

Nós somos sócios, meio a meio, mas quem está à frente de tudo sou eu”, diz a brasileira Rosana Wagner, 48 anos, sobre o negócio que mantém com o marido, enólogo como ela. Engenheira química com passagem por uma empresa de bebidas, ela decidiu plantar um vinhedo para produzir à sua maneira. Não ficou só voltada para as uvas. Encarou uma pós-graduação em planejamento e gestão e consolidou a Cordilheira de Sant’Ana, em San t’Ana do Livramento, próxima à fronteira com o Uruguai. As variedades tintas cabernet sauvignon, merlot e tannat, e as brancas chardonnay e gewürztraminer começaram a ser cultivadas em 2000. As primeiras garrafas saíram em 2005 e logo fisgaram um distribuidor, numa feira na Alemanha, que pediu a Rosana para explicar o que ele notava de especial. “Eu disse que o vinho requer bons frutos. Segundo os sábios, a agricultura é contemplativa e, por isso, feminina. Só uma mulher, com sua paciência, é capaz de esperar, a cada ano, uma colheita de uvas de características únicas e transformá-las num produto que evolui constantemente.” Resultado: Rosana fechou o primeiro negócio de expor tação para o mercado alemão.

Reinvenção de Bordeaux

Até assumir, em 1993, os destinos da vinícola da família, a francesa Armelle Falcy-Cruse, 47 anos, suou bastante para convencer o pai a confiar nela. Não passava pela cabeça dele tê-la a seu lado por considerar que moças não eram bem-vindas num universo tão masculino. Depois de visitar vinícolas do Napa Valley, na Califórnia, e de trabalhar no setor de compras de uma empresa de vinhos na Inglaterra, a enóloga voltou ao seu país e acabou conseguindo o que queria. Diretora geral do Château du Taillan, em Bordeaux, fundado por seu avô, ela reinventa o perfil dos vinhos da casa. Os que eu faço são diferentes daqueles que meu pai fazia”, diz. “O vinho reflete a mão do produtor. Eu ressalto o equilíbrio da bebida em vez de sua potência e adstringência.” Esperta, Armelle implementou uma política para atrair o público que desconhecia as novas criações: abriu as portas do château em todas as épocas do ano, inclusive na colheita, algo incomum. “Na região, carregamos uma imagem de vinhos clássicos e pretensiosos. Quero mudar isso. As pessoas precisam se sentir à vontade diante de uma garrafa do meu Cru Bourgeois Château du Taillan”, afirma. Entre os rótulos, o branco La Dame Blanche, nome que se refere às pedras claras que erguem a propriedade, é um peculiar sauvignon blanc do Médoc, bastante afamado no país. Para incrementar ainda mais os negócios, Armelle se juntou a outras três produtoras – Martine Cazeneuve, Marie-Laure Lurton e Florence Lafragette – e criou o grupo Les Medocaines, que organiza degustações, jantares e outros eventos para divulgar as respectivas vinícolas. Por que não há homens no time? “A ideia surgiu num encontro de produtores, mas apenas nós quatro levantamos os dedos e topamos o desafio. Os homens disseram: ‘Meninas, divirtam- se. Nós temos outros assuntos para tratar’.”

Garota do Douro

Herdeira do Grupo Amorim, líder mundial na produção de rolhas de cortiça e uma das multinacionais portuguesas importantes, Luisa Amorim, 36 anos, se destaca no Douro, norte do país e berço do aristocrático vinho do Porto. Formada em hotelaria, há dez anos iniciou a recuperação da propriedade familiar, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, um belo casarão do século 18, implantado num mar de vinhedos. Em seguida, lançou uma marca própria de vinhos e inaugurou o primeiro hotel vínico do país. “A Quinta Nova tem bastante da minha alma e do meu amor”, assume Luisa. “Sou incapaz de assinar uma bebida pela qual não seja apaixonada.” No ano passado, ela produziu 200 mil garrafas. “Meu vinho é feminino porque tem aroma exuberante e fino.” O que faz a diferença nos néctares é a casta lusa touriga nacional, de característica floral. “As bebidas revelam também notas de bosque e de frutos ver melhos. Têm caráter de terroir clássico, num tom contemporâneo e fresco”, diz Luisa, que poderia ser chamada de Douro Girl, inspirando-se no famoso grupo formado por cinco produtores homens: os Douro Boys.

Perfume na Itália

A italiana Piera Martellozzo, 46 anos, não pretendia fazer parte dos negócios da família até que seu pai lhe jogou as chaves da vinícola, no Veneto, e foi viajar pelo mundo em férias permanentes. Ela acabava de fazer 29 anos e confessa que entrou em pânico, pois não entendia nada de vinhos, apesar de ter crescido entre eles. “Mas senti também uma emo ção incrível e o peso da responsabilidade.” Ela se dedicou muito. E tomou tanto gosto que foi atrás de mais uma propriedade, esta na venerada região de Friuli. Piera comprou a terra e, há 12 anos, toca ali uma agricultura orgânica. Sua vinícola produz 8 milhões de garrafas por ano, entre brancos, tintos e espumantes. O carro-chefe é o Spumante Rosé Dry Cuvée, extremamente feminino. “Ele é vivo, frutado e tem uma cor puxada para o rosa. Seu buquê exala aromas de amorapreta e framboesa. Com esse vinho – para mim rico como um perfume raro –, reforço a imagem de que a vinícola é dedicada às mulheres. Embora os homens também apreciem muito a nossa bebida”, conta. No ano passado, o espumante arrematou a medalha de prata no concurso Decanter World Wine Awards, realizado em Londres.

Fotos rack com garrafas, Kathrin Ziegler / Gettyimages; Rosana Wagner, Duda Pinto; Piera Martellozzo, Maria Luz Marin, Luisa Amorim e Armelle Falcy-Cruse, divulgação


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