Sheryl Sandberg: “E assim começou o restante da minha vida”

Sheryl Sandberg, braço direito de Zuckerberg no Facebook, mergulhou fundo na dor do luto após a morte do marido para retornar com uma lição de esperança.

(John Lee/CLAUDIA)

“E assim começou o restante da minha vida”, escreveu Sheryl Sandberg,  a poderosa chefe de operações do Facebook, ao narrar os momentos trágicos que antecederam o último abraço no corpo do marido, Dave Goldberg, morto poucas horas antes, vítima de um infarto fulminante na academia de um resort mexicano.

Era maio de 2015 e o restante da vida dela, de repente, não se parecia em nada com o horizonte sem limites que ela acenara às mulheres, dois anos antes, ao escrever o livro Faça Acontecer – Mulheres, Trabalho e Vontade de Liderar, em que encampara a causa da equidade de gênero na carreira.

Sem o marido, ele também um executivo superbem-sucedido do Vale do Silício, parceiro querido e pai de seus dois filhos, Sandberg, então com 45 anos, habituada a resolver qualquer coisa, viu-se pela primeira vez diante de algo que não podia consertar. “Fazer acontecer?”, perguntou-se. “Eu mal conseguia ficar em pé.”

Um dos impactos inesperados do luto foi a perda da autoconfiança: “Eu achava que nunca mais poderia ser uma boa amiga, que não seria mais capaz de fazer bem o meu trabalho”. Em seu primeiro dia de volta à empresa, dez dias depois da morte do marido, pegou no sono durante uma reunião, confundiu-se sobre um colega e saiu às 14 horas para buscar os filhos na escola.

À noite, ligou para o chefe, Mark Zuckerberg (fundador e presidente do Facebook) e disse que não sabia se deveria estar lá. “Mark respondeu: ‘Fique em casa o tempo que precisar. Mas, sinceramente, gostei muito de tê-la aqui hoje. Você trouxe dois pontos muito importantes para a reunião’.” Esse pequeno voto de confiança teve um grande efeito sobre ela.

Sheryl Sandberg com Mark Zuckerberg (Reprodução/Facebook)

Dois anos depois de sua “queda no vazio”, como descreve o início desta segunda e não planejada vida, e de aprender que teria que mergulhar na própria dor até bater o pé no fundo e tomar impulso para cima para respirar novamente, Sheryl Sandberg volta à superfície com um  livro sobre a construção da resiliência diante da adversidade e o resgate da felicidade, escrito a quatro mãos com o psicólogo Adam Grant.

Plano B (Editora Fontanar,  39,90 reais), no topo da lista dos mais vendidos nos Estados Unidos e recém-lançado no Brasil, é um livro comovente e corajoso. Primeiro pela franqueza com que a autora revela os detalhes mais íntimos da própria dor e descreve momentos privados que as pessoas geralmente se constrangem em compartilhar.

Como o choro, todas as noites, no colo da mãe, até dormir para acordar no dia seguinte sem imaginar como o mundo podia continuar a existir sem Dave. E, principalmente, pela sensibilidade de perceber que expor o próprio sofrimento poderia inspirar e ajudar outras pessoas.

O livro é sobre aprender a viver sem o plano A. Desde o falecimento do marido, conta Sandberg, tem ouvido muitas pessoas dizerem “não conseguir imaginar como ela está ali, de pé, em vez de ficar só deitada num canto em posição fetal”. Ela reconhece a si própria nessa afirmação.

Lembra de ter pensado o mesmo ao ver um colega no trabalho depois de perder um filho, ou ao encontrar um amigo tomando um cafezinho depois de um diagnóstico de câncer. Quando passou para o outro lado, sua resposta mudou para: “Eu também não imagino, mas não tenho alternativa”.

Na verdade, teve, sim: tirar o máximo da opção B que a vida lhe reservou. No caso dela, isso significou levantar do chão depois da perda do amor da sua vida; reconhecer a própria vulnerabilidade e a força inesperada diante da tragédia; cuidar sozinha dos filhos; voltar ao trabalho; recuperar o humor, a esperança e até a alegria de sair e se divertir (ela está namorando há um ano com Bobby Kotick, fundador de uma empresa de games).

Sandberg com Dave, em 2009 (CLAUDIA//Getty Images)

Foi sobre todas as dores e vitórias desse processo que Sheryl Sandberg falou nesta entrevista exclusiva a CLAUDIA.

CLAUDIA: Depois da morte de Dave, você começou um diário (foram mais de 100 mil palavras em cinco meses) e terminou por escrever um livro, que está agora no topo da lista dos mais vendidos. Como isso ajudou em seu processo de luto?

Sheryl Sandberg: A vida inteira tentei ter um diário, que sempre iniciava e abandonava alguns dias depois. Foi só quando decidi fazer a pesquisa para o livro que vi como o diário me ajudou. Comecei na manhã do enterro de Dave, quatro dias após sua morte. “Hoje vou enterrar meu marido” foi a primeira frase que escrevi.

Um diário onde você expressa suas emoções é superimportante para processá-las. É fundamental ser capaz de articular o que está acontecendo com você. Mais tarde, passei a trabalhar no livro, que, além do meu relato pessoal, tem outras duas partes: as pesquisas sobre adversidade e felicidade e histórias de outras pessoas. Ambas me ajudaram tremendamente. Saber o que os psicólogos vêm estudando há anos sobre resiliência me trouxe esperança. E as histórias de outras pessoas que sofrem ou sofreram adversidades foram incrivelmente inspiradoras.

CLAUDIA:  Você conta que passou pelos três Ps da teoria do psicólogo Martin Seligman sobre como as pessoas lidam com a adversidade: a personalização (impressão de que a culpa é sua), a permeabilidade (sensação de que o acontecimento negativo vai afetar todos os setores da sua vida) e a permanência (crença de que a tristeza vai durar para sempre). Como você superou essas armadilhas?

Sheryl Sandberg: Saber que são armadilhas me ajudou muito. A questão da personalização, de achar que era minha culpa, foi tremenda desde o início. Eu, de fato, me culpava por tudo e tive que parar de pedir desculpas o tempo todo. Só consegui quando Adam (Grant, psicólogo e coautor de Plano B) me disse que, se eu continuasse a me culpar, meus filhos não iriam se recuperar. Tive que combater a permeabilidade e encontrar  algo de bom em outras partes da minha vida. E, finalmente, pude entender que nada é permanente: não vou me sentir assim para sempre.

CLAUDIA:  O que mais foi preciso mudar para seguir adiante?

Sheryl Sandberg: Uma das lições surpreendentes aprendidas com Adam foi que sempre pode ser pior. Um dia ele me disse isso e pensei: “Meu marido acaba de morrer e você está brincando?”. Ele me fez enxergar. “Bem, ele podia ter tido o ataque cardíaco enquanto dirigia com seus filhos.” Levei um baque! É verdade! E isso me fez ser grata, de maneira totalmente diferente, por meus filhos estarem vivos.

CLAUDIA: Você entrou para um clube do qual ninguém quer ser sócio. O que tem aprendido com outras viúvas ou pessoas que sofreram perdas?

Sheryl Sandberg: Esse convívio é absolutamente necessário. Importante para entender e para ser entendida. Junto com o livro, lançamos uma comunidade virtual, a optionb.org, e também o perfil Facebook.com/Optionbcommunity para promover a conexão de pessoas que estão lidando com os mesmos desafios. Há, entre outros, um grupo  maravilhoso, o Option B: Coping with Grief, com 8 mil membros, onde publico posts com frequência. É uma troca poderosa. Não é alegre, mas é tremendamente acolhedora.

CLAUDIA: O que aprendeu sobre resiliência?

Sheryl Sandberg: Aprendi que tenho mais do que supunha. Há uma citação no livro que adoro: “Somos mais vulneráveis do que pensamos, mas mais fortes do que imaginamos”. Aprendi quanta força meus filhos têm. Aprendi quanta força eu posso ter quando não tenho outra escolha. Aprendi a ser mais grata – eu não gostava de festejar meu aniversário e fazia piadas sobre ele. Só comemorava de cinco em cinco anos! Nunca mais fiz ou farei piadas sobre um aniversário de novo.

CLAUDIA: Vai celebrar o próximo?

Sheryl Sandberg: Vou fazer 48 anos no dia 28 de agosto. A idade que Dave nunca chegou a ter. Desde que ele morreu, nunca mais deixei de fazer festas de aniversário. Não são grandes nem chiques: sirvo hambúrguer e cachorro-quente, batata frita e onion rings! Os convidados são meus amigos mais chegados, os filhos deles e os meus. Mas são importantes. E muito alegres.

CLAUDIA: Seu rabino, Nat Ezray, que celebrou o funeral de seu marido, a aconselhou a mergulhar no sofrimento (“Lean in to the suck”, numa alusão ao título do livro anterior de Sandberg). Como encarou esse conselho?

Sheryl Sandberg: Primeiro pensei que não era isso que tinha em mente quando escrevi Lean In (risos). Mas me ajudou a aceitar que ia ser realmente difícil – e que não havia nada a fazer para consertar aquela situação. Essa consciência, por si só, já faz diferença.

CLAUDIA: Fica mais fácil suportar a dor quando se tem alguma fé religiosa?

Sheryl Sandberg: Ajuda muito. E acho que essas experiências desafiam a fé. Meu cunhado me diz que ele e Deus estão de relações cortadas. Muitas pessoas têm sua religiosidade abalada, mas é importante e poderoso acreditar em algo maior do que si mesmo, acreditar estar conectado a coisas maiores.

CLAUDIA: Você se sente conectada espiritualmente ao seu marido? Acredita em vida após a morte?

Sheryl Sandberg: Acredito que o amo mesmo na perda. Eu costumava achar que o amor só podia acontecer quando alguém está vivo. Agora sei quanto se pode amar alguém depois da morte.

CLAUDIA: O que é mais desafiador: sobreviver à fase aguda do luto ou levar uma vida feliz e normal após algum tempo?

Sheryl Sandberg: Certamente o luto profundo dos primeiros dias, porque não acho que levo a mesma vida normal de antes. Sou diferente, fui totalmente modificada. E, muitas vezes, isso é bem difícil. Fica mais difícil em algumas ocasiões, como no Dia dos Pais… O aniversário da minha filha está chegando. Ela vai completar 10 anos e me disse: “Não posso acreditar que o papai não viveu até eu ter 10 anos”.

Na verdade, ele não viveu até ela fazer 8, e esses momentos são de profunda tristeza. Mas eu também acho que tenho hoje uma vida com muito mais significado. Acabo de mandar um e-mail para a amiga de uma amiga cujo marido cometeu suicídio há duas semanas. Eu falei que, embora ela ainda não saiba, a  dor vai diminuir.

Ela me escreveu de volta dizendo que não está feliz e que não acredita que terá alegria algum dia. Mas que, desde já, sente que sua vida tem mais significado. E é grata por coisas que não era antes. Isso não quer dizer que a gente queira buscar essa via de crescimento. Eu trocaria qualquer medida do meu crescimento para ter o Dave de volta. Mas eu simplesmente não vou ter o Dave de volta. Então fico com o crescimento.

CLAUDIA: Você tem tido coragem de abordar pessoas, como a amiga da amiga que acaba de mencionar, para falar alguma coisa em um momento tão difícil, o que é incomum. Que conselho daria para os “amigos-que-não-perguntam”, como você denomina no livro a maioria das pessoas que não dizem nada?

Sheryl Sandberg:  Parte da razão pela qual escrevi Plano B foi para chutar o elefante da sala. Atenção, pessoas que ficam em silêncio: silêncio provoca câncer. Conhecemos alguém cujo pai foi preso, ou perdeu o emprego, ou alguém próximo morreu e… ficamos quietos.

Não sabemos o que dizer ou dizemos platitudes como “tudo vai ficar bem”. Você não sabe se alguém que tem câncer vai ficar bem. Eu não digo mais isso. O que digo, quando alguém está sofrendo, é:  “Sei que você não sabe se vai ficar bem. Também não sei. Mas você não está só, estou aqui com você. Reconheço sua dor”.

CLAUDIA: Como você lidou com o isolamento que sentiu logo que voltou ao trabalho? E onde está o elefante agora?

Sheryl Sandberg: Um dos repórteres que me entrevistou me deu um elefante de pelúcia que agora mora na minha sala (risos). Um mês depois da morte de Dave, no final do período judaico de luto chamado shloshim, publiquei um post no Facebook, o que é algo meio chocante de fazer.

Quem escreve um post nessa hora??? Pois eu me sentia tão profundamente isolada que postei e funcionou. Não trouxe Dave de volta, não levou o luto embora, mas me lembrou que havia outras pessoas ao redor e as encorajou a me mandar muitas mensagens e a passar a falar comigo sobre minha perda.

CLAUDIA: O que você nunca deve dizer a alguém que sofreu uma perda?

Sheryl Sandberg: Algumas vezes por semana, eu pergunto para alguém “Como vai?” e ouço: “Ah, estou exausta. Meu marido está viajando e estou sozinha com as crianças”. Um dos amiguinhos do meu filho me falou no Dia dos Pais: “Estou tão triste porque meu pai está viajando nesta semana…”. Veja, tem muitas coisas que as pessoas não deveriam dizer, e eu mesma já falei muitas delas. Mas o que é mais doloroso é  o silêncio. E não reconhecer o seu sofrimento. Dizer “Você vai ficar bem” é negar a sua dor.

CLAUDIA: Você conta no livro que, quatro meses depois da morte do seu marido, um amigo próximo foi à sua casa para instigá-la a voltar a dar o máximo de si no trabalho. Apesar de parecer um tanto insensível, esse tipo de abordagem pode ser positiva?

Sheryl Sandberg: Todos têm o próprio tempo de luto. Além disso, as pessoas vivem diferentes situações financeiras que as fazem voltar ao trabalho em momentos diversos. E aí está a importância de existirem melhores políticas internas de licença do trabalho nas empresas. Muita gente, aqui nos Estados Unidos, não tem direito a nenhum dia.

No Facebook, expandimos para 20 dias o período de afastamento por luto ou doença familiar. Há um movimento de grandes corporações para ampliação da licença de luto. Para mim, voltar para o escritório era melhor do que ficar em casa. Retornei dez dias depois da morte de Dave e, embora estivesse completamente destruída, foi melhor do que estar na cozinha e pensar, como penso até hoje, que a porta vai se abrir e ele vai entrar. E mais:  quando as pessoas retomam suas funções, é importante não apenas recebê-las bem mas confiar nelas e ajudá-las a desempenhar suas tarefas.

CLAUDIA: Nunca pensou em deixar seu trabalho e mudar radicalmente de vida?

Sheryl Sandberg: Eu mudei radicalmente de vida. Viajo muito menos e estou em casa todas as noites com meus filhos para jantar. Dave costumava alternar comigo esses momentos e eu saía muito mais. Não faço mais isso. Mantive meu trabalho, mas mudei completamente a divisão do meu tempo. Meus filhos estão na escola o dia todo e me sinto muito privilegiada em ter algo que amo, como a minha profissão, para me dedicar. Você deve encontrar e fazer coisas em sua vida que sejam boas.

CLAUDIA:  Você dedicou um capítulo de seu primeiro livro à importância do parceiro no crescimento da carreira, ignorando as mães solteiras. Hoje, como você vê essa questão?

Sheryl Sandberg: Eu não fazia ideia do significado de ser uma mãe solteira, não sabia nada sobre o que elas enfrentavam. E me arrependo muito desse capítulo, até escrevi um post no Facebook no Dia das Mães me desculpando por ele.

CLAUDIA: O que é mais difícil ao voltar a se divertir e namorar: lidar com as suas emoções ou o medo de ser julgada?

Sheryl Sandberg: Definitivamente, lidar com as minhas emoções. Eu me sinto muito mais isolada do que julgada. Eu me sinto julgada, um pouquinho. Mas, na maioria das vezes, solitária. É como se eu fosse um fardo para as pessoas à minha volta, sabe?

CLAUDIA: Como seus filhos reagiram ao fato de você estar namorando?

Sheryl Sandberg: Meus filhos apoiam qualquer coisa que me faça feliz. Mas eles são muito pequenos (9 e 12 anos) e não entendem tudo. O que os adultos deveriam compreender é que, quando alguém perde o parceiro, não quer namorar outras pessoas. Nunca quis namorar de novo. Eu tinha a pessoa com quem queria passar o resto da minha vida. Agora não tenho mais essa opção. Portanto, devemos julgar menos e apoiar mais, principalmente as mulheres: nós as julgamos muito mais por voltar a namorar do que os homens.

CLAUDIA: O que mais as pessoas julgam?

Sheryl Sandberg: O humor! Ah, o humor! Tenho uma amiga, Nell Scovell, editora do meu livro, que tem quatro irmãos. No funeral da mãe dela, durante a elegia, ela puxou um envelope e disse: “Tenho aqui o nome do filho favorito da mamãe!” Era um funeral e todo mundo riu. O humor traz alívio, mesmo que seja por uma fração de segundo, e não deveria ser julgado.

CLAUDIA: O que espera agora do plano B da sua vida?

Sheryl Sandberg: Viver cada dia. Ajudar a construir a comunidade Plano B, ajudar meus filhos a ser tudo o que puderem ser. Dizer a outras pessoas que as coisas vão melhorar. Mergulhar na dor, sempre que ela aparecer, e tentar encontrar alegria em todos os outros momentos.

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